Você já ouviu falar em carne halal?

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ESPECIAL

Você já ouviu falar em carne halal?

O mercado gigantesco só cresce no Brasil e deve expandir ainda mais
Por: -Eliza Maliszewski
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O Brasil é o maior exportador do mundo de proteína halal. Trata-se de um tipo de produção, especialmente de carne bovina e de frango, que segue rigorosas regras de sanidade e rastreabilidade e que atende a comunidade muçulmana. As pessoas desta religião seguem hábitos alimentares, rotinas diárias e de trabalho de acordo com o que é permitido pela normas muçulmanas. O termo halal quer dizer o que é lícito/permitido. A população mundial gira em torno de 2 bilhões de pessoas. No Brasil o total gira em 1 milhão de pessoas. O tipo de produção também atende a comunidade não muçulmana em função do rigor sanitário abrindo mais mercado.

Como se dá a produção

O alimento permitido no Islã, de acordo com as regras de Deus escritas no Alcorão, deve seguir algumas regras que podem parecer curiosas a quem não é da religião. Os processos de embalagem, armazenagem, certificação e embarque da carne Halal é feito de forma segregada da produção comum. Ou seja, existem as empresas que só fazem alimentos halal.

O abate deve ser feito por um muçulmano que deve degolar o animal voltado para Meca, cortando jugular, traqueia e esôfago. A faca utilizada precisa estar bem afiada para que a morte seja instantânea, evitando o sofrimento e que saia a maior quantidade de sangue possível. Antes do abate de cada bicho, o degolador pede autorização a Deus, em árabe, como forma de mostrar obediência e agradecimento pela comida e reafirmar que não está matando o animal por crueldade ou sadismo.

Muçulmanos só comem bovinos e frango. Peixes são considerados Halal por natureza, porque saem da água vivos. Já os suínos são considerados impuros pelo modo como se alimentam, por estarem ligados a ambientes de sujeira. O animal precisa estar saudável. 

Mas como pode-se assegurar que tudo foi feito a risca? Existem entidades certificadoras que acompanham o passo a passo na indústria e abatedouros, realizando laudos técnicos que atestam que nenhum produto proibido foi utilizado. 

Mercado halal

A fatia brasileira é gigante. Só no primeiro semestre de 2019 as exportações  para os Emirados Árabes Unidos cresceram 439,84%  e para os demais países do bloco cerca de 48% de aumento. De acordo com o Relatório Global da Economia Islâmica os gastos com produtos halal pelos muçulmanos no mundo (comida, fármaco, cosmética, lifestyle e outros) podem chegar a US$ 3,2 trilhões até 2024.  O total de muçulmanos pelo mundo deve chegar até 3 bilhões de pessoas em 10 anos. A Ásia tem a maior concentração seguida da África e Europa. No Brasil quase 50% da produção total de proteína já é halal. De acordo com informações da ABPA - Associação Brasileira de Proteína Animal – as exportações de frango (halal e não halal) alcançaram 4.120 milhões de toneladas, registrando aumento de 2,8% em relação a 2018, com receitas de US$ 6,994 bilhões (alta de 6,4% na comparação anual). A China, sem sombra de dúvida, foi o país que mais importou frango, chegando a 585 mil toneladas, volume 34% maior que o de 2018. 

Como obter o certificado halal nos processos de transporte e armazenamento? Em nenhum processo a ser avaliado pode haver incidência de álcool ou indícios de carne suína, fatores proibidos de acordo com a lei islâmica. Todos os processos de armazenamento, manuseio, rotulagem embalagem, transporte e entrega serão analisados. Ou seja, desde a entrada e saída do produto: espaço físico (serão medidas a umidade e pressão do ar, além de exigir as boas práticas de higiene, incluindo proteção de mercadorias e ou carga contra contaminação cruzada (proibida pelo halal)); características biológicas, químicas e físicas dos produtos; lista de ingredientes, inclusive de aditivos e auxiliares de processamento, entre outros.  

