Leite paraguaio mais barato gera queixa de produtores de MS
Mais barato, leite paraguaio ganha os supermercados de MS e irrita produtores
A entrada de leite UHT – o longa vida – do Paraguai a preço 18% mais barato que o valor de comercialização em Mato Grosso do Sul está gerando reclamações da cadeia produtiva do leite.
A Saga Agroindustrial, que produz o leite São Gabriel do Oeste, encaminhou semana passada documento pedindo providências ao secretário de Produção e Turismo, Dagoberto Nogueira, que o encaminhou à Câmara Setorial, ligada à Famasul (Federação da Agricultura de Mato Grosso do Sul).
No dia 21 a câmara setorial engrossou o coro e também pediu medidas o mais rápido possível para conter a entrada do leite estrangeiro. Os produtores alegam que a cadeia produtiva do leite, que envolve 32 mil famílias, está ameaçada.
A gritaria dos produtores, entretanto, não tem muita chance de prosperar em forma de retaliação ao leite paraguaio. A SFA (Superintendência Federal de Agricultura) constatou que o leite da marca Trebol é de boa qualidade e obedece normas de rotulagem. Além disso, os produtos paraguaios são beneficiários das tarifas aduaneiras diferenciadas amparadas pelo Tratado do Mercosul.
Enquanto a Saga, que é a única a produzir o leite longa vida em Mato Grosso do Sul, tem custo de produção de R$ 1,15, o leite paraguaio chega a R$ 0,90 no Estado e já é vendido ao consumidor a R$ 1,20 em Campo Grande e interior. Nas prateleiras, o consumidor encontra o leite produzido em Mato Grosso do Sul a R$ 1,45 a caixa, em média.
A Saga já perdeu para os fabricantes do Trebol o posto de fornecedor para um importante comprador: o Atacadão. Vendendo por atacado e varejo, o supermercado cobra R$ 1,20 por litro. O Trebol também está nas prateleiras de supermercados menores, como os da Rede Econômica. No supermercado Gaúcho, do bairro Coronel Antonino, por exemplo, sai a R$ 1,28, contra R$ 1,49 do leite São Gabriel do Oeste. O proprietário do estabelecimento e presidente da Amas (Associação de Supermercados do Mato Grosso do Sul), Luiz Tadeu Gaedick, afirma que a procura ainda é maior por marcas convencionais, mas o preço tem ajudado as vendas do Trebol.
Este ano a redução do preço pago ao produtor pelos 64 laticínios de Mato Grosso do Sul já chega a 31%, de R$ 0,50, em média aos atuais R$ 0,38. A presidente da câmara setorial do leite, Adriana Mascarenhas, ressalta que, embora a produção interna de leite tenha sofrido redução, por conta da estiagem prolongada, no Rio Grande do Sul houve aumento de 20% e esse excedente no mercado acaba surtindo efeito em todo o País. Segundo ela, há suspeitas de que os paraguaios estejam praticando dumping – venda de um produto abaixo do custo para quebrar os concorrentes.
Além disso, o dólar em baixa prejudicou as exportações, preparadas para cotação de R$ 2,45 a R$ 2,40, quando hoje está na casa dos R$ 2,26. Esse conjunto de fatores negativos somado à perda de renda da população, inibindo o consumo, acaba agravando a situação do produtor de leite. Em Mato Grosso do Sul são produzidos 475 milhões de litros de leite.
Qualidade aprovada – O superintendente federal de Agricultura, José Antônio Felício, afirma que assim que recebeu ofício da Seprotur (Secretaria de Produção e Turismo) acompanhou pessoalmente a inspeção do leite, e garante que não há nada que deponha contra a qualidade do produto.
Pelo contrário, segundo ele, o leite é produzido por uma cooperativa de alemães radicados no Paraguai desde 1927 e que alcançaram um nível de tecnologia que possibilita a produção de leite com qualidade a custo baixo. “Estamos acompanhando a questão e não existem irregularidades. Temos o tratado do Mercosul e a OMC (Organização Mundial do Comércio) e não há como impedir a entrada do produto”, afirma.
Felício afirma que mesmo a rotulagem e embalagem dos fardos estão de acordo com o que a legislação brasileira preconiza. As análises do leite em laboratório também foram todas favoráveis à qualidade do produto.