Pó de rocha e Remineralizadores - tudo o que você precisa saber
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Pó de rocha e Remineralizadores - tudo o que você precisa saber

Tudo o que você precisa saber sobre os remineralizadores e pó de rocha.
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Índice do conteúdo - clique para navegar

Definições
O que são remineralizadores
Observação importante
Breve histórico da rochagem
Vantagens dos remineralizadores

     - Benefícios dos remineralizadores no solo
     - Benefícios dos remineralizadores nas plantas
     - Benefícios dos remineralizadores nos alimentos
Manejo dos remineralizadores
Uso e produção de pós de rocha e remineralizadores
Registro e legislação de um pó de rocha
Referências

 

 

Definições

Antes de lermos sobre o assunto, é importante entendermos alguns conceitos para evitar confusão sobre o tema:

Agromineral - matéria prima mineral usada no desenvolvimento de insumos fertilizantes. Estes podem ser classificados pela classe de ânions presentes, em: carbonato, cloreto, sulfato, fosfato e silicato, sendo neste último, onde se inserem os remineralizadores.

Pó de rocha - é um insumo feito a partir da trituração de rochas. Deve-se compreender que nem todo o pó de qualquer rocha é um insumo benéfico para as plantas. Alguns materiais podem conter partículas indesejáveis ou até tóxicas como metais pesados, que irão prejudicar o cultivo. Em alguns cenários se trata de um produto residual da mineração, sendo vantajoso às pedreiras comercializar o produto, ainda que nem sempre os benefícios daquele produto específico sejam comprovados. Assim, ressalta-se a importância de somente usar produtos com eficiência comprovada, passíveis de uso na agricultura. Como este material pode ser oriundo de qualquer rocha com qualquer composição, existem pós de rocha que podem trazer benefícios, e existem pós de rocha que podem trazer prejuízos.

Rochagem - é a técnica de aplicar um pó de rocha ao solo, visando benefícios como a adição de nutrientes, ou melhorar as propriedades físicas, químicas e/ou biológicas do solo.

Remineralizador - remineralizar significa reiniciar o processo de formação do solo. O solo é formado pelas rochas que são intemperizadas, e a adição de remineralizadores, que são rochas trituradas, irá recomeçar este processo. Remineralizador é um tipo de pó de rocha silicatado, com propriedades de rejuvenescimento do solo, buscando o equilíbrio da fertilidade e conservação de recursos naturais, fornecendo uma produtividade sustentável. Este processo ocorre na medida em que os minerais da rocha são intemperizados, disponibilizando os nutrientes.

Além dos remineralizadores, existem outros tipos de pós de rocha. Alguns já são utilizados e consolidados na agricultura há um bom tempo:

  • Carbonatos: como exemplo temos o calcário
  • Sulfatos: como exemplo temos o gesso agrícola
  • Cloreto: como exemplo temos o cloreto de potássio
  • Fosfato: como exemplo temos o fosfato natural
  • Silicato: as rochas silicáticas podem produzir fertilizantes, e também podem produzir os remineralizadores, que são o assunto principal desta página. Dentre as rochas silicáticas, temos 5 grupos com potencial de uso como fertilizante e remineralizador:

Lembrando que estas rochas silicáticas contêm também sílica e diversos outros micronutrientes, que possuem diversos efeitos benéficos às plantas.

 

O que são Remineralizadores

Remineralizadores são pós de rocha, oriundos de rochas silicáticas que, quando adicionados ao solo, podem melhorar as propriedades químicas, físicas e biológicas do solo, tendo uma atividade muito similar aos condicionadores de solo, com a diferença de que os remineralizadores fornecem minerais, formando novas fases minerais no solo, renovando o solo agrícola. Já o pó de rocha, como o próprio nome diz, é a rocha triturada que pode ou não conter efeitos benéficos para as plantas, podendo ter ou não nutrientes ou compostos indesejáveis como metais pesados.

O solo é formado pelo intemperismo (alterações químicas e físicas das rochas, formando as partículas do solo), e ao adicionarmos o remineralizador na superfície do solo, reiniciamos o processo de intemperismo, liberando, de maneira gradual, novos minerais, nutrientes e melhorando as condições do solo, assegurando maior fertilidade de produtividade por períodos mais longos, revitalizando o solo. 

