Estoque alto ameaça próxima safra de uva, após 2 recordes
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Agronegócio

Estoque alto ameaça próxima safra de uva, após 2 recordes

Acúmulo é de 306 mi de litros de vinho, sucos e derivados
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As duas maiores safras de uva que já se colheram no Brasil, na sequência de 2011 e 2012, criaram projeções de um efeito negativo para a viticultura gaúcha para o ano que vem: o acúmulo estimado de 306 milhões de litros de vinho, sucos e derivados em estoque, no Rio Grande do Sul (que representa 90% da produção nacional), põe em cheque a capacidade de escoamento da indústria processadora e, portanto, em risco a remuneração dos agricultores.


"Se não tivermos um aumento nas vendas e um programa de escoamento, vamos ter problemas", prevê o coordenador da Comissão Interestadual da Uva, Olir Schiavenin. Especialistas consideram 150 milhões de litros um limite para a segurança dos estoques. "O problema não é a falta de capacidade. É a venda, o preço", afirma o representante.

Os gaúchos colheram 696,1 mil toneladas de uva no primeiro trimestre deste ano (a colheita vai de janeiro a março). O volume só não foi menor do que o do ano passado: 709,6 mil toneladas. Como os estoques já vinham elevados de 2011, o volume excedente ficou 100 milhões de litros acima do nível seguro em 2012. "A uva não é um bem que pode ser estocado in natura. Deve ser absorvida pela indústria e processada logo após a colheita", explica o diretor-técnico do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Leucir Bottega. "A preocupação é de que não haja espaço para estoque no ano que vem. O produtor, se não tiver isso, perde a produção", observa.


Contudo, o potencial de armazenagem de bebidas processadas da uva, no Rio Grande do Sul, é de um bilhão de litros, com possibilidade de ampliação pontual, baseada no uso de caminhões-pipa, como lembra Schiavenin. Mesmo assim, os produtos em estoque têm uma durabilidade média de dois anos, de acordo com o especialista. Portanto, na análise de Bottega para o ano de 2013, as indústrias vinícolas podem re-jeitar novas aquisições de uva. Diferentemente da produção catarinense de frango, em que os produtores se integram às fábricas, ou mesmo da cultura gaúcha da cevada, em que os negócios são baseados em contratos de produção, a tradição da viticultura está na "confiança verbal", entre agricultores e processadores da fruta, diz Schiavenin.

Para Bottega, a queda do preço pago, por exemplo, ao vinho brasileiro, pode ser severa em 2013. "Tem que se ver até que ponto a derrubada de preços não significa quebra de empresas", diz.

Importados

"Não estamos sendo ameaçados por safra recorde", adverte o diretor-executivo da Federação das Cooperativas do Vinho (Fecovinho), Hélio Marchioro. "O que nos ameaça é a diminuição da participação do vinho brasileiro no mercado internacional", afirma. "O estoque excedente preocupa por causa da possibilidade de não-absorção da uva brasileira no ano que vem, o que é uma consequência da entrada da bebida estrangeira", relaciona.


No caso de sucos e outros derivados da fruta que não o alcoólico, alguma legislação proíbe a concorrência externa no Brasil, segundo a Ibravin. Contudo, enquanto cerca de 50% do preço final do vinho brasileiro são impostos embutidos, a bebida do Chile e da Argentina, por exemplo, chega ao varejo com valores difíceis para a concorrência nacional.

"Ninguém esperava que o vinho de fora ocupasse tanto espaço no mercado. O produtor brasileiro expandiu área, e até pensa em produzir mais", afirma Marchioro.

Para que se sustente a expansão interna, os representantes da cadeia do vinho propõem o seguinte: redução da carga tributária sobre o produto nacional; maior regulação sobre os importados ("há muito descaminho [na importação]", insinua Marchioro; "aqui chega vinho por ar, por terra e por água"); pontualmente, leilões e subsídios à exportação, para sanar situações como a atual (o que já foi feito em 2009 pelo governo federal, segundo Bottega).


"Em termos de equipamento, a indústria brasileira é a mais avançada do mundo. Em qualidade, temos avançado muito", garante Schiavenin. No Rio Grande do Sul, cuja viticultura se expande por 50,6 mil hectares, a produtividade média é de 20 mil quilos por hectare. O custo de produção de uma uva padrão é de R$ 0,65.

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