A SIIL Halal é uma empresa especializada neste tipo de serviço e que atua como Certificadora Halal. O trabalho inicia desde o projeto da linha de produção até a embalagem de produtos permitidos para consumo islâmico, assim como na fiscalização dentro das normas e regras ditadas pela Jurisprudência Islâmica. O Portal Agrolink conversou com o CEO, Chaiboun Darwiche, para entender mais sobre este mercado: 

Portal Agrolink: o Brasil é o grande exportador de carne halal. Muita gente desconhece este setor. O que é essa produção e que produtos engloba?

Chaiboun Darwiche: sim, atualmente o Brasil é o maior produtor de carnes (bovina e frango) Halal do mundo com quase 80% de suas plantas frigoríficas habilitadas para processar alimentos Halal. Mas muitos ainda desconhecem o que compreende o termo Halal. Halal significa lícito ou permitido, ou seja, em referência aos produtos livres de qualquer componente que os muçulmanos sejam proibidos de consumir de acordo com a lei islâmica ou seja prescrito no Sagrado Alcorão. Entre os produtos que podem carregar o selo Halal são eles: alimentos, bebidas, cosméticos, produtos de higiene pessoal, produtos farmacêuticos, ingredientes alimentares e materiais para contato com alimentos. Já o oposto ao Halal é o Haram, aqueles produtos não permitidos identificados como Mashbooh (duvidoso/questionável). 

Portal Agrolink: como é o processo de certificação de empresas?

Chaiboun Darwiche: o certificado Halal é um documento fiel de garantia emitido por uma instituição certificadora Halal reconhecida por países islâmicos para atestar que a empresas, processo e produtos seguem os requisitos legais e critérios determinados pela jurisprudência islâmica (Sharia). O processo de obtenção da certificação Halal ocorre através de empresas credenciadas tal como a SIIL Halal por meio da avaliação e visitas junto as empresas interessadas a fim de verificar se o sistema de produção atende aos requisitos exigidos pelas normas islâmicas. Essa análise inclui produtos e sua produção, além do ambiente para validar se está em conformidade com os preceitos islâmicos. Este processo inicia com a empresa preenchendo o formulário solicitando a certificação para um determinado produto. Após isso é feita a análise dos termos contratuais, posteriormente vem a primeira fase da auditoria feita por uma certificadora Halal credenciada que analisa os documentos, fichas técnicas, matérias primas, gestão e os processos laboratoriais da empresa em questão. Na segunda fase da auditoria é verificado evidências de produção Halal, evidências de implantação do Sistema Halal, feedback de não-conformidades, análise da eficiência do plano de ação e a recomendação para a certificação. Após execução de todos estes parâmetros o processo entra no estágio de Decisão da Certificação que é avaliado por um Comitê e só então a viabilidade ou não da aprovação. E por fim, caso a empresa interessada esteja alinhada às exigências é feito o registro, liberação e emissão do certificado. Com isso as embalagens dos produtos da empresa solicitante passam a conter o selo da SIIL Halal.  

Portal Agrolink: hoje quantos certificados temos e volume de produção?

Chaiboun Darwiche: atualmente atendemos um leque vasto de clientes dos mais variados segmentos industriais aptos para comercializar seus produtos para a comunidade muçulmana internacional. É sabido que o agronegócio nacional é um dos maiores segmentos produtivos do Brasil e a indústria das carnes (bovino e frango) é o carro chefe quando pensamos em comércio internacional de produtos Halal.  Se olharmos para os balanços anuais de volume e receita das exportações gerados pela Abiec e ABPA percebemos o quão importante é a participação dos países árabes nesses negócios. Nestes dois segmentos o Brasil mantêm negócios com 22 países árabes que exigem a certificação Halal em seus produtos. Em 2019 exportamos 43,9 mil toneladas totalizando US$ 12,19 milhões. 

Portal Agrolink: como se dá a fiscalização para o cumprimento das regras que asseguram o selo halal?

Chaiboun Darwiche: a supervisão está instalada dentro das empresas por meio de equipes treinadas da SIIL Halal que acompanham toda linha de produção para avaliar o cumprimento das exigências que determinam que o produto está dentro das especificações de consumo.  


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