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Entrevista: Flávio França Jr., fala sobre o panorama atual da soja

França Junior mostra os prós e os contras deste fato e ressalta a importância de manter os investimentos em tecnologia, mesmo em épocas de margens mais enxutas


Flávio Roberto França Junior é analista sênior do Grupo Safras&Mercado, com mais de vinte anos de experiência em análise agroeconômica de commodities, com foco na soja. Nesta entrevista, ele traça um panorama do momento atual deste grão que, no Brasil -segundo maior produtor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos - atingiu mais de 60 milhões de toneladas na safra 2007/2008, de acordo com a Embrapa Soja.

As perspectivas são de uma safra recorde tanto na América do Sul quanto nos Estados Unidos. França Junior mostra os prós e os contras deste fato e ressalta a importância de manter os investimentos em tecnologia, mesmo em épocas de margens mais enxutas.

Como está o mercado da soja neste momento? E quais as perspectivas para os próximos meses?

Estamos na fase final da nova safra nos EUA, que vai confirmando recorde histórico. Isso faz pressão para baixo no mercado. Essa é uma variável fundamental no processo de definição das tendências para o próximo ano. Além desse fato, há também uma previsão de safra recorde na América do Sul. As condições meteorológicas sinalizam um ano melhor para o Centro-Sul do Brasil, Paraguai e Argentina porque teremos a atuação do fenômeno El Niño, que está associado a safras boas. Com isso, os fundamentos da safra da soja 09/10 são baixistas nesse momento, por conta da sobre oferta. A expectativa é um boom de oferta e recuperação dos estoques globais.

Também há uma variável importante de indefinição para produtos - o câmbio - que nesse momento é uma variação ruim por falta de definição. Não dá para dizer hoje se em março de 2010 o câmbio vai estar melhor ou pior. A instabilidade é um fato negativo que prejudica o planejamento.

O cenário está complicado, mais apertado em relação a preços e margens de lucro. O produtor vai precisar de muito cuidado, muita atenção.

Que tipo de cuidados?

Ele deve acompanhar o mercado, estar sempre atento. O mercado é dinâmico e oferece oportunidades de negócio e se ele estiver atento consegue aproveitá-las.

Além disso, deve manter a boa administração dos seus custos de produção. É fundamental administrar esses custos, negociar, juntar forças com outros produtores. Em um ano de margens apertadas, qualquer centavo será decisivo. Mas nunca se deve comprometer a tecnologia, pois em situações deste tipo o diferencial entre ter renda positiva e negativa pode ser na produtividade média. Em nenhum momento o produtor pode abrir mão da tecnologia.

E, finalmente, o produtor deve tentar a boa comercialização do produto, por meio de negociação antecipada, seja em mercado físico ou futuro.

Mas há algum aspecto positivo neste cenário?

Sim, há a probabilidade de o produtor brasileiro obter uma boa produtividade média, pois ele diluiu seus custos de produção: quanto mais produção, menor o custo unitário do produto. Além disso, para essa safra o preço dos insumos está reduzido, principalmente no caso dos fertilizantes.

Em termos de mercado, provavelmente será um ano de recuperação da demanda. Há sinais de melhora na economia global e, com isso, os investidores estão voltando a atuar no mercado de commodities - e a soja é a principal delas.

O senhor falou da importância de se manter os investimentos em tecnologia. Qual prioridade o produtor deve ter?

Tudo o que envolve tecnologia deve ser feito. Sementes, adubação, defensivos agrícolas. Toda essa parte é fundamental e não deve ser perdida. A safra 2008/09 foi feita sem muita adoção de tecnologia e acho temerário que isso aconteça novamente nessa safra.

Há alguma região brasileira que se destaque no plantio, não apenas em quantidade, mas também na qualidade dos grãos?

Hoje no Brasil os cinco maiores produtores são o Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso do Sul, nessa ordem. Em termos técnicos o Mato Grosso tem vantagens sobre as demais, com média de produtividade superior aos outros estados. Na sequência vem o Paraná e ambos são altamente tecnificados e detém os maiores índices de utilização de sementes certificadas, de adubação, de correção de solos e controle químico. Não é coincidência e nem sorte serem os mais produtivos.

O senhor acha importante os produtores dividirem a plantação entre soja e milho?

Existe a safra de verão e a de inverno. Na primeira, a soja é a principal, mas também é plantado milho e outras culturas, como algodão, arroz, feijão, cana e sorgo. Os produtores investem nessas culturas e dependendo da região fazem a alternância. O histórico sempre foi o de dividir entre soja e milho, em média meio a meio. Nos últimos anos cresceu muito o plantio do milho no inverno, a safrinha. Então a soja está disparando no verão e o milho está diminuindo nesta época. Hoje é isso, e embora o milho continue sendo a segunda cultura de verão, a proporção não é mais de 50%.

Com isso ocorre a monocultura da soja no verão? Quais as consequências disso?

O problema de só se plantar soja é que você caminha para a monocultura, o que pode trazer alguns problemas, entre eles os sanitários e os de pragas. Se o produtor consegue fazer a rotação de culturas ajuda a controlar tudo isso. E também tem a questão de mercado, porque com a monocultura o produtor fica dependente de um só produto, o que pode não ser positivo caso haja alguma retração de preços, por exemplo.
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