É importante entender que uma única rocha não fornecerá a quantidade de nutrientes que as plantas demandam. As rochas podem ser bastante desequilibradas quanto aos teores de nutrientes e até metais pesados, sendo necessária a análise da composição de cada produto, verificando se estes se enquadram nos critérios de nutrientes e teores de elementos potencialmente tóxicos, de acordo com a IN do MAPA. Porém, a adição de um pó de rocha rico nos principais macro e micronutrientes resulta em uma contribuição heterogênea de elementos, proporcionando maior equilíbrio nutricional, contribuindo, inclusive, com elementos que muitas vezes não são diagnosticados como deficientes. As plantas podem ser favorecidas por diversos elementos benéficos, porém não essenciais, que muitas vezes são esquecidos, mas que favorecem o desenvolvimento das plantas e consequentemente aumentam a produtividade. Muitos destes elementos estão presentes em alguns pós de rocha.

A proposta dos remineralizadores de solo não é substituir totalmente os fertilizantes convencionais, mas sim de revitalizar o solo e construir a sua fertilidade. Trata-se de um uso complementar com os fertilizantes convencionais, que com o passar do tempo reduzirá as quantidades necessárias destes fertilizantes, representando uma redução de custos. Outro aspecto importante é que, no cenário atual, o Brasil usa maiores quantidades de fertilizantes ano após ano, ao passo que a produção nacional diminui, rumo a um cenário insustentável, evidenciando a importância de novas alternativas de fertilizantes e condicionadores de solo. 

Quanto à produtividade, nem toda planta irá produzir mais com o uso de remineralizadores, ainda que o efeito no solo seja positivo. As plantas possuem diferenças genéticas que se refletem nas respostas ao insumo. Desta forma, deve-se verificar se existem resultados comprovados para o uso do remineralizador na cultura e variedade em questão.

Esta técnica deve ser valorizada por alguns motivos:

  • Benefícios no solo como o rejuvenescimento do mesmo, aumento da CTC, sequestro do carbono, aumento da retenção de água e liberação de nutrientes, conforme detalhado abaixo em "benefícios dos remineralizadores";
  • Ampla disponibilidade de pós de rocha e remineralizadores no território brasileiro;
  • É uma fonte de nutriente alternativa às fontes importadas, reduzindo a dependência de produtos sujeitos às variações de preços causadas em um cenário global e pela oscilação do dólar;
  • Pode ser usado na agricultura orgânica ou outras de base agroecológicas devido ao seu caráter ambiental;
  • Oportunidade de se reaproveitar subprodutos da mineração, eliminando um problema do setor;
  • Redução do uso de recursos não renováveis, que são usados na produção e transporte dos fertilizantes convencionais;
  • Redução de custos com o passar dos anos, reduzindo os investimentos em fertilizantes convencionais ou com o tratamento do solo.
  • Redução dos impactos causados no solo por alguns fertilizantes convencionais.

Leia abaixo todos os detalhes do uso de remineralizadores e suas propriedades benéficas. 

 

Importante!

Vale ressaltar que ainda vivemos em um cenário que carece de pesquisas e respostas para a prática da rochagem, a importância e potencialidades deste insumo começou a ser observada há pouco tempo. Muitas vezes carecemos de uma assistência para esta prática, havendo dúvidas quanto à dosagem e uso, e as pesquisas demoram para mostrarem os resultados. Deve-se ter cuidado com o termo “pó de rocha” que engloba vários tipos de produtos, podendo induzir produtores desinformados a comprar produtos inadequados, principalmente quando ocorre carência de uma assistência técnica, sendo fundamental conhecer a composição do produto. Deve-se buscar empresas sérias, envolvidas na pesquisa e desenvolvimento, que possam fornecer produtos adequados conforme a demanda do produtor.

Destacamos a importância de um engenheiro agrônomo para analisar o cenário de produção e as variáveis, sendo estes fatores que fornecerão uma recomendação apropriada para o uso do pó de rocha.

