Tensão com Irã pode encarecer insumos e travar exportações
O comércio com o Irã é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um risco
Foto: Pixabay
As recentes ameaças dos Estados Unidos de impor tarifas a países que mantêm comércio com o Irã acenderam um sinal de alerta no agronegócio brasileiro. A medida, com motivações geopolíticas, pode alterar profundamente o fluxo de exportações agrícolas, atingindo principalmente as cadeias de soja, milho e insumos como ureia.
Embora o Irã represente uma fatia importante das vendas externas brasileiras – especialmente como mercado alternativo fora do eixo tradicional de consumo –, a instabilidade nas relações internacionais cria incertezas para exportadores e investidores.
O comércio com o Irã é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um risco. Por um lado, o país é destino relevante para commodities agrícolas e fertilizantes. Por outro, está no centro de um tabuleiro político volátil, onde decisões de terceiros podem redirecionar rotas comerciais da noite para o dia.
De acordo com analistas do mercado financeiro, a sinalização de sanções ou tarifas por parte dos EUA pode tornar o acesso ao mercado iraniano mais custoso e menos previsível. Isso afeta diretamente o fluxo de caixa de empresas exportadoras, que já operam em margens cada vez mais apertadas diante de custos logísticos e cambiais.
Além disso, há o risco de restrições indiretas. Se produtos brasileiros destinados ao Irã passarem a enfrentar obstáculos regulatórios em outros mercados – como o americano –, o impacto se estenderá a contratos, financiamentos e até ao planejamento agrícola de safras futuras.
Nesse cenário, cresce a busca por mecanismos de proteção. Fundos estruturados, como FIDCs e Fiagros, ganham relevância por permitirem antecipação de receitas e maior previsibilidade de caixa. São alternativas para manter o planejamento produtivo mesmo diante de uma política internacional fragmentada.
Outro ponto de atenção é o fornecimento de insumos. O Irã é um dos principais exportadores de ureia ao Brasil. Eventuais entraves comerciais podem afetar a disponibilidade e os custos do fertilizante, pressionando ainda mais os produtores que enfrentam oscilações de preço no mercado internacional.
Especialistas recomendam que exportadores diversifiquem os mercados de destino e incorporem estratégias de hedge cambial e de preços em sua operação. A gestão de risco, antes vista como acessória, passa a ser elemento central da tomada de decisão.
Startups do agro e empresas de logística também entram nesse movimento, redesenhando modelos de negócio menos dependentes de exportação direta e mais resilientes a choques geopolíticos. Soluções digitais que aumentem eficiência, rastreabilidade e liquidez podem ganhar espaço como resposta à nova ordem comercial.
Embora o Brasil tenha ampliado sua presença global nos últimos anos, inclusive com foco em mercados alternativos como Irã, Vietnã e Indonésia, o cenário atual exige mais do que expansão geográfica. Exige inteligência estratégica, capacidade de adaptação e proteção contra volatilidades externas.