RS: frutas para o veraneio movimentam uma cadeia econômica em 20 municípios

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RS: frutas para o veraneio movimentam uma cadeia econômica em 20 municípios

Produtos típicos geram renda para 3,1 mil famílias
Por: -Nereida Vergara e Henrique Massaro
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Quem viaja ao Litoral Norte do Rio Grande do Sul no verão tem a oportunidade de apreciar ou saborear, em quitandas e barracas espalhados ao longo da estrada, delícias como abacaxis, maracujás, melancias, bananas, abóboras, caldo de cana-de-açúcar e produtos derivados destes, como doces, biscoitos e bolos, entre outros. Esse comércio sazonal à beira de rodovias é só uma parcela mais visível de uma cadeia econômica que se movimenta mais nesta época do ano em vinte municípios que compõem a região, de Torres, ao Norte, até Palmares do Sul, ao Sul, todos próximos da orla oceânica. Ela é formada pelos produtores, transportadores e comerciantes e gera renda familiar e empregos temporários na estação.

O coordenador da área de fruticultura da Emater/RS, Antônio Conte, diz que o cultivo de frutas no Litoral Norte remonta ao início do século 20, quando cresceu a venda de terrenos na região e algumas famílias demonstraram interesse em se fixar. Parte dos produtores escolheu a orizicultura e outra parte as frutas tropicais. Segundo Conte, em 2017 foram colhidas no Litoral 5,2 mil toneladas de abacaxi, 119 mil toneladas de banana e 5,2 mil toneladas de maracujá, em quase 12 mil hectares cultivados por 3,1 mil famílias. “O litoral se adapta a frutas que não resistiriam em regiões como o Planalto e a Serra, onde ocorrem frio e geadas”, compara.

O técnico explica que o Rio Grande do Sul não é autossuficiente na produção de abacaxi e banana, mas é grande exportador de maracujá para outros Estados brasileiros. “Produzimos um terço das bananas consumidas pelos gaúchos e o abacaxi daqui é todo consumido de dezembro a março”, relata. “Depois importamos a fruta do Nordeste”. Já o maracujá, cultivo que se expandiu nos últimos 10 anos, tem pouco consumo local, cerca de 20%. O restante é enviado a outros estados.

Banana tem mercado estável
José Osmar Peretto Munari, chefe do escritório da Emater em Morrinhos do Sul, afirma que o produtor de bananas no Litoral tem pouco do que reclamar. No município, 650 famílias vivem do cultivo da banana, fruta que pode ser colhida o ano inteiro, com custo de produção considerado baixo em razão da mão de obra exclusivamente familiar e da reduzida incidência de doenças. O preço da banana prata, a mais plantada no Estado, se mantém na média histórica de R$ 1,30 o quilo. A produtividade em Morrinhos do Sul é de 10 toneladas por hectare, em 3 mil hectares plantados.

“A banana gaúcha sofre pouco com pragas. Como temos as quatro estações, a proliferação de insetos é menor e o uso de pesticidas também”, afirma Munari. O município, junto com Três Cachoeiras, responde por 50% da produção de bananas do Rio Grande do Sul. A colheita e limpeza das plantas é feita a cada três semanas e quase a totalidade da produção é para consumo in natura.

Abacaxi sustenta 130 famílias
Tradicionalmente colhidos até o final de março, os abacaxis cultivados no Litoral Norte tiveram o ciclo antecipado neste ano devido às poucas horas de frio ocorridas em 2017. O abacaxizeiro é uma planta que leva até dois anos para dar fruto, devendo ser plantado entre agosto e abril. A colheita ocorre normalmente nos meses de dezembro a março. O agricultor João Renato Silveira, do município de Terra de Areia, maior produtor de abacaxis do Estado, encerrou a colheita em seu pomar de nove hectares na primeira semana de fevereiro. Acredita ter colhido neste ano cerca de 200 mil frutas, pelas quais deve receber entre R$ 1 e R$ 1,50 cada, conforme o tamanho.

João é um especialista na cultura do abacaxi, tendo dedicado 50 dos seus 61 anos ao trabalho com a fruta. Hoje, divide a tarefa da colheita com a esposa, a filha e o genro, mas quando precisa acelerar as entregas busca funcionários safristas. “A colheita é manual e bem trabalhosa. É preciso usar luvas, se não as mãos da gente vão para o brejo”, brinca.