 

Breve Histórico da rochagem

As pesquisas e experimentos sobre o uso de pó de rocha ocorrem desde o século XVIII. James Hutton, considerado um dos fundadores da geologia, usava e recomendava o calcário e a argila, além de rochas similares para o aumento de fertilidade de solo. O químico alemão Justus Von Liebig elaborou à conhecida fórmula NPK, iniciando a era dos fertilizantes químicos. Nesta mesma época, Julius Hensel escreveu o livro "Pães de Pedra", defendendo que o pó de rocha também teria os mesmos efeitos na fertilidade, porém com menores prejuízos ao meio ambiente e menores custos. Já em 1922, Lacroix defendia o potencial dos nutrientes contidos na maioria das rochas. Entre 1940 e 1950 diversos outros experimentos mostravam o potencial de diversas rochas como fonte de potássio, cálcio e micronutrientes, apresentando resultados positivos quanto à produtividade de plantas. Na década de 60 foi instaurada na América Latina e Ásia a Revolução verde, defendendo a produção de alimentos em larga escala através da intensa utilização de mecanização e insumos industriais.

Mais recentemente, na final da década de 90, Eder Martins e Suzi Theodoro começaram a desenvolver uma série de pesquisas sistemáticas sobre diversos tipos de pós de rocha. Em 2009 ocorreu o primeiro Congresso Brasileiro de Rochagem, e em 2021 ocorreu o quarto congresso sobre o tema.

 

Vantagens dos remineralizadores

Abaixo vamos entender quais são as vantagens do uso de remineralizadores, e como elas ocorrem. Por se tratar de um insumo relativamente novo, ressaltamos que ainda é necessária a elaboração de diversas pesquisas, testes e metodologias diferentes para avaliar os benefícios destes produtos e como eles ocorrem.

 

