Estado quer fim de trades em fluxo com a China
Eliminação de intermediários vai depender de estrutura do Banrisul
A estratégia foi um dos pontos defendidos pelo coordenador da Assessoria de Cooperação e Relações Internacionais (Acri), Tarson Nuñez, para incrementar o fluxo comercial que atinge atualmente cerca de US$ 5 bilhões entre o Estado, cuja única moeda de troca ainda é a soja in natura, e o país asiático. Os rumos das relações comerciais e de cooperação com o gigante do oriente, que na última década desbancou os Estados Unidos como o principal parceiro comercial do Brasil e, por consequência, do Rio Grande do Sul, estiveram no centro das atenções de um painel promovido na tarde de ontem na sede da Fundação de Economia e Estatística (FEE).
Ao longo do encontro, especialistas avaliaram as dificuldades em superar entraves culturais que ainda barram avanços e, muitas vezes, pesam sobre o déficit brasileiro nas transações de comércio exterior com a China. Na avaliação de Tarson Nuñez, a realização de missões culturais no âmbito estadual foi responsável por sinalizar algumas alterações. Apontadas como o principal fator para os investimentos de R$ 250 milhões necessários para a instalação da fabricante chinesa de caminhões Foton Aumark, em Guaíba, as visitações bilaterais efetivadas em 2013 também trouxeram ensinamentos no que se refere à constituição de marcos regulatórios para outros tipos de captação de recursos.
"Nossa intenção era inaugurar uma alternativa para financiar obras de infraestrutura. Os chineses estavam dispostos a inaugurar este modelo que ainda traria o bônus de uma redução no custo de suas importações de commodities com origem no Estado. Isso não foi concretizado por estarmos atrasados no que se refere à formulação de uma regra clara para este tipo de demanda por aportes", destacou. Para o coordenador da Acri, o objetivo prioritário da política externa gaúcha na Ásia deve contemplar a oferta de porta de acesso alternativa para abrigar o número crescente de empresas chinesas em processo de internacionalização de suas operações.
A visão é sustentada pelo diretor do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA), da Ufrgs, José Vicente Tavares dos Santos. O sociólogo defende que o modelo econômico chinês, fundamentado nas exportações, foi capaz de sustentar taxas de crescimento de dois dígitos ao longo da última década, culminando em um PIB de US$ 7,3 trilhões em 2012 (10% rural, 47% industrial e 43% de serviços), tende a ser substituído por uma economia criativa mais voltada à internacionalização dos processos. Ainda assim, Santos percebe uma série de transformações internas e o aumento da demanda por segurança alimentar e recursos naturais, cada vez mais escassos para uma população de 1,4 bilhão de pessoas que pela primeira vez na história atinge um índice de urbanização superior a 50%.
Neste contexto, o peso das decisões políticas em curso a partir da gestão do presidente Xi Jiping, que encerrou, no ano passado, uma década de comando de Hu Jintao na China, serão cruciais para a definição dos rumos econômicos. Isso porque 70% das empresas e indústrias ainda são estatais e o restante está sob o comando de alguma joint-venture encabeçada por membros do partido comunista chinês (PCC). Apesar da maior abertura comercial, o embate sobre a constituição de um modelo possível para a democracia chinesa deve continuar esbarrando no fato de que mais de 800 milhões de chineses pertencem ao PCC - o que representa algo próximo a 57% da população.