Ernesto Illy afirma que falta sabor e aroma ao café orgânico
Para Ernesto Illy, da Illycaffè, não há futuro para a lavoura cultivada sem agrotóxicos
Para Ernesto Illy, da Illycaffè, não há futuro para a lavoura cultivada sem agrotóxicos. Uma das vozes mais respeitadas da cafeicultura mundial, o italiano Ernesto Illy, da Illycaffè, causou furor ao decretar diante de uma platéia de pesos-pesados da indústria e da produção que o "cultivo de café orgânico não tem futuro" e que as lavouras de aspecto debilitado se assemelham a verdadeiros "campos de concentração".
Falando inglês com sotaque carregado, o empresário disse que o plantio "só dá dinheiro para as empresas certificadoras" e resulta em uma bebida de "péssima qualidade". Não há números oficiais. Estima-se que a produção de cafés orgânicos não passe de 50 mil sacas no Brasil e 150 mil sacas no mundo, principalmente na América Latina, África e Ásia.
As declarações de Illy, feitas durante a 2 Conferência Mundial do Café, em Salvador, injetaram cafeína no ânimo dos participantes e originaram reclamações em swahili, espanhol, vietnamita e nos outros tantos idiomas que circularam pelo evento, que reuniu quase mil representantes do setor cafeeiro de todo o mundo.
O italiano baseou suas declarações nos resultados de estudo do professor holandês H.van der Fossen, segundo o qual o produtor de orgânico recebe ágio de 30% pelo café, mas a produtividade é 70% menor. "Uma planta que não recebe fosfato, não é bem alimentada e não pode produzir um bom café", diz. "O grão perde as características de aroma e sabor".
Quando perguntado se sua empresa já havia estudado criar uma linha de cafés orgânicos, Illy soltou uma risada debochada. Disse que sua empresa "só produz cafés de qualidade".
É um atrevimento que só Ernesto Illy, com 80 anos, poderia cometer. Químico e biólogo molecular, ele repassou o comando da empresa, fundada por seu pai Francesco, a seu filho Andrea e hoje se dedica a percorrer o mundo visitando lavouras e tomando suas tradicionais seis xícaras diárias de café. No ano passado, a Illycaffè faturou €205 milhões.
"Muitos consumidores compram como forma de ajudar pequenos produtores, mas isso é demagogia. Os consumidores ajudariam muito mais se comprassem os cafés sustentáveis", diz. Os cafés sustentáveis são aqueles que respeitam o meio ambiente. Os cafeicultores que operam dentro do sistema não podem usar trabalho escravo e devem comprovar que seus filhos freqüentam a escola.
"Entendo que o sr. Illy esteja defendendo os interesses da sua empresa, e não do setor. Do contrário, por que grandes empresas como a Kraft Foods ou a Procter & Gamble produzem orgânicos com lucro?", diz Lorenzo Castillo, secretário-executivo da Junta Nacional do Café do Peru, entidade que reúne pequenos produtores, entre eles 24 mil famílias de cafeicultores que plantam sem o uso de fertilizantes químicos ou agrotóxicos. Ele diz que o estudo holandês citado por Illy pode ser "direcionado". "É preciso realizar mais investigações para saber se os dados são realistas".
A produção orgânica é a única alternativa para a maioria dos pequenos agricultores, que não tem acesso ao crédito oficial para o plantio e por isso não dispõe de recursos para investir, diz Castillo. "Se os pequenos tivessem acesso a financiamentos, provavelmente seria mais rentável para eles plantar o café convencional. Mas o fato é que não temos acesso ao dinheiro". Ele também rebate as insinuações de que o grão orgânico é de baixa qualidade.
Castillo calcula que no Peru, em média, a rentabilidade do plantio de orgânico é de 7%, pequena, porém suficiente para o sustento das propriedades familiares. A maior parte da produção daquele país, de 38 mil toneladas, é exportada para Europa e Estados Unidos.
O café orgânico foi vendido na safra passada ao preço médio de US$ 104,30 a saca, com ágio de 23% em relação ao convencional. O custo de certificação é elevado, de US$ 2,6 por saca.