Benefícios dos remineralizadores no solo

  • Aumento da CTC - o uso do remineralizador libera minerais no solo, como o silicato, que sai da estrutura cristalina do material, liberando cargas negativas e contribuindo para a CTC. Diversos estudos relatam o aumento da CTC através do uso dos remineralizadores, porém cada material possui suas particularidades, exigindo métodos diferentes para avaliar a CTC, evitando resultados equivocados e frustração de expectativas (SANTOS, 2020);
  • Rejuvenescimento do solo - a rochagem permite a formação de novos argilominerais, reiniciando o processo de intemperismo e elevando a CTC do solo;
  • Aumento gradual do pH - na calagem, o pH é alterado rapidamente, podendo resultar em estresse na microbiota do solo e degradação mais rápida da matéria orgânica e liberação de carbono. Na rochagem, a elevação de pH é mais lenta e menos expressiva;
  • Liberação lenta de nutrientes - os pós de rocha silicatados liberam os nutrientes de forma lenta, resultando em baixo efeito salino (quando comparado aos fertilizantes de alta solubilidade), menor susceptibilidade à lixiviação e maior efeito residual no solo. Os remineralizadores podem liberar diversos nutrientes, como potássio, magnésio, cálcio, fósforo, silício, ferro, níquel, manganês, zinco, cobre, molibdênio, selênio etc. Alguns desses elementos muitas vezes são esquecidos, como por exemplo o silício, que é benéfico para a maioria das plantas, se alocando nas paredes celulares e favorecendo a resistência contra fatores de estresses bióticos e abióticos (RICHMOND; SUSSMAN, 2003), como por exemplo seca ou doenças.
    Como a liberação é lenta, em solos com deficiência nutricional, estas fontes possuem menor resposta em um curto prazo do que os fertilizantes de alta solubilidade, sendo a sua resposta mais evidente a médio e longo prazo. Tal fato ocorre pois os elementos estão presos em estruturas cristalinas de seus minerais, e a liberação depende das reações de intemperismo. Entende-se, também, que devido a liberação lenta de nutrientes, os benefícios dos remineralizadores são mais observados em plantas perenes e semi-perenes.
  • Maior eficiência de fertilizantes - O potássio é adsorvido na superfície silicática, sofrendo menores perdas por lixiviação. Outro exemplo é o ânion silicato, que quando liberado no solo compete pelos sítios de adsorção de fósforo, aumentando a disponibilidade deste nutriente para as plantas (CASTRO & CRUSCIOL, 2013).
  • Atividade biológica - o uso de remineralizadores aumenta a população de microrganismos no solo que interagem com estes produtos;
  • Retenção de água e melhoria da estrutura do solo - o silício possui boa capacidade de reter água no solo, já na planta, o seu alojamento na epiderme reduz a transpiração, reduzindo as perdas de água. Além disso, no solo, a disponibilização de nutrientes na rizosfera faz com que a planta libere exsudatos, que junto com os novos nutrientes, estimulam o aumento de microrganismos, aumentando o carbono no solo e sua adsorção nas fases minerais, formando agregados e melhorando a retenção de água no solo;
  • Sequestro de carbono - o uso dos remineralizadores pode aumentar a captura de CO2 atmosférico, através da formação de microagregados carbonatados no solo (CHURCHMAN et al., 2020) ou potencializando o crescimento de espécies florestais (SOARES, 2018), exprimindo o potencial de uso dos remineralizadores em projetos de créditos de carbono. Porém, ressalta-se que este aspecto ainda é bastante recente, carecendo de mais pesquisas para se obter dados mais precisos;
  • Diminuição do desperdício de fertilizantes - os fertilizantes convencionais possuem alta solubilidade, e o que não é absorvido pela planta em um determinado momento pode ser perdido por processos como lixiviação. No caso dos remineralizadores, a liberação ocorre em maior sincronia com a taxa de absorção da planta, ocorrendo menores desperdícios;
  • Menor risco de contaminação de aquíferos - ainda sobre a baixa velocidade de liberação, esta faz com que os nutrientes sejam mais absorvidos pelas plantas, sendo menos lixiviados e carregados para aquíferos;
  • Recuperação de áreas degradadas - o uso de remineralizadores propõe uma sinergia de práticas mecânicas, ecológicas e agrícolas. Em áreas que sofreram intensos processos de intemperismo, encontrando-se pobres em nutrientes, os remineralizadores podem reiniciar tais processos, readicionando minerais ao solo de maneira gradual, facilitando o crescimento de novas plantas em sucessão natural. Um estudo realizado em MG averiguou que o uso de remineralizadores da família dos kamafugitos beneficiou o desenvolvimento de novas plantas em áreas degradadas devido à adição de novos minerais, além de reduzir a toxidez de alumínio no solo através do acréscimo de cálcio e magnésio (THEODORO & MEDEIROS, 2017);
  • Facilidade de aplicação - os remineralizadores podem ser aplicados facilmente, através de um distribuidor de sólidos, manualmente ou até com o mesmo maquinário utilizado para aplicar calcário.

 

Benefícios dos remineralizadores nas plantas

  • Fornecimento gradual de nutrientes - conforme explicado acima, os remineralizadores liberam os nutrientes de forma gradual no solo, acompanhando o ciclo de vida da planta em todas as fases.
  • Maior resistência a pragas, doenças, seca, geadas, ventos... - os remineralizadores oriundos de rochas silicáticas possuem um alto teor de silício que é bastante utilizado no controle cultural de pragas e doenças. Este elemento benéfico se aloja na parede celular das plantas, aumentando sua espessura e rigidez, dificultando a penetração de patógenos. O mesmo pode ocorrer para insetos, como por exemplo no caso das lagartas, que necessitam de maior esforço da mandíbula para consumir as folhas, tendo um maior desgaste e menor consumo. Diversos estudos constataram resultados positivos, relacionando com a teoria da Trofobiose. Além disso, o silício ao se alocar nas paredes celulares, reduz a transpiração das plantas, reduzindo as perdas de água, além de proteger contra geadas, ventos etc.
  • Sequestro de carbono - o uso dos remineralizadores pode aumentar a captura de CO2 atmosférico, através da formação de microagregados carbonatados no solo (CHURCHMAN et al., 2020) ou potencializando o crescimento de espécies florestais (SOARES, 2018), exprimindo o potencial de uso dos remineralizadores em projetos de créditos de carbono. Porém, ressalta-se que este aspecto ainda é bastante recente, carecendo de mais pesquisas para se obter dados mais precisos;
  • Estímulo do sistema radicular - diferente do fertilizante convencional que é colocado no pé da planta e não estimula as raízes a buscarem o nutriente, o pó de rocha estimula a planta a emitir raiz e capturar os nutrientes, além da possibilidade de influenciar na densidade de esporos e colonização de raízes por fungos micorrízicos arbusculares (EDWARD, 2016;
  • Melhor valor nutricional dos produtos colhidos (conforme descrito abaixo)

