Uso repetido de herbicidas favorece resistência na cana
O problema se desenvolve ao longo dos ciclos de cultivo
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A resistência de pragas e plantas daninhas a produtos utilizados no manejo da cana-de-açúcar representa um risco para a produtividade e os custos de produção. O uso frequente dos mesmos mecanismos de ação de herbicidas e Inseticidas, sem alternância e monitoramento adequado, pode favorecer a sobrevivência de indivíduos resistentes, reduzindo gradualmente a eficiência do controle nas lavouras.
O problema se desenvolve ao longo dos ciclos de cultivo e pode se tornar mais difícil de manejar quando as mesmas estratégias são repetidas por várias safras. Entre as consequências estão o aumento das infestações, a necessidade de novas intervenções e a possibilidade de redução do rendimento e da longevidade do canavial.
A resistência ocorre quando determinados indivíduos de uma população apresentam capacidade hereditária de sobreviver a doses de produtos que normalmente controlariam os organismos sensíveis. Com aplicações sucessivas de um mesmo mecanismo de ação, os indivíduos resistentes sobrevivem e se reproduzem, aumentando sua participação na população.
Esse processo é diferente da tolerância, que corresponde à capacidade natural de uma espécie suportar determinado produto. Na resistência, a pressão de seleção provocada pelo manejo favorece indivíduos que já apresentam essa característica.
Entre as plantas daninhas com registros de resistência a herbicidas no Brasil estão o capim-amargoso (Digitaria insularis), a buva (Conyza spp.) e o amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla). Esses registros abrangem diferentes culturas e mostram a importância de acompanhar possíveis falhas de controle também nas áreas de cana-de-açúcar.
No caso das pragas, o uso frequente de inseticidas de um mesmo grupo químico pode favorecer a seleção de populações resistentes de insetos como cigarrinhas e brocas. Entre os organismos que exigem atenção no manejo fitossanitário da cana estão Diatraea saccharalis e Mahanarva fimbriolata.
A pressão dessas pragas e das plantas daninhas varia conforme a época do ano, as condições climáticas e o sistema de produção. Áreas de cana-planta e cana-soca, assim como cultivos de sequeiro e irrigados, podem apresentar necessidades diferentes de controle.
Nos períodos mais chuvosos, o crescimento das plantas daninhas tende a ser favorecido, exigindo atenção ao momento das aplicações. Já em determinadas condições de clima mais seco, algumas pragas podem apresentar maior pressão sobre o canavial.
A repetição de estratégias de controle sem considerar essas variações pode ampliar o risco de seleção de organismos resistentes.
Falhas no controle exigem investigação antes de novas aplicações
Um dos primeiros sinais de possível resistência é a presença de plantas daninhas ou pragas sobreviventes após intervenções que anteriormente apresentavam controle satisfatório. Entretanto, a ocorrência dessas falhas não significa necessariamente que exista resistência.
Problemas relacionados à dose utilizada, cobertura da pulverização, qualidade da calda, condições de chuva e estágio de desenvolvimento do organismo também podem comprometer a eficiência dos produtos.
Por isso, a identificação da causa deve fazer parte da avaliação técnica antes da definição de novas medidas de controle.
O monitoramento sistemático permite acompanhar a presença e a evolução das infestações em diferentes talhões. No caso das plantas daninhas, é importante identificar as espécies, a densidade e o estágio de desenvolvimento. Para as pragas, a avaliação pode envolver inspeções visuais, armadilhas, contagem de insetos e observação dos danos provocados à cultura.
Essas informações, associadas ao histórico de aplicações, ajudam a identificar áreas mais problemáticas e orientar a necessidade de intervenção.
O controle baseado apenas em um calendário fixo, sem considerar os níveis de infestação, pode resultar em aplicações desnecessárias e aumentar a pressão de seleção. A utilização de níveis de ação, conforme recomendações técnicas, permite relacionar a presença dos organismos ao risco econômico para a lavoura.
A rotação dos mecanismos de ação é outra medida importante. No manejo de plantas daninhas, a simples troca do nome comercial do herbicida não garante uma estratégia diferente de controle. É necessário verificar se os produtos atuam por mecanismos distintos.
O mesmo princípio se aplica aos inseticidas. A alternância planejada entre grupos químicos, considerando as gerações das pragas, contribui para reduzir a exposição contínua das populações a um único mecanismo de ação.
O uso de doses inferiores às recomendadas e as aplicações realizadas fora do estágio adequado das plantas daninhas também podem favorecer a sobrevivência de indivíduos menos suscetíveis.
Além do controle químico, práticas culturais e biológicas integram as estratégias de prevenção da resistência. Na cana-de-açúcar, a manutenção adequada da palhada, o manejo de restos culturais, a escolha de variedades adaptadas e o controle mecânico localizado, quando viável, podem ajudar a reduzir a pressão das infestações.
No manejo de pragas, a utilização de agentes biológicos, como fungos entomopatogênicos, parasitoides e predadores, pode complementar as intervenções químicas. A escolha de inseticidas mais seletivos, quando necessária e tecnicamente adequada, também contribui para preservar os inimigos naturais.
Outro cuidado é evitar que plantas daninhas sobreviventes completem seu ciclo e produzam sementes. A formação de novas sementes pode ampliar a presença de indivíduos resistentes no solo, aumentando as dificuldades de manejo nas safras seguintes.
A resistência também pode trazer consequências para o desempenho produtivo da cana. Plantas daninhas não controladas competem por água, luz e nutrientes, enquanto ataques de pragas podem provocar danos em colmos e folhas.
Em situações de infestação persistente, esses problemas podem afetar o número e o diâmetro dos colmos, o teor de sacarose e a longevidade do canavial. Em casos mais severos, pode ser necessária a reforma antecipada da área.
Do ponto de vista econômico, a perda de eficiência dos produtos pode elevar os gastos com reaplicações, utilização de alternativas de controle e monitoramento adicional. O aumento indiscriminado das aplicações também pode ampliar os riscos de deriva e contaminação ambiental.
O planejamento do manejo deve, portanto, abranger todo o ano agrícola. O registro dos produtos utilizados, dos mecanismos de ação, das épocas de aplicação e dos resultados obtidos permite avaliar a evolução das infestações e ajustar as estratégias entre safras.
As decisões envolvendo inseticidas e herbicidas devem respeitar as recomendações de rótulo e bula, o receituário agronômico e as normas de segurança, com acompanhamento de profissional habilitado.
A prevenção da resistência depende da combinação entre monitoramento, diagnóstico das falhas de controle, alternância de mecanismos de ação e integração de práticas químicas, biológicas e culturais. O acompanhamento contínuo dessas medidas contribui para preservar a eficiência das ferramentas de manejo e reduzir os riscos de perdas na produção de cana-de-açúcar.