Em Terra de Areia, as plantações de abacaxis se espalham por 340 hectares cultivados como atividade principal de suas propriedades por 130 famílias. No total, o município produz 6,5 milhões de abacaxis por ano, o que dá uma média de 19 mil frutas por hectare. O chefe do escritório da Emater em Terra de Areia, Wolnei Fenner, diz que a área e a produtividade não sofreram grandes oscilações nos últimos cinco anos, assim como os preços, que ficam na média de R$ 1,40 por unidade.

Segundo Fenner, a fama de mais doce que os demais que o abacaxi da variedade pérola de Terra de Areia tem deve-se às condições climáticas do Litoral. Por haver meses de frio, a taxa de açúcar da fruta se eleva, fazendo com que o sabor seja mais agradável do que o do abacaxi plantado nas regiões onde faz calor o ano todo. A fruta aguarda a certificação do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) para ter o selo de Indicação Geográfica, o que pode agregar valor à produção. 

Pitaya é aposta futura
Nova no mercado gaúcho, a pitaya começa a ganhar espaço entre os produtores do Litoral Norte. Osmar Rocha, instalado em Torres desde 2004, quando abandonou as lavouras de fumo para se dedicar ao cultivo do maracujá, decidiu investir no plantio de mais uma frutífera no ano passado. O produtor cuida dos primeiros 600 pés, que devem lhe render aproximadamente cinco toneladas da fruta por ano.

As primeiras pitayas começam a aparecer, de acordo com Osmar, três anos após o plantio. Uma geada no inverno passado prejudicou o crescimento das mudas, mas, mesmo assim, a expectativa é positiva para os próximos anos. “Essa aí veio para ficar”, comenta o produtor, projetando o futuro de suas mudas, adquiridas com conhecidos por R$ 3 cada, preço inferior à média de R$ 10 do mercado. Diferentemente do maracujá, que precisa ser polinizado de flor em flor, a polinização da pitaya é feita em uma mesma flor e em um tempo curto. Conforme o produtor, é preciso balançar a planta para que o processo ocorra. Tudo tem de ser feito de manhã cedo, porque, segundo ele, a flor fica aberta somente até, no máximo, às 9h. Depois disso, ela morre e não há como se obter frutos. 

Quando as primeiras pitayas aparecerem, Rocha espera poder vendê-las por R$ 8 a R$ 10 o quilo. Ele afirma que já existem interessados em adquirir o produto em Novo Hamburgo, mas há diversas possibilidades de comercialização. 

Maracujá exige paciência
Para garantir uma produção em larga escala e rentável, o ser humano por vezes precisa intensificar e assumir um processo que seria da natureza. É o que ocorre nos pomares de maracujá do Litoral Norte, onde a polinização feita pelas abelhas mamangavas, de população insuficiente para gerar boas safras, é substituída pela intervenção manual dos agricultores. Em Torres, onde se concentram 73 famílias dedicadas ao cultivo, distribuído por 120 hectares, os produtores transportam o pólen de flor em flor todos os dias nos meses de verão.

A partir de dezembro, quando as mudas plantadas em agosto começam a florescer, o produtor Osmar Rocha, estabelecido no município há mais de uma década, vai diariamente aos pomares e repete a mesma operação. Ele passa os dedos sobre e sob as pétalas e rapidamente leva o pólen colhido para outra flor. 

Auxiliado por pelo menos mais duas pessoas, o produtor dá conta dos três mil pés que ocupam três dos nove hectares de sua propriedade. Segundo Rocha, as mamangavas conseguem transportar, no máximo, 10% da quantidade de pólen presente nas flores. Mesmo que a quantidade de abelhas fosse maior, ele não acredita que os insetos garantiriam transporte para manter a produção em larga escala. O procedimento, demorado e repetitivo, é somente uma das etapas da produção da fruta. O primeiro passo, a semeadura, inicia em março e se estende pelos meses seguintes. Só depois de cerca de cinco meses, quando a muda atinge um metro de comprimento, é feito o plantio. A colheita tem início em fevereiro. Além de ser a época de polinizar as flores e colher os frutos, o verão é importante para a comercialização, que é feita em caixas de 12 a 13 quilos. “Esse ano está bom para o maracujá, não houve ‘calorão’ e chove na hora certa”, comemora o produtor. 

Conforme o chefe do escritório municipal da Emater em Torres, Jânio Rodrigues Pintos, a produtividade média do maracujá na região é de 2 mil caixas por hectare, ou 25 toneladas. No total, Torres produz por ano em torno de três mil toneladas de maracujá, 80% das quais enviadas para fora do Estado, por preços que podem chegar a R$ 40 a caixa nesta safra.

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