A safra de soja 2026/27 no Paraná enfrenta um período de incertezas após as fortes chuvas que atingiram diferentes regiões do estado no início de novembro. Além de dificultar as operações no campo, o excesso de umidade pode comprometer a formação das lavouras, exigir uma nova semeadura em áreas prejudicadas e aumentar as despesas dos agricultores. O cenário preocupa porque parte significativa da área destinada à cultura já recebeu sementes. Conforme o Departamento de Economia Rural (Deral), até 26 de outubro o plantio havia alcançado 62% dos 5,74 milhões de hectares previstos para o ciclo.
A intensidade das chuvas e a fase de desenvolvimento das plantas serão determinantes para dimensionar os prejuízos. Nas propriedades onde a soja ainda não foi semeada, o solo encharcado pode atrasar a entrada de máquinas. Já nas áreas recém-implantadas, as condições de umidade elevam o risco de problemas no estabelecimento da cultura.
O engenheiro agrônomo Giuseppe Marcantonio, especialista em perícia judicial, explica que a chuva intensa pode provocar compactação e selamento da superfície do solo, especialmente quando a área permanece exposta. Nas lavouras em desenvolvimento, as dificuldades de acesso também podem impedir a realização de práticas de manejo no momento adequado.
Uma das principais preocupações dos agricultores é a necessidade de refazer o plantio em áreas com redução expressiva no número de plantas. Embora a soja tenha capacidade de compensar falhas de população, essa característica, conhecida como plasticidade, não garante a manutenção da produtividade em todas as situações.
A decisão sobre uma nova semeadura depende da avaliação do potencial produtivo da lavoura remanescente e dos custos envolvidos na recuperação da área. Segundo Marcantonio, o investimento apenas em sementes para o replantio fica próximo de R$ 600 por hectare, equivalente a aproximadamente R$ 1.450 por alqueire. Com a soja considerada a R$ 130 por saca, a despesa representa quase cinco sacas por hectare.
Esse cálculo não inclui outros gastos necessários à operação, como combustível, inoculação e fertilizantes.
Paraná está entre os estados com maior perda projetada
As dificuldades provocadas pelos temporais surgem em meio às projeções dos possíveis impactos do El Niño sobre a produção brasileira de soja. Levantamento da Serasa Experian, divulgado em 28 de outubro, aponta que um episódio forte do fenômeno climático pode resultar em produção nacional 9,7% inferior à esperada em condições climáticas neutras na safra 2026/27.
Entre os 13 estados com redução projetada está o Paraná, que apresenta estimativa de perda de 2,3 milhões de toneladas. O volume é o terceiro maior do país, ficando atrás apenas das projeções para Mato Grosso e Goiás.
Diferentemente de regiões onde a falta de chuva representa uma das principais ameaças, no Sul do Brasil a influência do El Niño costuma favorecer precipitações mais frequentes. Para Marcantonio, a preocupação não se limita ao volume de água recebido pelas lavouras. A sequência de dias nublados pode reduzir a disponibilidade de luz solar e prolongar a fase vegetativa da soja.
O ambiente mais úmido também aumenta a atenção com doenças, enquanto a persistência das chuvas pode dificultar atividades agrícolas. Nas regiões de Campo Mourão e do Oeste paranaense, onde parte das lavouras é semeada em setembro, o risco se estende ao período de colheita. Caso as precipitações sejam frequentes em janeiro, poderão ocorrer atrasos na retirada da produção e problemas de qualidade, incluindo a presença de grãos ardidos e mofados.
Os episódios de chuva, vento e granizo ocorreram entre 1º e 2 de novembro, com registros de danos principalmente nas regiões Noroeste, Oeste e Centro-Sul do Paraná.
O balanço preliminar da Defesa Civil Estadual contabilizou 1.277 pessoas afetadas e 350 residências danificadas em 17 municípios.
Entre as ocorrências mais expressivas, Maringá registrou ventos de 96,3 km/h no aeroporto durante a madrugada de segunda-feira (2), conforme medições do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). A prefeitura decretou estado de calamidade pública. Em Marquinho, o granizo provocou danos em 270 casas e afetou 1.080 pessoas. No município de Mercedes, aproximadamente dez propriedades rurais sofreram estragos, enquanto a destruição de uma cooperativa resultou em prejuízo estimado em mais de R$ 600 mil.
A prefeitura de Mercedes levantou a possibilidade de um tornado, mas o Simepar informou que o fenômeno ainda não havia sido confirmado.
As medições das estações meteorológicas também mostram o volume expressivo de chuva em poucas horas. Entre a meia-noite e as 8h de segunda-feira, Palotina acumulou 65,2 milímetros; Cianorte, 62,8 milímetros; Inajá, 57,2 milímetros; e Maringá, 51,8 milímetros.
A previsão meteorológica indica a possibilidade de formação de um ciclone extratropical nesta semana, com risco de supercélulas entre quarta-feira (4) e quinta-feira (5).
Perdas podem comprometer pagamento de dívidas
Além das consequências sobre a produção, os danos climáticos podem afetar a capacidade financeira dos agricultores que contrataram crédito para custear a safra. O advogado Raphael Condado, especialista em direito do agronegócio, observa que a redução da receita agrícola pode provocar dificuldades de caixa, principalmente porque os compromissos financeiros permanecem mesmo quando a produção é prejudicada.
Nesse contexto, a comprovação dos danos passa a ter importância tanto para o acionamento de mecanismos de proteção quanto para eventuais solicitações de prorrogação de financiamentos.
Entre os documentos necessários estão laudos técnicos elaborados por profissionais habilitados, fotografias com data e localização geográfica, registros de precipitação e granizo e decretos municipais de emergência, quando disponíveis.
Para produtores com seguro rural ou cobertura pelo Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), a comunicação do sinistro deve respeitar os prazos estabelecidos pela seguradora ou instituição financeira.
Também é necessário evitar modificações na área atingida antes da vistoria pericial, incluindo operações de colheita, pois essas intervenções podem comprometer o direito à indenização.
Quando os prejuízos afetam a capacidade de pagamento, o Manual de Crédito Rural, no item MCR 2.6.4, prevê a possibilidade de prorrogação da dívida, observadas as condições aplicáveis. O tema também é tratado pela Súmula 298 do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Conforme Condado, o produtor deve formalizar o pedido por escrito e apresentar documentação que demonstre os impactos sobre a atividade. A orientação é fazer a solicitação antes do vencimento da obrigação financeira, sempre que possível. O especialista destaca ainda a importância de avaliar as condições oferecidas pelas instituições financeiras em propostas de renegociação.
A substituição de garantias por alienação fiduciária de imóveis e a inclusão de cláusulas que restrinjam a contestação de valores cobrados estão entre os pontos que exigem atenção.
Com parte da safra ainda em implantação e a possibilidade de novos episódios de instabilidade, os produtores paranaenses precisam acompanhar as condições das lavouras e dimensionar eventuais perdas. O resultado dessas avaliações será importante para decidir sobre replantios, organizar os custos adicionais e administrar os compromissos financeiros do ciclo agrícola.