 

Benefícios dos remineralizadores nos alimentos 

Este talvez seja um dos debates mais importantes sobre o uso dos remineralizadores. Entre 1940 e 2002, houve uma redução de alguns minerais nos alimentos. O magnésio diminuiu 24%, o potássio diminuiu 26% e o cálcio diminuiu 46%. Em 10 tipos de carne, a média de diminuição de minerais foi de 28% (THOMAS, 2007). Deste fato surge toda uma reflexão sobre as consequências para o nosso organismo pela menor ingestão em quantidade e diversidade de minerais, gerando a "fome oculta". Alguns pesquisadores defendem de que a longevidade excepcional de diversos povos sadios é associada ao plantio em locais rochosos, onde os alimentos contêm maior quantidade e diversidade de minerais, que também são encontrados nos remineralizadores.

O Centro Universitário UNIDAVI, em 2014, realizou uma pesquisa cultivando alguns alimentos com pó de ardósia. Um dos resultados mais expressivos foi o aumento de 82% de cálcio, 48% de magnésio, 30% de potássio e 1073% de zinco no cultivo da cebola com o pó de rocha Ritmito (conhecido como ardósia).

 

Manejo dos remineralizadores

Para obtermos boas respostas com o uso de remineralizadores, devemos seguir algumas práticas para favorecer a sua atividade no solo. Como citado anteriormente, a liberação dos elementos no remineralizador depende do processo de intemperismo, mais precisamente, do biointemperismo. O biointemperismo envolve a interação de raízes, microrganismos associados às raízes na rizosfera, e os minerais, evidenciando a importância de um bom manejo que favoreça a microbiota do solo, bem como o uso de plantas de cobertura com um bom sistema radicular que favoreça o processo, como o trigo sarracena ou a crotalária (MEHERUNA; AKAGI, 2006). 

Já a ação microbiana pode fragmentar partículas ou até realizar alterações complexas na superfície dos minerais. Também podem promover alterações no potencial eletroquímico e concentração de ácidos e quelantes orgânicos que favorecem o intemperismo na rizosfera (HARLEY; GILKES, 2000). Assim, a solubilização dos minerais do pó de rocha é bastante influenciada pela atividade biológica, recomendando-se o uso de práticas culturais que estimulem o desenvolvimento dos microrganismos do solo, como a compostagem ou o uso de fertilizantes orgânicos por exemplo.

Entende-se que, para se atingir o sucesso no uso do remineralizador, é necessária uma integração da parte mineral, orgânica e biológica no solo. Estes processos fazem com que o biointemperismo libere os nutrientes presos no meio das camadas dos minerais nos remineralizadores, nutrientes estes que possuem maior área superficial específica e capacidade de troca de cátions.

A velocidade do intemperismo depende de alguns outros fatores, como:

  • Granulometria do remineralizador (quanto menor, mais rápido será o intemperismo);
  • Composição mineralógica;
  • Tamanho, tipo e grau de alteração dos minerais presentes
  • Condições químicas do solo;

Ao aplicarmos minerais silicatados no solo, ocorre a hidrólise, consumindo o H+ e resultando em aumento gradual do pH, sendo este um indicador da reatividade da rocha e liberação dos cátions básicos e metálicos, ânions silicato e minerais secundários.

