Presidente da AGEPTEA defende nova configuração no ensino agrícola
"É urgente flexibilizar a formação profissional, no sentido de atender novas necessidades da sociedade"

Portal Agrolink - Qual o atual cenário do ensino agrícola no Brasil?
Fritz Rollof - Na atualidade, o ensino técnico agrícola passa por novos desafios e novas configurações. As fronteiras que há alguns anos eram bem delimitadas entre o rural e o urbano têm se tornado muito imprecisas e configuram uma nova e bem deversificada realidade. Está sendo buscado um novo olhar sobre essa complexa teia de novas relações que se estabelecem, reconfigurando, inclusive, processos e produtos, criando interdependências e demandando novas conceituações, bem como novas perspectivas de trabalho.
O agricultor contemporâneo assume características diferenciadas. A realidade do campo, hoje, aponta para a necessidade de articular diferentes formas de organização e desenvolvimento da agricultura e do agricultor para atender às múltiplas faces que configuram o rural. O agricultor, diante das muitas crises mundiais e das disparidades sociais precisa se voltar para um foco mais voltado à sustentabilidade, para atender ao que é considerado socialmente e ambientalmente equilibrado e economicamente eficiente e produtivo.
Diante do acenário apontado, cabe às escolas agrícolas redefinirem seu papel e passar a adotar uma nova proposta pedagógica e um novo estilo de desenvolvimento, que não se baseie na cópia de modelos socialmente injustos e ecologicamente inviáveis e que submeta as diretrizes desse desenvolvimento a padrões éticos bem definidos. Muitas das instituições escolares enfrentam crises, não apenas de ordem material, mas de modelo, pois já não se ajusta mais o modelo desenvolvimentista que trouxe um saldo de uma crise sem precedentes.
Assim como a agricultura como um todo, as escolas são bastante vulneráveis, pois continuam formando “mão de obra” para uma sociedade que não apresenta mais esta demanda. É urgente flexibilizar a formação profissional, no sentido de atender novas necessidades da sociedade e que realmente represente uma formação crítica, contextualizada e focada em novos desafios capazes de oferecer aos jovens do campo uma oportunidade de inserção profissional plena focada na real necessidade e busca de qualidade de vida.
Portal Agrolink - Qual a maior dificuldade enfrentada pelos professores? O que ainda não foi suprido pela categoria?
Fritz Rollof - Com certeza as dificuldades são muitas e é difícil apontar a maior delas, pois a educação é um processo que não se esgota no atendimento de uma ou duas demandas. Todavia eu ousaria dizer que a maior dificuldade nas escolas estaduais é a baixa autoestima, tendo em vista que o Estado, através da Secretaria da Educação há muitos anos não vem valorizando os recursos humanos que ainda se dedicam e procuram empreender novas dinâmicas. Quando não se valoriza o recurso humano, quando apenas se critica e humilha o profissional que está à frente da classe, muito pouco se pode esperar deste aluno. Apesar de todas estas dificuldades, nem todos os professores “jogaram a toalha”, pois um grande número continua apostando no resgate de uma educação de qualidade. Especialmente nós do ensino agrícola, depositamos muitas esperanças na gestão do professor Ervino Deon, nosso novo Secretário de Educação, pois é um profundo conhecedor dos gargalos deste Estado e sempre balizou suas ações de forma ética e determinado com seus ideais.

