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Seguro agrícola e a lógica da proteção de longo prazo

A decisão correta deveria ser econômica e estratégica


A decisão correta deveria ser econômica e estratégica A decisão correta deveria ser econômica e estratégica - Foto: Canva

A discussão sobre o papel do seguro agrícola costuma surgir cercada de desconfiança e da percepção de que o produto falha ao não indenizar com frequência. Segundo Daniel Miquelluti, especialista em riscos agrícolas, essa leitura parte de uma expectativa equivocada sobre a função do seguro e sobre como ele se sustenta economicamente.

A avaliação de que o seguro quase nunca paga é frequentemente tratada como denúncia de falha no desenho do produto. No entanto, a lógica do mecanismo aponta para o oposto. Caso as indenizações fossem recorrentes, o seguro deixaria de cumprir seu papel técnico e se transformaria em um subsídio indireto, inviável do ponto de vista econômico. O problema central, portanto, não está na baixa frequência de acionamentos, mas na forma como muitos produtores decidem pela contratação.

De acordo com essa análise, o erro comum é avaliar o seguro como se fosse um investimento financeiro, baseado em retorno esperado positivo ou em taxa de acionamento. Essa lógica tende a gerar frustração, pois o seguro não foi criado para produzir lucro recorrente, e sim para preservar a continuidade da atividade diante de eventos graves. A decisão correta deveria ser econômica e estratégica, considerando a capacidade de suportar perdas sucessivas sem comprometer o negócio.

A reflexão passa por entender quantas safras podem ser perdidas antes que a operação se torne inviável. Para quem não suporta uma perda relevante, o seguro se apresenta como instrumento essencial de proteção. Já aqueles que acreditam suportar várias safras negativas precisam avaliar se realmente mensuraram a exposição acumulada ao risco climático ao longo do tempo. No campo, a experiência recente tende a reduzir a percepção de riscos raros, mas quando eles se materializam sem proteção, os efeitos são severos.

Nesse contexto, o equívoco não é o seguro indenizar pouco, mas esperar que ele o faça na maioria das vezes. Quando encarado como proteção da continuidade produtiva, e não como fonte de retorno, a frequência de pagamento deixa de ser o critério central e a lógica do seguro passa a fazer sentido econômico.
 

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