Precariedade da energia trava a produção rural em Candelária

Agricultura

Precariedade da energia trava a produção rural em Candelária

Agricultores não conseguem ligar vários equipamentos ao mesmo tempo por causa da baixa potência da rede
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Com produção de 70 mil pés de tabaco na última safra em Linha Passa Sete, a 2,5 quilômetros do Centro de Candelária, o agricultor Edson Mundstock, 58 anos, perdeu as contas de quantas vezes passou calor à noite depois de um dia de trabalho na lavoura, sem poder ligar o ar-condicionado por causa da baixa potência da rede de energia elétrica. Explica que na propriedade não é possível ligar ao mesmo tempo o forno elétrico, chuveiro e outros eletrodomésticos, pois ocorre o derretimento das tomadas. Há cinco anos ele comprou um gerador a diesel para evitar problemas na cura do tabaco na estufa elétrica com as frequentes quedas no fornecimento de energia.

Os postes tortos e os fios em meio ao mato em diversos locais das estradas da localidade são o retrato da precariedade das redes de energia elétrica. Mundstock conta que na última safra ficou dois dias do mês de dezembro sem energia elétrica, no ponto alto da colheita de tabaco. Cada hora de trabalho com o gerador deixa R$ 100,00 de despesa com combustível. “O lucro com a safra quase se vai todo”, afirma.

Para viabilizar a produção de ração para a alimentação das 6 mil codornas criadas por mês, o agricultor teve que trocar o quebrador elétrico de milho por outro a gasolina em consequência da qualidade da energia. “A rede aqui é monofásica e quando solicitamos a instalação da trifásica nos mandam de um lado para o outro, sem dar solução”, afirma Mundstock. Observa que todo o ano no período da colheita precisa usar o gerador. Entre os dois filhos, apenas Diego Mundstock, 34 anos, ajuda no trabalho na propriedade nas horas vagas das suas atividades profissionais. Ele mora a um quilômetro do Centro da cidade e afirma que na região também há quedas frequentes da energia elétrica.

RGE argumenta que investe em obras de modernização

Para melhorar a prestação dos serviços aos usuários, a RGE informou que tem feito investimentos em Santa Cruz do Sul e prosseguirá com este trabalho em 2019. Em 2018, por exemplo, a concessionária aplicou R$ 10,94 milhões em obras de modernização da rede elétrica do município, substituiu 1.259 postes de madeira por concreto e construiu 14,2 quilômetros de rede nova composta por condutores mais modernos e de maior capacidade. O mesmo esforço tem sido colocado em prática em outros municípios, como Candelária, onde a RGE investiu R$ 2,72 milhões no ano passado e trocou 404 postes de madeira por concreto.

Moradores do interior de Santa Cruz do Sul tiveram transtornos e prejuízos entre o fim do ano passado e o início de 2019 com problemas de energia elétrica. Após uma audiência para debater os problemas, na Câmara de Vereadores, no dia 1º de março, a RGE fez uma reunião com os usuários do serviço de Alto Boa Vista, Linha Chaves e São Martinho e organizou um mutirão de limpeza na rede. O secretário de Agricultura, Elo Schneiders, afirma que isso deu mais tranquilidade aos produtores rurais, pois desde então não houve mais quedas prolongadas na energia.

A concessionária também trabalha em melhorias na rede de Quarta Linha Nova Alta. A localidade há pouco tempo sofria com as frequentes quedas de energia e a demora para o conserto. No município de Herveiras, uma reunião ocorreu no dia 28 de abril, no salão da Comunidade Católica de Linha Fernandes, entre representantes da RGE e a comunidade para tratar sobre a poda da vegetação nas áreas das linhas e redes elétricas.

Falta de manutenção fragiliza as redes

Responsável pelo pontapé na articulação para buscar melhorias na rede de energia em Candelária, o produtor rural Ênio Hübner, de 75 anos, afirma que algumas vezes moradores da região de Linha Passa Sete passam uma semana sem o serviço. Os dois sindicatos que representam os agricultores, prefeito e vereadores encamparam a ideia e uma comitiva participou no dia 11 de abril da audiência pública conjunta das comissões de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo, de Segurança e Serviços Públicos e de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa para tratar da qualidade da energia elétrica no Estado. “É um castigo ficar tanto tempo sem luz”, comenta Hübner. Lembra que no período que a CEEE era responsável pelo serviço havia funcionários na cidade e as equipes solucionavam a queda de postes, por exemplo, no mesmo dia, mesmo nos fins de semana.

Com criação de gado de corte e outros pequenos animais, Hübner afirma que depende muito da energia, para uso nas cercas elétricas e nos equipamentos domésticos, por exemplo. Ele atribui os problemas principalmente à falta de manutenção na rede. “Nos últimos anos não houve limpeza, a empresa tem conhecimento, mas nada faz”, ressalta. Ao lado da casa do sítio em Linha Passa Sete, os fios passam no meio das árvores e até mesmo ventos fracos provocam a queda na energia.  “Esta rede já é monofásica e tem uma dúzia de famílias que dependem dela para ter luz”, observa.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Candelária, Juarez da Rosa Cândido, explica que alguns produtores investiram na compra de geradores, mas o uso eleva consideravelmente o custo de produção.  Observa que a falta de energia em períodos de colheita do tabaco causa transtornos, pois as estufas em diversas propriedades são elétricas. Afirma que o serviço é diferente na área onde a Celetro é a responsável pelas redes elétricas. “O atendimento deles é de primeira”, explica.

Desestímulo

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Candelária, Juarez da Rosa Cândido, defende que as melhorias nos serviços de energia e comunicação são decisivas para a permanência dos jovens no campo.  “Hoje falam muito na necessidade de investimentos nas propriedades para melhorar a qualidade da produção, mas a grande maioria sequer têm rede elétrica trifásica, apenas a monofásica”, lamenta.

O presidente da Fetag, Carlos Joel da Silva, também afirma que os problemas desestimulam a permanência dos jovens na área rural, pois impedem melhorias no trabalho. Silva não vê perspectivas de mudança na situação enquanto não houver alterações na legislação. “É preciso estabelecer penalidades mais severas para as distribuidoras. Elas só veem os direitos, mas não os deveres, pois se o usuário deixar de pagar a conta, logo cortam o fornecimento da energia, mas a mesma agilidade não existe para solucionar os problemas”, destaca.


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