Medindo as emissões bovinas

Medindo as emissões bovinas

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Medindo as emissões bovinas

Decio Luiz Gazzoni

            Cotidianamente somos bombardeados com novos usos de satélites, capturando informações, que são processadas e transformadas em serviços, que atendem cidadãos (GPS, comunicações, fotografia, mapeamento) ou determinados estamentos, como militares ou corporações econômicas. No agronegócio já estamos acostumados a usar as imagens de satélite para inúmeras finalidades, como planejamento de lavouras ou para fiscalização do cumprimento de legislações, como a ambiental.

            Também não é novidade o uso de satélites para monitorar a produção agrícola, usando algoritmos que identificam o potencial produtivo de lavouras, permitindo antecipar previsão de safras e fazer ajustes finos nos preços das commodities agrícolas.

Com a popularização dos satélites, e o barateamento dos custos de seus serviços, cresce o número de empresas que utilizam satélites menores e de mais baixo custo, porém com enorme capacidade de capturar dados. Somente em 2018 foram lançados pouco menos de 1.000 novos satélites ao espaço, quase decuplicando o número de lançamentos de 2016. Em 2019 espera-se que a taxa de crescimento se mantenha ou cresça, tamanha é a demanda. Por meio deles, já é possível controlar desde grandes estacionamentos de automóveis até a intensidade da exploração de poços de petróleo. Essas informações, disponíveis em tempo real, permitem movimentos estratégicos de investidores nas bolsas de mercadorias. No nosso caso, é a agricultura digital ou 4.0 chegando!

 

Novas aplicações

            Vou utilizar como exemplo um case aplicado à pecuária, mas que ilustra bem a plêiade de novas aplicações, que se expande à velocidade de ficção científica. Isso posto, nada mais deveria nos surpreender, nem o fato de que já há interessados em rastrear o pum e o arroto das vacas. Tchê, rastrear o pum da vaca? Como isto é possível? E para quê?

             Pois bem, uma empresa da Califórnia desenvolveu tecnologia para detectar vazamentos ou emissões de metano, que é validada através de uma “assinatura” espectral característica da molécula. Emissões de metano tanto podem acontecer em instalações de petróleo ou pântanos, como em pastagens, campos nativos ou instalações de cria de bovinos, em confinamento ou semi-confinamento.

            E para que serve esse aparente esdrúxulo comportamento de rastrear flatulências bovinas? A lógica está no fato de que as bactérias presentes nos estômagos dos ruminantes produzem metano, que é liberado para a atmosfera através de arrotos, flatulências ou esterco. Por meio de pesquisas específicas, pode-se estabelecer o volume de emissões de metano associadas ao número de animais, em um determinado espaço e período de tempo.

 

Valor econômico

            Ao medir as emissões desses gases (mudança na sua concentração atmosférica), é possível estimar o tamanho dos rebanhos, inclusive aqueles localizados em abrigos cobertos, que não são acessíveis pelas imagens de satélite. De forma mais sofisticada, também podem ser avaliados, indiretamente, os alimentos oferecidos ao gado (pastagem ou rações).

E qual a utilidade dessa informação? Vale ouro! Os dados oferecerão uma visão em tempo real do tamanho dos rebanhos e da idade dos bois, logo do potencial de oferta do pecuarista para os frigoríficos. E isto pode ser feito por amostragem em muitos países do mundo, ou em uma região específica.

Os contratos futuros do gado são derivativos da pecuária, negociados em bolsa. Diariamente existem centenas de milhares de contratos em aberto na Bolsa de Chicago. O preço do contrato oscila ao sabor das estatísticas sobre a oferta e demanda de gado. A grande maioria dos investidores utiliza informações comuns, normalmente relatórios de governo. Um grupo mais restrito vale-se de consultorias privadas. Essas informações chegam com algum retardo aos investidores. Então imagine a diferença que fará para quem dispuser de uma informação valiosa, que chegue uma semana ou quinze dias antes das demais!

 

Valor ambiental

Há outro uso possível para as informações, no tangente às emissões de gases de efeito estufa, in casu, do metano. Esse gás possui atividade muito mais intensa que o gás carbônico, no acirramento do efeito estufa. Os cientistas aceitam um fator entre 23 e 25 para o metano, ou seja, o aumento do efeito estufa causado por um quilo de metano equivale àquele ocasionado por 23-25 kg de gás carbônico.

Dessa forma, saber onde ocorrem as emissões de metano, qual sua intensidade ou sazonalidade, passa a ser muito importante para a efetiva consecução de políticas públicas que visem mitigar as mudanças climáticas globais, e o cumprimento de metas de um país vinculadas aos acordos internacionais. No mesmo sentido, empresas privadas dispostas a alcançar o mesmo objetivo, podem valer-se da informação para o planejamento de suas atividades ou para introduzir mudanças nos sistemas de produção, que tenham como objetivo reduzir as emissões de metano.

Antes que eu esqueça, alvíssaras: este é um Big Brother com valor e utilidade para a sociedade.

O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.


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