Portal Agrolink - Como presidente da Associação Gaúcha de Professores Técnicos do Ensino Agrícola, o que o senhor vislumbra no ensino dos Colégios Agrícolas do Estado?
Fritz Rollof - Antes de falar em currículo, me parece decisivo refletir sobre a gestão e sobre os gestores das escolas. O modelo de eleição de diretor não contempla mais a necessidade que a realidade nos impõe. São poucos os profissionais que se aperfeiçoam e buscam a formação permanente. Elegem-se aqueles que melhor “agradam” os alunos, pois estes decidem a eleição na escola. Vigora a lei do “bonzinho”. A cada dia vemos situações de inversão total de valores – alunos agredindo professores e estes pela falta de preparo e falta de apoio, não sabem mais como proceder.
Penso que é iminente uma nova concepção de currículo para a formação de professores e que signifique romper com a visão reducionista que vem sendo disseminada por arquétipos engessados/cristalizados do modelo das competências, do sistema modular/disciplinar, do currículo técnico-linear... Não basta impor modelos aos professores que são frutos de uma outra época e que estão às portas da aposentadoria. Inúmeros modelos poderiam ser criados na prática pedagógica cotidiana, focados na realidade social e no trabalho. Diante disso não quero ser responsável por um cenário de catástrofe, mas instigar as escolas para que rompam com as estruturas engessadas e passem a investigar outras possibilidades educacionais no ramo do ensino técnico agrícola, muitas delas sendo executadas com sucesso em outras instituições e outros locais de trabalho.
Portal Agrolink - Quantos professores estão em atividade hoje no Rio Grande do Sul?
Fritz Rollof - Não posso aqui precisar o número de professores que atuam na educação profissional, mas o Estado do Rio Grande do Sul conta atualmente com mais de cinqüenta escolas agrícolas que oferecem cursos técnicos na área de agricultura, pecuária, cooperativismo, florestal, meio ambiente e outros.
O currículo das escolas agrícolas apresenta de 25 a 35 componentes curriculares na base do curso técnico, além das práticas pedagógicas nas diversas unidades educativas de produção. Isto significa dizer que seriam necessários, no mínimo, 25 professores técnicos por escola. Teríamos assim uma necessidade para atender esta demanda em torno de 1200 professores. Constatamos, com muita tristeza, em algumas escolas estaduais que formam Técnicos em Agropecuária, nenhum professor devidamente habilitado.
As escolas federais estão muito bem servidas por profissionais e têm em seus quadros muitos mestres e doutores, enquanto que na rede estadual existe carência em vários setores. Professores habilitados para concurso praticamente não existem, pois desde 1992 não são mais oferecidos no Rio Grande do Sul cursos regulares de Licenciatura em Ciências Agrárias. O Estado tem contratado emergencialmente profissionais, alguns de nível superior que se sujeitam a trabalhar pelos baixos salários oferecidos, mas a grande maioria tem apenas o nível médio na área de atuação.
Portal Agrolink - O que é necessário para aprimorar o ensino nos Colégios Agrícolas?
Fritz Rollof - O processo pedagógico ainda está pouco flexibilizado. Principalmente nas escolas técnicas agrícolas estaduais verificamos uma ingerência da entidade mantenedora que busca manipular o processo de acordo com sua visão (geralmente distorcida) política, que muito mais é reflexo de interesses partidários do que de currículo. O processo formativo requer um currículo enxuto e flexibilizado nos conhecimentos, no tempo, no número de professores/módulo, nos espaços físicos escolares. Precisamos juntar esforços para suprir a falta de profissionais habilitados, falta de funcionários nos setores e total descaso com o repasse de verbas. Infelizmente verificamos um discurso tecnicista e unidirecional com constante ameaça aos gestores das unidades escolares, exigindo-lhes comportamentos de servilidade e obediência cega.
Portal Agrolink- Como a AGEPTEA tem trabalhado a questão do aperfeiçoamento do ensino agrícola?
Fritz Rollof - O nosso compromisso é primordialmente com a Educação Profissional, garantindo que os associados tenham na AGPTEA suporte para inovar e educar o aluno com uma forte base de conhecimentos tecnológicos, habilidades e atitudes necessárias para a formação do novo profissional. Procuramos oferecer ferramentas com visão abrangente do processo de trabalho, domínio amplo de conhecimentos, com capacidades de resolver problemas, conhecimentos em métodos de trabalho, em gestão de recursos humanos e ambientais, com capacidade de atuar de forma crítica, criativa e construtiva no mercado, e focado na qualidade da vida em sociedade.
Não queremos fugir da realidade onde a globalização econômica fomenta a competitividade e concorre para o aumento da produtividade, fato este que repercute nos postos de trabalho e consequentemente na qualificação dos profissionais. Entendemos a educação alicerçada em conceitos de eficiência, eficácia e produtividade dentro de conceitos de sustentabilidade. Repudiamos o contexto econômico que busca intensamente as “reformas educacionais” em nome de uma suposta melhoria da qualidade do ensino onde a escola assume em seu projeto pedagógico a lógica do capital.
Muito nos preocupa a adoção de um conceito de competências voltado a um ideário puramente neoliberal, no qual, após a falência dos estados nacionais, as reformas do Estado de ordens social, econômica e política cedem lugar ao capital especulativo, excluindo ainda mais do processo os indivíduos já historicamente abandonados. Especialmente muitas de nossas escolas agrícolas precisam ser mais valorizadas pelos mantenedores, pois não podemos mais admitir que se responsabilizem apenas os educadores por eventuais fracassos. A falta de funcionários qualificados, professores habilitados, recursos financeiros nas unidades educativas se refletirão diretamente nos Índices de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB.

Qual recado quer deixar neste dia?
Em especial quero homenagear e parabenizar os educadores pelo 15 de outubro, dia do professor, e os funcionários públicos pelo dia 28 de outubro, quando é comemorado o seu dia. Este ano temos um motivo a mais para celebrar, pois nosso associado Ervino Deon, é o novo Secretário da Educação do Rio Grande do Sul. A A GPTEA, através da sua diretoria deseja ao professor Ervino muito sucesso na condução dos destinos da educação pública do nosso estado e se credencia como parceira na busca de soluções e de parcerias.
Tem sido preocupação constante da AGPTEA não fugir do perfil traçado pelo planejamento estratégico traçado a partir de 2003 que tem seu foco centrado no Cooperativismo, na Educação Profissional e na Sustentabilidade, além das discussões interdisciplinares sobre vários temas relevantes.
Vale muito para nós um dos ensinamentos do padre Theodor Amstad – iniciador do cooperativismo de crédito na América no ano de 1902, na nossa vizinha Nova Petrópolis: “Se uma pedra se atravessa no caminho e 20 pessoas querem passar, se um por um a procuram remover individualmente não o conseguirão. Mas se as 20 pessoas se unem e fazem força ao mesmo tempo sob a orientação de um deles, conseguirão solidariamente afastar a pedra e abrir o caminho para todos.”
Graças as contribuições dos colegas das diferentes unidades educativas, das empresas, dos órgãos de pesquisa e entidades não governamentais temos conseguido estar cada vez mais presentes. Nossas portas estão abertas e para fazer contato basta ligar, enviar email, fazer uma visita e participar.
O Portal Agrolink parabeniza todos os Professores!