Temos uma pecuária sustentável?

Imagem: Gabriel Muniz/Texto Comunicação

ENTREVISTA

Temos uma pecuária sustentável?

Em meio às discussões entre campo e cidade setor trilha caminho de muito trabalho rumo à sustentabilidade
Por: -Eliza Maliszewski
1186 acessos

O Brasil é um dos maiores produtores de carne bovina do mundo. Em 2018 o país tinha 222 milhões de cabeças de bovinos segundo dados do Mapa. No período de 2017/18 a 2027/28 a produção de carne bovina tem um crescimento projetado de 1,9% ao ano, o que também representa um valor relativamente elevado, pois consegue atender ao consumo doméstico e às exportações. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Pará, Rondônia e Rio Grande do Sul lideram os abates. Isso significa que a produção ocorre de Norte a Sul, em condições diferentes e com impactos também diferentes. Um terço dos rebanhos estão na região amazônica, por exemplo.

Eis o desafio que a atividade caminha para se alinhar à sustentabilidade. Com 70% das pastagens brasileiras degradadas e a emissão de metano ( que aumenta a emissão de gases do efeito estufa) pelo sistema digestivo do boi, a demanda para produzir carne e leite é elevada no país. É aí que entram medidas simples que aumentam lucros, eficiência produtiva e ainda faz a pazes com o meio ambiente. Uma delas é a ILPF, que vamos falar mais adiante.

Há mais de dez anos o Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) vem trabalhando estas e outras questões com o intuito de melhorar a atividade pecuária brasileira, fazendo a articulação entre os elos da cadeia e trazendo informação confiável aos produtores e a sociedade. Nós conversamos com Luiza Bruscato, coodernadora executiva do GTPS, para entender melhor a atuação e as frentes de trabalho, além de ideias para melhorar a pecuária.

Portal Agrolink: como o GTPS trabalha hoje, ações e atuação no Brasil?
Luiza:
atualmente, temos 3 principais frentes de atuação: o GIPS, PSA e o Mapa de Iniciativas em Pecuária Sustentável. A primeira frente é a aplicação extensiva do GIPS (Guia de Indicadores de Pecuária Sustentável) com pecuaristas de diversas regiões. Através de acordos com os dois principais frigoríficos, Minerva e JBS, estamos implementando a ferramenta com os fornecedores deles nas regiões Norte e Centro-oeste brasileira. O principal objetivo dessa ação é levar conhecimento sobre sustentabilidade para ponta da cadeia de pecuária, auxiliando o produtor a realizar uma auto avaliação da sua fazenda, bem como, gerar insumos para que este possa melhorar a gestão da propriedade.

A segunda frente é a de conteúdo, na qual estamos trabalhando, entre outros temas, com o desenvolvimento de estratégias para Pagamentos por Serviços Ambientais. 

A terceira frente de atuação é o Mapa de Iniciativas em Pecuária Sustentável, uma plataforma que reúne, de maneira organizada, muitas iniciativas e projetos do setor, demonstrando que já existem ações concretas que contribuem para a sustentabilidade nas fazendas, nas indústrias, nas empresas de insumos e no varejo. Esta plataforma existe desde 2016 e está em constante atualização. Contamos com a inscrição voluntária de projetos de pecuária sustentável.

Portal Agrolink: muitos pecuaristas de corte observam a sustentabilidade como uma demanda fundamental e no leite como uma exigência já vindo de parte do consumidor. O que ele deve levar em conta para se adequar a isso?
Luiza:
o GTPS oferece o GIPS como uma ferramenta de auto avaliação para o produtor obter uma fotografia de como a fazenda está em termos de sustentabilidade, dentro dos aspectos de gestão, trabalhadores, meio ambiente, e outros aspectos técnicos de manejo. A partir do relatório gerado pelo GIPS ele tem acesso a quais indicadores ele precisa buscar melhorar, e para isso temos o Manual de Práticas em Pecuária Sustentável. Neste manual, temos bastante conteúdo de apoio a tomada de decisão para melhoria contínua da fazenda e busca do desenvolvimento sustentável. Existem também outros conteúdos disponíveis, de outros parceiros, como o Manual de Boas Práticas da Embrapa, cursos técnicos do Senar, entre outros. 

Portal Agrolink:  ILPF é uma boa aliada?
Luiza:
a integração Lavoura-Pecuária-Floresta é uma importante aliada da sustentabilidade, dando destaque para as áreas em que a pecuária tem perdido espaço para agricultura. É uma alternativa para integrar as duas atividades, e utilizar o mesmo solo para ambas culturas. A ILPF tem se mostrado um sistema viável, e a sua implementação pode ser realizada por etapas. Importante ressaltar que se faz necessário ter uma boa gestão e estabelecer um bom plano de trabalho, e, claro, se possível, obter suporte técnico ou de consultorias para que a transição ocorra de forma mais tranquila. Tanto o agricultor quanto o pecuarista podem buscar essa solução, a depender do perfil de cada um. 

