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Praga dos palmais ameaça o nordeste

Uma praga devastadora ameaça a pecuária do sertão nordestino. Pesquisadores buscam alternativas para contornar o problema


Uma praga devastadora ameaça a pecuária do sertão nordestino. Ela ataca e destrói a palma, principal fonte de alimento para o gado na seca. Na Paraíba, pesquisadores buscam alternativas para contornar o problema.

Seu Genival Barro observa com tristeza um cenário que, anos atrás, lhe enchia os olhos: "Tudo isso aqui era palma. Tinha muita, eu tinha uns 15 quadros de palma. 15 hectares. Agora pra nós acabou tudo, né?, porque não existe mais a palma", diz ele.


Muitas vezes, a seca arrasa as lavouras de milho ou feijão, mas com a palma não deveria ser assim, já que ela resiste bastante à estiagem. Por isso, imaginar o sertão sem palma, é mais difícil: "Ave Maria, o sertão, o forte do sertão é a palma.", diz ele.

Mas o que acabou com a palma do seu Genival não foi a seca. O grande inimigo é esse bichinho minúsculo, que a gente vai conhecer já, já.

No sertão nordestino, nos meses de seca, a palma é a salvação do rebanho. Esse cacto tem grande capacidade de armazenar água. É rico em energia e de fácil digestão. Os animais comem com vontade.

A palma é nativa de regiões áridas do continente americano, em especial do México. Há relatos de que as variedades existentes no nordeste vieram no começo do século passado pelas mãos de dois empresários da indústria têxtil: Delmiro Gouveia e Herman Lundgren.

"A palma veio para o Brasil não para alimentar o gado, e sim para a utilização do corante para tingimento de tecidos.", diz Edson Lopes, agrônomo da Embrapa e da Emepa, a Empresa de Pesquisa Agropecuária da Paraíba.

Segundo Edson, no passado, a palma fornecia tinta usada, principalmente, em tecidos. Na verdade, não é bem a palma que serve de tintura - e sim uma praga que ataca a planta - a cochonilha, o tal bichinho que vem devastando as plantações do semi-árido.

Os insetos-fêmeas, quando se alimentam da seiva, produzem ácido carmínico que é a substância química de um corante vermelho de alta qualidade. Só que na década de 20, os corantes naturais perderam terreno para os químicos derivados do petróleo. A palma acabou perdendo sua utilidade original, mas pouco tempo depois...

"Por acaso um dia alguém viu um animal se alimentando da palma e a partir daí o pessoal passou a utilizar a palma como alimento animal", conta Edson.

Desde então a palma virou alimento, forragem para o gado. ganhou até sobrenome: "Palma forrageira". Hoje, o Brasil tem a maior área plantada do mundo: cerca de 600 mil hectares. A grande maioria cultivados com a espécie "opuntiae ficus-indica", conhecida popularmente como palma gigante", mas chegou um momento em que o casamento feliz da palma com o nordeste começou a balançar, trazendo desalento a milhares de agricultores. Tudo por causa da tal cochonilha.

"Nós temos aí conversa de pessoas dizendo que ela veio pra melhorar a renda do agricultor pernambucano com carmin", diz Edson.

Os corantes naturais voltaram a ser valorizados e pra retomar a antiga função da palma, foi trazida, não se sabe exatamente por quem, uma nova leva de cochonilhas.

Acontece que trouxeram a cochonilha errada. Essa, além de produzir o corante em quantidade insuficiente, ainda libera um toxina que mata a palma. "Uma tragédia. Até hoje nós estamos perdendo a guerra contra a cochonilha.", diz Edson.

A verdadeira cochonilha do carmim, é a dactylopius coccus, cujo corante, por ser natural, até hoje é muito usado na produção de medicamentos, cosméticos, tecidos, alimentos como doces, bebidas, iogurtes. A cochonilha que está acabando com palmais inteiros também é do gênero dactylopius, só que de outra espécie, a "opuncia".


"É uma cochonilha que é usada como controle biológico de palmas na África do Sul e Austrália.", diz Edson.

A primeira notícia de infestação veio de Sertânia, em Pernambuco. Depois, foi a vez do município vizinho: Monteiro, na Paraíba. Com alimento farto, a cochonilha rapidamente se espalhou. Em 2007 já tinha devastado lavouras de palma em pelo menos 41 municípios da Paraíba. Trinta e seis, em Pernambuco e dez, no Ceará. Ao todo, já são mais de 150 mil hectares infestados.

"Aqui em Monteiro, a palma praticamente desapareceu. Existem já propriedades abandonadas, a quantidade de leite foi reduzida drasticamente, de 50 mil litros para dez mil litros, praticamente a bacia leiteira de Monteiro está fadada a um prejuízo muito grande em função da cochonilha do carmim.", diz Edson.

