Tecnologia japonesa na lavoura
No universo das hortaliças, uma nova cor, um formato diferente ou a resistência a pragas e doenças pode significar uma revolução
Hoje, no universo das hortaliças, uma nova cor, um formato diferente ou a resistência a pragas e doenças pode significar uma revolução. E os japoneses são mesmo muito competentes no desenvolvimento de novas variedades.
Uma empresa japonesa que figura entre as principais produtoras de sementes de hortaliça do mundo tem filiais espalhadas por diversos países e atua no Brasil há 40 anos. Foi parceira da extinta cooperativa agrícola de Cotia, um dos maiores empreendimentos da colônia japonesa no Brasil, e comprou a área de sementes quando ela fechou as portas.
O geneticista Masami Kikuchi imigrou para o Brasil com 16 anos de idade. Aos 20, foi trabalhar na Cotia, onde foi responsável pela criação de muitas hortaliças. “No total, desenvolvei mais ou menos 70, 75 materiais: tomate, pimentão, alface, abobrinha, berinjela, cenoura, quiabo, jiló...”, enumera.
O mais impressionante é que o seu Masami nunca freqüentou universidade. Ele aprendeu tudo sozinho. “Aprendi muito com os livros”, conta. Já aposentado, hoje ele atua como consultor da empresa.
Quem dirige a área de pesquisa é o agrônomo Rômulo Kobóri, que levou a equipe de reportagem para um passeio pelos campos experimentais da empresa. Um deles é o de tomate. “No caso do tomate, nós temos buscado muito a questão de produtividade e qualidade no que se refere a cor, sabor e brilho. O foco maior tem sido também com resistência a diferentes doenças”, explica Rômulo.
Ele nos mostra uma das pesquisas. “Este é um ensaio de abobrinhas. Estamos testando mais ou menos cem híbridos aqui, com seis diferentes tipos de abobrinhas para diferentes nichos de mercado”, explica o agrônomo. “Com certeza, será um material bastante promissor.
Novas tecnologias vem ajudando os agricultores do cinturão verde de São Paulo a solucionar problemas – pois continuar produzindo no mesmo lugar por 40 ou 50 anos não é tarefa fácil. O uso intensivo e prolongado das terras para o cultivo das mesmas hortaliças acabou custando caro para muitos agricultores. No final da década de 70, início da década de 80, o problema com pragas e doenças ficou grave, difícil de controlar.
Por isso, a horta foi parar dentro de estufas. Cobrindo a horta dá pra reduzir a entrada de insetos e controlar a temperatura e a umidade, diminuindo, assim, o aparecimento de pragas e doenças que atacam flores, folhas e frutos.
Mas a estufa não protege as plantas de problemas que vêm da terra. “Esse solo cansado pode provocar doenças do solo e nematóides. Principalmente as murchadeiras, quando elas entram, é para perder tudo mesmo”, explica o produtor Felício Suzuki.
Além de produtor, Felício Suzuki é técnico agrícola – e mesmo assim já perdeu estufas inteiras de pimentão por causa da ralstonia, uma bactéria de solo. “A bactéria entra, via raiz, sobe no caule e vai subindo. Quanto chega na época de colheita, morre tudo”, explica ele.
O problema tem solução: basta plantar o pimentão sem permitir que ele encoste na terra; é o chamado cultivo no cocho. “A gente enche de substrato com gotejo. Embaixo tem plástico também, para a raiz não varar“, explica.
Estamos acostumados a ver os produtores fazendo enxertia em frutíferas, como laranja e uva. Em Mogi, os agricultores estão utilizando esta técnica para enxertar hortaliças.
A técnica requer delicadeza e paciência. Com cuidado, abre-se uma fenda no cavalo. Depois é preciso afinar o caule do enxerto, para que ele encaixe direitinho. Um pequeno prendedor fixa as duas partes.
As surpresas não param por aí. Nem sempre enxerto e cavalo pertencem a mesma espécie; às vezes, a melhor hortaliça é justamente aquela mais suscetível às doenças de solo. O jeito, então, é colocar na planta a raiz de outra que seja mais resistente.
Assim, as mudas de pepino, por exemplo, saem de lá com raízes de abóbora, como conta Clarice Kitazawa, uma das sócias do viveiro. “Enxertamos raízes de pimentão, pimenta, berinjela... até de tomate-caqui, que é uma planta bem mais rústica”, conta ela.
Com tecnologia, trabalho e muita paciência, os japoneses e seus descendentes vêm persistindo no cinturão verde de São Paulo há oito décadas. Mais que isso: eles vêm construindo histórias de sucesso.
A família Shintate chegou no penúltimo navio a trazer imigrantes para o Brasil, em 1963. Eles são sobreviventes de um dos momentos mais cruéis da história da humanidade.
“Minha região era a de Nagasaki, onde caiu a segunda bomba atômica, no Japão”, conta Hiroshi. “A sorte do meu pai é que como ele estava em sítio, não foi afetado pela radiação. Mas eu tenho parentes que moravam em Nagasaki e nós perdemos os parentes por causa da bomba”, diz.
Quase 20 anos depois do fim da guerra, a família ainda enfrentava dificuldades. Por isso, decidiram deixar o Japão. “Estava tendo muita fome, muito necessidade, muita miséria. A convite do tio do meu pai, que era padre na região do Paraná, em Maringá, na hora nós aceitamos e acabamos vindo para o Brasil”, conta Hiroshi.
Aqui, as dificuldades continuaram. Trabalhando como colonos numa fazenda do Paraná, eles ganhavam uma porcentagem do café vendido depois da colheita. Logo na primeira safra, uma geada arrasou a produção, e a família ficou sem nada.
Com o fracasso do café, o pai do seu Hiroshi decidiu arriscar mais uma vez. “Meu pai, na época do Japão, já cultivava verduras. Então, quando a gente ficou sabendo que a região do Alto Tietê tinha área de hortaliças, meu pai não pensou duas vezes”, lembra.
Fazendo muita economia, a família conseguiu arrendar um pequeno terreno. Hoje os Shintate têm 13 hectares de terra no município de Biritiba Mirim e produzem uma grande variedade de folhas como alface, temperos e repolho.
Seu Issao e a dona Aieko, pais do Hiroshi, não gostam de falar sobre o passado e culpam a dificuldade com a nossa língua, mas Hiroshi traduz o sentimento que toda a família tem pelo Brasil. “Hoje estamos aqui graças à acolhida do povo brasileiro. A gente agradece muito. Eu pretendo ficar aqui e morrer aqui, porque o Brasil é o meu país”, afirma Hiroshi Shintate, agricultor.
Calcula-se que hoje existam mais de 1,5 milhão de imigrantes japoneses e descendentes vivendo no Brasil.