 

Aplicação de remineralizador no campo: a aplicação pode ser feita a lanço, em superfície, da seguinte forma:

  • Distribuidor de calcário
  • Distribuidor tipo cocho
  • Distribuidor com coluna de vento
  • Distribuidor de insumos sólidos para caminhões
  • Aplicação na compostagem (adição de superfície ativa ao processo)
  • Aplicação em confinamento (mistura de esterco e urina de bovinos com pó de rocha, somados com bagaço de cana e vinhoto)

 

Uso e produção de pós de rocha e remineralizadores

A geologia exerce importante papel na prospecção e mapeamento de agrominerais no território brasileiro, identificando e caracterizando fontes de minerais e rochas para emprego na melhoria da fertilidade e/ou condicionamento do solo. O centro de tecnologia mineral do Ministério da Ciência e Tecnologia disponibilizou em seu site o Mapa de ambientes geológicos favoráveis para agrominerais fontes de fósforo, potássio, cálcio e magnésio. Este mapa identifica os domínios geológicos e suas características em todo o território brasileiro.

O uso dos agrominerais silicáticos (remineralizadores) no Brasil vem crescendo ano após ano. Em 2019 foram utilizados em mais de 2 milhões de hectares. Conforme dados preliminares do Anuário Mineral brasileiro, existe um indicativo de que a demanda foi de 3 milhões de toneladas em 2021, e será de 5 milhões em 2022.

Segundo levantamento da EMBRAPA, a comercialização do pó de rocha compensa quando a fonte dos recursos esteja há menos de 300 quilômetros de distância da propriedade rural, levando em consideração o cálculo do frete e custo da mina. O uso depende do material de origem de onde se extrai o pó, que deve ter granulometria similar à de calcário, e seus benefícios surgem a longo prazo, não sendo observados no primeiro ano de cultivo.

Veja abaixo um mapa, elaborado pela EMBRAPA e Serviço Geológico do Brasil, apresentando os locais com potencial de uso de agrominerais silicáticos como insumos agrícolas:


Crédito: Divulgação IBRAM

Atualmente existem cerca de 30 produtos remineralizadores registrados, sendo 5 deles oriundos de mineração exclusiva para a produção destes insumos.

 

Registro e legislação de um pó de rocha

Para se obter um licenciamento ambiental para extração do pó de rocha, é preciso obter o licenciamento ambiental do novo insumo, frente aos órgãos estaduais de controle do meio ambiente, atestando a segurança ambiental e dos alimentos produzidos, pois alguns desses subprodutos podem conter metais pesados ou tóxicos. Deve-se também, obrigatoriamente, realizar testes sob a responsabilidade de instituições oficiais de pesquisa para comprovar a eficiência agronômica do material, e posteriormente, registra-se o insumo no MAPA.

Os remineralizadores foram regulamentados pela lei 12.890/2013, e posteriormente as Instruções Normativas 05 e 06/2016, que modificaram a lei de fertilizantes, incluindo os remineralizadores.

Já para se registrar um remineralizador, deve-se passar pelas seguintes etapas:

  1. Soma de bases (CaO + MgO + K2O) - deve ter no mínimo 9%
  2. Teor de K2O - deve ter no mínimo 1%
  3. Porcentagem volumétrica de Quartzo (dióxido de silício, SiO2) - deve ter no máximo 25%
  4. Limites máximos de metais pesados:
    • Arsênio (As) - menor do que 15 ppm
    • Cádmio (Cd) - menor que 10 ppm
    • Mercúrio (Hg) - menor que 0,1 ppm
    • Chumbo (Pb) - menor que 200 ppm
  5. pH de abrasão conforme declarado pelo fabricante
  6. Protocolo agronômico (avaliação da eficiência agronômica)

Sobre o teor de macro e micronutrientes, estes apenas podem ser declarados se atingirem o valor mínimo expresso nas normativas citadas acima. Por exemplo, para o P2O5, o mínimo é 1%.

Sobre a especificação de natureza física, estabeleceu-se os seguintes limites:

Tabela 1. Especificações de natureza física dos remineralizadores.