Segundo cálculos da Emepa, o prejuízo material já passa de 400 milhões de reais. Seu Genival barro, viu seu rebanho cair pela metade: "Criava umas 60 rezes. Eu tinha umas 200 ovelha, agora tem umas 100 e pra alimentar agora ficou difícil, né? Tô comprando caro. Um caminhão de palma por mais de 300 real e num dá pra uma semana não. Já morreu sem ter os alimentos que é palma. Agora é sofrer, né? porque se pega um ano que não chova, que deus nos livre, nós num atravessa e quando tinha palma atravessava. Espero que tivesse o governo aparecesse um remédio que combatesse ela e nós voltasse a plantar de novo, pra nós ter palma de novo, né?", diz Genival.

É seu Genival, por enquanto não tem remédio. Até já existe um inseticida desenvolvido por uma grande empresa de agroquímicos, mas ele ainda aguarda registro no Ministério da Agricultura. Para conviver com a praga, o jeito é adotar medidas alternativas.

É o que faz Jeneci de Alcântara, também criador de Monteiro. A produtividade do palmal caiu muito, é verdade. O custo e o trabalho aumentaram, mas ele não desistiu e suas 50 vacas continuam produzindo o leite que garante o sustento da família.

"Muita gente deixou de plantar, né? mas eu não deixei não, eu tô acreditando que tem que ir. A palma é um alimento que nesse tempo seco só tem ela pra dá ao gado, se não for ela como é que vai sobreviver o gado, né? E próprio mesmo a vaca de leite, porque a vaca de leite, até no tempo de inverno tem que comer a palma. Se não, não produz o leite. E para conviver com essa cochonilha, é o detergente e a gente vai levando...", diz seu Jeneci.

Seu Jeneci está usando um detergente comum, comprado em supermercado. Ele aprendeu, com os técnicos da Emepa, uma receita simples para diminuir a infestação: um litro de detergente diluído em 20 litros de água.

Daí é só pulverizar toda a plantação. "O detergente contém uma substância, chamado de ácido sulfônico e esse ácido sulfônico tem a capacidade de remover a proteção cerosa que a cochonilha tem. Quer dizer, essa parte branca que vocês estão observando aqui é uma cera que protege a cochonilha, que é um insetinho que fica aqui dentro. A fêmea está exatamente atrás desta parte cerosa. Na hora que o detergente atua na cera, dilui a cera, e o inseto exposto ao sol, a ação do sol faz com que ela morra. A gente tem uma previsão que se gaste em média de 400 a 500 litros de água por hectare pra fazer uma pulverização. Como se recomenda que se faça duas pulverizações, uma inicial e após 15 dias, nós retornamos com mais uma aplicação, pra gente matar justamente aquelas cochonilhas que não foram eliminadas na primeira aplicação. Na verdade existe uma dificuldade, porque nós estamos no semi-árdio, e água de beber no semi-árido é muito difícil", diz Edson.


"Nesse tempo seco tem que vir água mais longe pra poder aplicar, né? Fica mais caro", diz seu Jeneci.

Seu Jeneci é considerado um produtor modelo. Além de usar o detergente na lavoura de palma gigante, que é totalmente suscetível ao ataque da cochonilha, com a orientação do doutor Edson, ele passou a cultivar também uma espécie resistente à praga, conhecida como palma doce ou miúda. Ela fica bem ao lado da lavoura infestada e nada acontece com ela.

"É muito boa essa palma, pra leite, pra vaca de leite, é de primeira, você pega um canto baixo pra plantar ela que é boa, todo ano dá corte nela", conta ele.

Infelizmente a palma miúda também tem limitações: "Ela não agüenta altas temperaturas e pra poder atingir a produtividade da outra ela tem que ser plantada mais adensada. É uma variedade recomendada para o Cariri, Curimataú, que a temperatura noturna está em torno de 17 graus, a umidade relativa em torno de 80, 90 %. No sertão da Paraíba, nós temos uma umidade relativa em torno de 50, 60%, à noite temperaturas de até 22 graus e ela não seria ideal para essas regiões.", diz Edson.

Mesmo com tanta dificuldade, o doutor Edson aposta nas variedades resistentes. Pesquisador há mais de vinte anos, ele mostra, orgulhoso, o resultado de seu trabalho: no laboratório da emepa, em lagoa seca, quatro variedades resistentes que foram selecionadas.

"A orelha de elefante mexicano, mas não infesta não se desenvolve, a orelha de elefante africana, que é outro material que nós infestamos e cochonilha não se desenvolve, uma variedade de palma baiana, nós fizemos também infestação nessa palma e também a cochonilha não cresceu e temos também a palma miúda que já é uma palma muito utilizada na região de Monteiro", explica Edson.

A miúda e a baiana já estão sendo repassadas para os produtores, mas elas não vão bem em regiões sem muita umidade e com temperaturas elevadas. A mexicana e a africana são mais resistentes, porém ainda precisam de pesquisa de manejo e cultivo. Como se vê, no que diz respeito ao combate da falsa cochonilha do carmim, ainda há muito o que fazer. Os primeiros passos foram dados. Passos importantes nesse longo caminho.
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