Tecnologia é a cara dos novos barões do café

Agronegócio

Tecnologia é a cara dos novos barões do café

Hoje, os maiores produtores seguem as cotações na web e adotam novas técnicas de gestão
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Um homem de chapéu, bota para fora da calça, na varanda de um casarão colonial, segurando uma xícara que exala um perfume delicioso. A imagem de um tradicional barão do café está cada vez mais difícil de ser resgatada na memória. A expansão mundial do consumo da bebida e a evolução na negociação da commodity dão novas cartas ao negócio. Hoje, quem manda são exportadores, industriais, cooperativas e agricultores familiares. Todos conectados ao mundo, para acompanhar o sobe e desce diário do preço da saca.

Da centenária fazenda Pedra Negra, em Varginha (Sul de Minas), José de Rezende Neto acompanha as cotações do produto na internet. “Não estamos em uma boa época. Por isso, tenho que ficar de olho, porque qualquer diferença pode representar ganho”, disse. Quinta-feira, a saca era cotada a R$ 251,12. Este ano, já atingiu o máximo de R$ 280,92 e o mínimo de R$ 248,38. A negociação evoluiu, mas o cafeicultor faz questão de preservar as características da fazenda e a história da família. Conserva o casarão construído no século 19 pelo seu bisavô, o coronel João Urbano, e os 450 mil pés de cafés, que garantem a produção de cerca de 3 mil sacas de 60 quilos por ano. “A safra é entregue a uma cooperativa e é a gente que fala quando fechar o negócio”, explica.

O contrato de compra e venda de café é o mais antigo na Bolsa de Valores, Mercadoria & Futuros (BM&FBovespa). Mas, nos moldes atuais, a comercialização é feita há apenas 10 anos. “É relativamente nova. Muitos produtores já tiram proveito da possibilidade de fixação de preços para venda futura. Estamos em evolução”, disse o gerente de Serviços em Commodity da bolsa, Luiz Cláudio Caffagnani. De qualquer forma, os preços estabelecidos no mercado internacional são os que norteiam o valor da saca para quem até mesmo desconhece o mecanismo de, por exemplo, assegurar a venda para setembro de 2010, a US$ 150,65 a saca, segundo preço fixado em 16 de junho.

Na BM&FBovespa, em 2000, foram negociados 399,7 mil contratos de café. Nos últimos 12 meses até maio, foram registrados 706,9 mil. O volume financeiro em igual período passou de US$ 4 bilhões para US$ 10,3 bilhões. “O que colho fica em depósito à espera de quem paga melhor”, disse o cafeicultor Adilson Moreira Soares, das fazendas Engenho da Serra e Recanto do Engenho, em Machado (Sul de Minas). Pela colheita de 1,6 mil sacas no ano em 60 hectares, Soares é considerado um pequeno produtor. Estima-se que a cafeicultura brasileira seja representada por 300 mil propriedades de tamanhos diversos, sendo 200 mil de pequeno porte.

Na maior cooperativa de café do mundo, a Cooxupé, fundada em 1957, em Guaxupé (Sul de Minas), o perfil dos associados resume o que acontece no setor. A cooperativa é composta em 83% por pequenos produtores, 14% médios e 3% grandes. Para o presidente Carlos Alberto Paulino da Costa, a cultura vive um momento de ajustes impulsionado pela alta do preço dos fertilizantes, da mão de obra e da estabilidade da cotação do grão nos últimos cinco anos. “O cultivo tende a ser polarizado entre pequenos, que não contratam mão de obra, e grandes, que podem esperar o melhor momento para vender a produção.” Na perspectiva pouco otimista, o médio, com a corda no pescoço, sumiria da cadeia.

Há 200 anos, a família do cafeicultor Renato Rezende Paiva cultiva café. A área já foi de 600 hectares mas, com as divisões familiares, produz hoje em 90 hectares, o que rende 200 sacas por ano. O café é um bom negócio? A resposta negativa é rápida e instantânea. “O preço da saca não cobre o custo de produção, próximo a R$ 300”, justifica. A tradição e o endividamento em bancos são apontados como motivos da permanência na atividade.

Entre as 100 maiores empresas do setor, 14 são de Minas Gerais, conforme a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic). A maior é a Café Bom Dia, presidida por Sydney Marques de Paiva. A saga da empresa, em sua quarta geração, começou em 1895, em Elói Mendes (Sul de Minas). “Na década de 1990, entramos na era da industrialização e, de 2000 para cá, começamos a exportar”, conta. Além dos 3 milhões de pés de café próprios, Paiva compra a produção de quase 4,5 mil produtores familiares. Ele não fala sobre volumes, mas revela que 35% vão para o mercado externo, torrado e moído, o que não é tão comum assim no país. O novo “barão do café”, na visão dele, é reconhecido pela qualidade do produto. “Esse é o maior desafio do Brasil. No ano passado, exportamos US$ 4,5 bilhões de café verde e apenas US$ 100 milhões de torrado e moído. A Alemanha e a Itália exportaram US$ 1 bilhão e não têm nenhum pé de café. Importam da gente”, explica.

PROTESTO

Cafeicultores de todo o Brasil estão se mobilizando para o Protesto SOS Café – Marcha a Brasília, terça-feira. Serão mais de 140 sindicatos de produtores rurais engajados, representando 320 mil produtores de todo o país. O ato ocorre às 14h30 e será em frente ao Congresso Nacional. O objetivo é sensibilizar o governo federal e as autoridades para a situação caótica que vive, segundo os cafeicultores, o setor no país. No mesmo dia, será realizada na Câmara dos Deputados uma audiência pública sobre a situação atual da cafeicultura brasileira.


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