Natureza física Garantia granulométrica
Peneira Partículas passantes (m/m)
Filler 0,3mm (ABNT 50) 100%
2,0mm (ABNT 10) 100%
0,84mm (ABNT 20) 70% ou mais
0,3mm (ABNT 50) 50% ou mais
Farelado 4,8mm (ABNT 4) 100%
2,8mm (ABNT 7) 80% ou mais
0,84mm (ABNT 20) 25% ou mais

 

O registro somente é concedido após a realização de testes agronômicos por instituição oficial ou credenciada de pesquisa, feitos com plantas em casa de vegetação ou a campo, podendo ser complementados também com testes de incubação ou coluna de lixiviação, demonstrando de forma conclusiva que o produto alcança o objetivo que se destina. Para produtos que já foram submetidos a testes e tiveram seu uso na agricultura aprovados pela pesquisa brasileira oficial ou credenciada, será concedido o registro mediante apresentação, pelo requerente, de trabalhos científicos conclusivos sobre a eficiência agronômica. 

 

 

Anderson Wolf Machado - Eng. Agrônomo

 

 

Referências

CASTRO, G. S. A.; CRUSCIOL, C. A. C. Effects of superficial liming and silicate application on soil fertility and crop yield under rotation. Geoderma, v. 195-196, n. 1, p. 234-242, Mar. 2013. DOI: 10.1016/j.geoderma.2012.12.006.

CONGRESSO BRASILEIRO DE ROCHAGEM, III., 2017, Assis, SP. Anais [...]. [S. l.: s. n.], 2017. Tema: USO DE REMINERALIZADORES NA RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS: ESTUDO DE CASO DO RESERVATÓRIO DE TRÊS MARIAS/MG.

CHURCHMAN, G. J.; SINGH, M.; SCHAPEL, A.; SARKAR, B.; BOLAN, N. Clay minerals as the key to the sequestration of carbon in soils. Clays and Clay Minerals, 68, 135–143. 2020 DOI: 10.1007/s42860-020-00071-z

EDWARD, Winnie Oku Oliveira. INFLUÊNCIA DO USO DE PÓ DE ROCHAS FOSFÁTICAS E BASÁLTICAS NA OCORRÊNCIA DE MICORRIZAS ARBUSCULARES EM SOLO DE CERRADO. Orientador: Profa. Dra. Alessandra Monteiro de Paula. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Engenheira Florestal) - Departamento de Engenharia Florestal, Universidade de Brasília, [S. l.], 2016. 

HARLEY, A. D.; GILKES, R. J. Factors influencing the release of plant nutrient elements from silicate rock powders: a geochemical overview. Nutrient Cycling in Agroecosystems, v. 56, n. 1, p. 11-36, Jan. 2000. DOI: 10.1023/A:1009859309453

MEHERUNA, A.; AKAGI, T. Role of fine roots in the plant-induced weathering of andesite for several plant species. Geochemical Journal, v. 40, n. 1, p. 57-67, 2006. DOI: 10.2343/geochemj.40.57.

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 5, DE 10 DE MARÇO DE 2016. [S. l.], 10 mar. 2016.

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NIEWINSKI, Francielle da Silva. DO PÓ DE ROCHA À FERTILIDADE: UMA EXPERIÊNCIA NOS SOLOS DE MONTENEGRO/RS. Orientador: Drª Maria Lidia Medeiros Vignol-Lelarge e Drª Teresinha Guerra. 2017. Dissertação (Bacharelado em Geologia) - O Instituto de Geociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, 2017.

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SOARES, G. J. (2018) Influência da rochagem no desenvolvimento de sistemas agroflorestais e na captura de dióxido de carbono atmosférico. Dissertação de Mestrado (PPG-MADER/UnB. 99 p. https://repositorio.unb.br/handle/10482/33088

THOMAS D. The Mineral Depletion of Foods Available to US as A Nation (1940–2002) – A Review of the 6th Edition of McCance and Widdowson. Nutrition and Health. 2007;19(1-2):21-55. doi:10.1177/026010600701900205

X ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS, 2015, Águas de Lindóia, SP. Cultivar alimentos mais seguros nutricionalmente: uma prática sustentável e uma oportunidade de pesquisa em Educação em Ciências [...]. [S. l.: s. n.], 2015.


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