Os desafios e a coragem das comitivas no Pantanal
O trabalho dos peões por traz do segundo maior rebanho bovino do mundo
"Agora se a gente tirar o gado do que nós vamos viver?". A pergunta é da sitiante de Minas Gerais, dona Odete Garcia. Para muitos brasileiros, o boi vai além de um modo de produção, ele alimenta uma razão de vida!
Seu Miranda sabe disso. Ele é chefe de comitiva, para ele e os cinco companheiros, a companhia do boi é o ganha pão de cada dia, o destino de todas as energias e o motivo pra tocar em frente.
Quatro horas da madrugada e o café desperta os peões antes da noite acabar.
Amanhecer em uma paisagem de filme é privilégio de pantaneiro, mas a beleza sempre nasce junto com o trabalho: o dia começa com a preparação das mulas. De 35, as seis melhores são escolhidas.
Como em um time, cada um tem a sua função. O cozinheiro é o primeiro que sai, ele se adianta para fazer a comida, o ponteiro toca o berrante e puxa a tropa de mulas, os fiadores não deixam o bois saírem pela lateral, o meeiro vai ao centro do rebanho, e o último homem é o culatreiro, que cuida da retaguarda.
"O culatreiro é o seguinte: a gente vem atrás da boiada, empurrando ela e cuidando para ver se não fica nenhum boi para trás, para o campo vizinho", explica o culatreiro de 51 anos, Moisés da Silva.
Ramon Miranda é o condutor, como chefe, é dele a responsabilidade de entregar a boiada inteira e sadia.
"Pra mim é uma satisfação conduzir 1.119 bois entre cinco companheiros", diz Seu Miranda.
A viagem de 20 dias começou no município de Miranda e termina em Rio Negro, Mato Grosso do Sul. No Pantanal, caminhão não roda na cheia, o boi só viaja a pé.
Quando o sol bate a pino, o cozinheiro Carlos Pedro, conhecido como Morcego, já está com o almoço pronto.
"A gente come mais é feijão mesmo, carne com macarrão e arroz", fala Morcego.
Para quem está acostumado com trabalho sem trégua, uma hora livre chega a doer! O tempo solta a rédea da saudade. "Sinto mais saudade da minha esposa, a gente é sempre ligado um com o outro", conta Seu Moisés.
O fiador Marinho Gonçalves tem três filhos e confessa que que às vezes chora, acha que só o trabalho tempera a bruteza da saudade: "Toda pessoa que tem um filho sente saudade, mas ele tem que superar porque o pai tem que trabalhar, tem que lutar, se não nunca consegue nada".
Seu Marinho cita música de Tião Carreiro e canta: "A saudade tem que deixar pra trás e continuar na estrada".
O condutor Seu Miranda, explica que muitos fazendeiros preferem tocar a boiada por terra porque o boi chega mais bonito, mais tratado, do jeito que sai da fazenda. E o boi também prefere, porque ele vai comendo e dormindo pelo caminho.
Quando chega o entardecer a tropa encosta cansada. Os peões escolhem o ponto para passar a noite e o pouso de pau fincado vai estendendo as redes, por dentro, o pelego para aguentar o frio e por cima o mosqueteiro para se proteger dos insetos.
Quando os peões levantam já tem 1.119 cabeças esperando por eles. O pagamento é feito quando a boiada é entregue, e logo já tem mais 600 bois para a comitiva levar para o Rio Negro. "Recusar a gente não pode, essa é a minha luta, o meu emprego. Isso é uma satisfação, um prazer ter emprego para trabalhar", fala Seu Miranda.
A modernidade continua precisando deles, Seu Miranda constata com gosto que nem tudo mudou com o tempo. No Pantanal, onde a vida sempre andou em bando, a comitiva ainda tem muito chão pela frente.