A importância do mercado externo


A importância do mercado externo

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A importância do mercado externo

Decio Luiz Gazzoni

                O Brasil não tem problemas de abastecimento interno de produtos agrícolas. Se ainda há vulnerabilidade nutricional em nosso país, a razão não está na oferta de alimentos, porém na falta de renda para adquiri-los. Por esta razão exportamos mais do que o dobro do que consumimos internamente, fazendo do agronegócio a locomotiva da economia brasileira. Importante frisar que, no futuro mediato, não se vislumbra nenhum setor que possa, isoladamente, assumir o protagonismo hoje desempenhado pelo agronegócio como gerador de empregos, renda e divisas, e como indutor de efeitos positivos em outros segmentos da economia brasileira.

                O mercado internacional é muito mais complexo do que transparece das informações superficiais que recebemos através da mídia não especializada. Apesar do enorme avanço dos últimos anos, ainda temos muito a aprender e melhorar. Além disso, é necessário ficar atento à permanente dinâmica do mercado, do anseio dos consumidores e das exigências dos países exportadores.

 

Os problemas

                O agronegócio tem garantido o superávit da balança comercial brasileira, há mais de duas décadas. Por isto, consolidou-se a visão sofismática de que exportar é bom e importar é ruim. Raciocinemos pelo absurdo: se todos os países do mundo assim agissem, todos quereriam exportar e ninguém importaria, o que configura uma inequação e uma situação de perde-perde. O fato é que, para exportar mais, o Brasil precisará importar mais, faz parte da lógica das negociações comerciais. Em 2017 o agronegócio faturou mais de US$100 bilhões em divisas, antepostos a uma importação de US$14 bilhões. Nosso problema com os parceiros comerciais não está nos US$100 bilhões, mas, por surpreendente que possa parecer, repousa nos US$14 bilhões. Ou seja, há espaço no mundo para expandirmos nossas exportações - atendidos diversos requisitos de competitividade e de geopolítica – mas essa expansão será cada vez mais atrelada à abertura do nosso mercado interno para quem de nós importa.

                Por que resistimos a importar? Porque, ao longo das últimas décadas, criamos uma mentalidade protecionista, fruto da pobreza e do déficit crônico na balança comercial, que perdurou até a década de 1990. Alguém aí lembra do bordão “Exportar é o que importa”. O trocadilho que soa mal foi lançado no governo João Baptista Figueiredo (1979-1985), baseado em uma ideia de 1964, de que "exportar é a solução". Até fazia sentido à época, com o Brasil soterrado na dívida externa, importador de petróleo e alimentos, com déficit crônico – e crescente - na balança comercial. Lembro que, qualquer brasileiro que fosse ao exterior, somente poderia comprar US$1.000,00. Como esse valor nunca era suficiente, restava o recurso do “câmbio negro”, por conta e risco do viajante. Assim, quando qualquer país pede acesso ao nosso mercado de produtos agrícolas, em troca de abrir o seu próprio mercado aos nossos produtos, o lobby refratário à importação é acionado para barrar qualquer iniciativa de acesso ao nosso mercado.

 

Aspectos a melhorar

Como resolver os problemas? Hoje ainda mantemos um forte déficit em outros setores que não o agrícola ou de minérios. Então, o foco principal deve ser aumentar a competitividade dos setores deficitários. Não se trata de diminuir importações de máquinas ou relógios, mas de ser competitivo nas nossas exportações desses setores, para equilibrar a balança setorial. Em segundo lugar, precisamos fortalecer o setor do agronegócio, para não temermos competição com produtos produzidos alhures. O nosso consumidor prefere vinho francês, chileno ou argentino? Pois melhoremos o nosso vinho ao invés de sobretaxar importações desses países!

Mas não basta apenas produzir mais e melhor, é necessário fazê-lo com sustentabilidade. Essa é uma das principais imposições da sociedade global, em especial dos países ricos, que mais importam e melhor pagam. Na esteira desse processo, também é necessário 1) mudar a mentalidade xenófoba, achando que toda a importação é maléfica e prejudicial; 2) firmar acordos comerciais com o maior número possível de países e blocos; 3) investir em campanhas promocionais, de abertura e consolidação de mercado para nossos produtos; 4) garantir que o país disponha de todas as condições para assegurar a qualidade e a inocuidade de seus produtos.

Pululam exemplos de como a nossa agenda não está sendo cumprida: há quantos anos o acordo comercial Mercosul – União Europeia não sai das conversas preliminares? De quantos adidos agrícolas o Brasil dispõe? Por que não dispomos de uma agência brasileira que efetue análises e ofereça estudos estratégicos para ampliação de nossa participação no mercado internacional? Não seria o momento de modernizar a nossa legislação de defesa agropecuária, grande parte ainda baseada em um decreto de 1934?

 

Antecipar o futuro

                Não podemos apenas agir reativamente, sendo simplesmente comprados – precisamos vender. Urge atuar proativamente, antecipando-nos aos fatos. O mercado internacional atravessa uma fase de grande dinamismo, com rápidas mudanças de posições e de preferências, não há como “deitar eternamente em berço esplêndido”. Enquanto garantimos a exportação de hoje, é fundamental pavimentar o caminho da exportação da década de 2020.

Cito um exemplo: no livro “A saga da soja “ (disponível em cnpso.vendas@embrapa.br), é projetada uma demanda de soja superior a 700 milhões de toneladas, para 2050. Segundo os autores, que analisaram profundamente cada um dos possíveis produtores de soja no futuro mediato, o Brasil reúne as melhores condições comparativas para abocanhar a maior parcela deste mercado. Mas, vantagem comparativa não significa, necessariamente, competitividade. O último capítulo do livro constitui uma agenda da tarefa de casa de governo e produtores, para que o Brasil assegure a maior parcela do fulgurante mercado de soja que se avizinha. Atender a cada uma das condições para assegurar o mercado, é a tarefa que governo e produtores precisam iniciar já, para colher os louros no futuro.

O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.


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