Portal Agrolink: com a epidemia de COVID-19 a poluição do planeta diminuiu consideravelmente mas, por outro lado, ouvimos de pecuaristas “o número de bois segue o mesmo”. Ainda é preciso desmistificar essa questão da emissão de gases por parte da pecuária?
Luiza:
a epidemia do Corona Vírus teve um maior impacto nas atividades da cidade, por isso foi observado a diminuição da poluição relativa à produção industrial e queima de combustível pelos veículos. É um assunto bastante complexo e difícil de resumir. Entretanto, o que posso relatar é que com relação às emissões do setor de pecuária, o GTPS criou um grupo de trabalho, no qual convidamos os maiores especialistas no assunto (temos Embrapa, FGV, CEPEA, Imaflora, Consultorias, entre outros), para tratar e compilar estudos sobre balanço de carbono e nos apoiar a dar encaminhamentos necessários sobre o tema. Acreditamos que o manejo adequado da pastagem é o maior aliado no sequestro de carbono da cadeia de produção bovina. Vale destacar que uma agropecuária de baixo carbono e mais resiliente é importante para garantir a produção de alimentos, principalmente em condições de restrição.

Portal Agrolink: como a sustentabilidade impacta ou vem impactando a atividade nos últimos anos?
Luiza:
a sustentabilidade é um caminho a ser percorrido, e todo o setor vem em busca de melhoria nos aspectos técnicos, econômicos, sociais e ambientais, principalmente porque a demanda e a exigência dos mercados interno e externo são crescentes. Acredito que não há mais como fugir do assunto há tempos. E, como todos os setores, estamos nos adequando, agregando tecnologia e conhecimento para atingir uma maior eficiência e produtividade o que caminha aliado à sustentabilidade.

Portal Agrolink: muitas vezes o produtor ou o pequeno produtor ouvem a palavra sustentável e pensa “não tenho dinheiro ou espaço pra isso”. Como é feita essa conscientização? 
Luiza:
somos bastante surpreendidos pelos produtores. A maioria já realiza ações sustentáveis, e tem alguns direcionamentos nesse sentido, mas não se dá conta até obter um conhecimento mais amplo sobre o tema. Num primeiro momento, algum investimento pode ser necessário, mas há várias possibilidades de melhoria sem investimento. Por exemplo, realizar o descarte adequado das embalagens de agentes químicos. Simples, quando for à cidade o produtor leva as embalagens até o órgão responsável pela coleta. Prático e indolor, brincamos durante o treinamento. Gostamos de lembrar que sustentabilidade abrange os aspectos ambientais, econômicos e sociais, ou seja, tem estar adequado ao bolso do pecuarista também.

Portal Agrolink: quais as metas de trabalho para este ano?
Luiza: Para este ano, temos algumas metas de trabalho nessas frentes que comentei. Antes disso, gostaria de dizer que estamos criando um novo site para o GTPS, mais moderno e interativo, e estará no ar até o final deste mês de abril.  Este ano temos a ambição de dobrar o número de produtores que preencheram o GIPS. Atualmente, temos cerca de 300 GIPS válidos de produtores, e com as parcerias estabelecidas com os frigoríficos queremos dobrar este número.Também queremos crescer o número de iniciativas cadastradas no Mapa. Atualmente temos cerca de 40 iniciativas. Pretendemos expandir para mais regiões do Brasil e fortalecer a base de projetos de boas práticas de toda cadeia, demonstrando que é possível estabelecer a sustentabilidade no setor e já temos muitos casos de sucesso na pecuária.

Relembre os episódios da série especial "Pecuária 4.0: o caminho do boi brasileiro", em texto e vídeo. As reportagens foram produzidas durante um Road Show com jornalistas de 11 estados, rodando cerca de 2 mil km por São Paulo e Minas Gerais, em um retrato da tecnologia, genética, produtividade, pesquisa e lucratividade das pecuárias de corte e leite.

ILPF e manejo de carrapatos elevam potencial produtivo

Técnica possibilita boi de 300 kg em dois anos

Genética Nelore ganha destaque no Brasil

Ultrassom de carcaça avalia potencial do gado

Pecuária leiteira 4.0: como será a vaca do futuro?


Atenção: Para comentar nesta página é necessário realizar o seu cadastro gratuíto ou entrar.
  • Clicar no botão Entrar caso já possua cadastro no Agrolink
  • Se não tiver cadastro ainda em nosso site Cadastre-se gratuitamente e terá acesso a conteúdos exclusivos
  • Clique aqui todas as vantagens de fazer seu cadastro no Agrolink