Máfia do café de Minas Gerais tem conexão com São Paulo
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Agronegócio

Máfia do café de Minas Gerais tem conexão com São Paulo

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Uma conexão internacional responsável pelo desvio e remessa de mais de 200 mil sacas de café (número até agora contabilizado) produzidas no Sul de Minas Gerais será investigada pela Comissão de Segurança Pública e de Combate ao Crime Organizado da Assembléia Legislativa do Estado. A suspeita é que a "máfia do café" que atua naquela região do Estado vinha utilizando uma estrutura corrupta no Porto de Santos, em São Paulo, para o envio da produção de grãos para o exterior, principais compradores do café dos municípios do Sul de Minas, considerado de primeira qualidade.

Somente de Poços de Caldas, segundo denúncias dos produtores rurais desse município, foram desviadas 84 mil sacas na gestão anterior da Cooperativa Regional de Cafeicultores da cidade. O sumiço foi denunciado em março do ano passado. Em Muzambinho também foram desviadas 60 mil sacas há pouco mais de um ano e meio, conforme o advogado dos sitiantes e produtores rurais, Caio Duílio Borelli.

A suspeita do desvio e remessa da imensa produção de café do Sul de Minas para o exterior se sustenta no mistério que há anos perdura na região sobre os furtos dos grãos sem que as Polícias Civil e Federal, além do Ministério Público tenham tomado iniciativa no sentido de apurá-los devidamente, conforme membros da Comissão da Assembléia.

Além de Poços de Caldas, Muzambinho, Guapé, Conceição da Aparecida e Carmo do Rio Claro, onde já foram oficialmente constatados os desvios, mais cinco municípios (Machado, Nova Resende, Alfenas, Varginha e Guaxupé) estão na lista da investigação da Assembléia Legislativa que se iniciará após o Carnaval. Estima-se que mais de 200 mil sacas de café já foram desviadas da Região nos últimos três anos. O prejuízo, considerando a cotação da saca a R$ 210, é superior a R$ 42 milhões.

Em todos esses casos, os principais prejudicados são os pequenos e médios produtores rurais e sitiantes, que no caso destes produzem café em pequenas quantidades. A situação tem chegado, para estes produtores, ao desespero, abalando a economia desses municípios e exigindo a intervenção da polícia, do Ministério Público e da Justiça, como no caso de Carmo do Rio Claro e Conceição da Aparecida, mais recentemente.

Intervenção da PF

A Comissão da Assembléia se reunirá na segunda-feira que vem, 16, quando deverá aprovar o requerimento de autoria do deputado estadual Rogério Correia, membro dessa instância da Casa e líder do bloco do PT/PC do B, o qual solicitou a aprovação de uma audiência pública para discutir o problema.

Para apurar a possível conexão internacional, via Porto de Santos, a Comissão pode tomar duas iniciativas, segundo o parlamentar que propôs o requerimento: marcar a audiência para uma das cidades-pólo do Sul de Minas, provavelmente Varginha ou Alfenas, e solicitar a intervenção da Polícia Federal no caso.

"Parece-nos, após a constatação de desvios de volumes imensos do café produzido no Sul de Minas, que há a presença de um dos braços do crime organizado com ramificação internacional no caso, o que no nosso entendimento deve ser rigorosamente apurado e esclarecido à sociedade mineira de forma exemplar", resumiu o deputado.

Sumiço de grãos é mistério

O desvio e a possível remessa para o exterior do café produzido no Sul de Minas, em volumes cada vez maiores, teve início com a denúncia do desaparecimento de 18 mil sacas de café nas cidades de Conceição da Aparecida, Carmo do Rio Claro e Guapé, ocorrido em 16 de dezembro passado. O caso teve a intermediação da Polícia Militar, do Ministério Público daquela Comarca e da Justiça da Comarca de Passos, para se evitar a exaltação dos ânimos dos pequenos e médios produtores rurais da região.

A intermediação se deu com o objetivo de ressarcir, em parte, os prejuízos das comunidades produtoras de café desses municípios. O desaparecimento das sacas de café dessas cidades, como de outros municípios da região, contudo, continua envolto em mistério total. O delegado responsável pelo Inquérito Policial (IP), Marcos Tadeu de Brita Brandão, afirmou ao Hoje Em Dia que não há conclusão sobre o episódio e que apenas ouviu algumas testemunhas por enquanto. Passados os trinta dias de apuração teve que pedir prorrogação de prazo à Justiça e que ainda não recebeu o IP de volta.

Na audiência pública que será realizada pela Assembléia Legislativa em uma das cidades-pólo do Sul de Minas, pretende-se justamente dar início ao processo de elucidação desse mistério. Para tanto, a Comissão da Assembléia convocará tanto os produtores rurais lesados quanto convidará para debater o problema as autoridades do Ministério Público e das polícias dessas cidades.

Algumas pessoas que certamente serão convocadas para a audiência pública serão as testemunhas do desaparecimento das 18 mil sacas de café do galpão da Exportadora de Café do Carmo Ltda. Uma delas é o eletricista João Bertolino Neto, 30 anos, que afirmou ter visto duas carretas saindo de madrugada do galpão. Ele disse ainda que não só ele, mas outras pessoas que estavam próximas à estrada de acesso àquele município, também viram a movimentação dos caminhões carregados de café.

"Eu vi as duas carretas saindo do galpão, apesar do horário, e afirmo isso em qualquer lugar", garantiu. Esses depoimentos reforçam a convicção de setores importantes de segmentos da sociedade dessas cidades de que há, nesses furtos, a forte atuação do crime organizado.


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