Por Aline Merladete com colaboração e revisão de Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo
Conforme Embrapa trigo, o efeito de baixas temperaturas na cultura do trigo produz resultados diferenciados, dependendo do estádio de desenvolvimento em que ocorre. A contribuição das instituições de pesquisa, gerando cultivares com algum grau de tolerância às baixas temperaturas, tem contribuído para reduzir efeitos de geadas nas regiões produtoras.
A ocorrência de geadas durante o florescimento do trigo pode comprometer a formação dos grãos e provocar perdas expressivas de produtividade. Nessa fase, as estruturas reprodutivas da planta são especialmente sensíveis às baixas temperaturas, tornando a avaliação dos danos uma etapa importante para definir os próximos cuidados com a lavoura.
No Sul do Brasil, as geadas tardias representam um risco para lavouras que atravessam o período reprodutivo, especialmente entre agosto e outubro. A intensidade dos prejuízos depende do estágio de desenvolvimento da cultura, da duração do frio e das condições específicas de cada área.
Conforme Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo, quando a geada ocorre durante o emborrachamento ou início do espigamento, pode afetar as estruturas da espiga ainda protegidas pelas folhas. Já no florescimento, o frio intenso pode provocar danos às anteras e aos ovários, comprometendo a fecundação e causando esterilidade das flores. Os danos por geadas no estádio de florescimento/espigamento, são considerados mais intensos com ocorrência de -1ºC e -2ºC, combinadas com alta umidade nos tecidos vegetais, sendo que temperaturas de 0ºC em áreas de baixada podem trazer danos às plantas.
O resultado pode aparecer na forma de espigas com poucos grãos, espiguetas vazias ou grãos malformados. Quando o evento ocorre no início do enchimento, o desenvolvimento dos grãos também pode ser interrompido, reduzindo seu peso e o potencial produtivo.
Avaliação deve começar alguns dias após a geada
A aparência da lavoura logo depois do frio nem sempre revela a extensão dos danos. Folhas queimadas ou escurecidas podem indicar injúrias, mas não significam necessariamente que as espigas foram comprometidas.
A orientação é aguardar de 3 a 5 dias após a geada para realizar uma avaliação mais detalhada, período em que os sintomas internos começam a ficar mais evidentes.
O procedimento deve ser feito por talhão, percorrendo diferentes pontos da lavoura, incluindo baixadas, encostas e áreas mais altas. A recomendação é examinar de 10 a 20 espigas por ponto de amostragem, observando a coloração e as condições das flores, anteras e pequenos grãos em formação.
Entre os principais sinais de dano estão flores escurecidas ou com aspecto encharcado, anteras marrons ou pretas, espiguetas secas e ausência de formação de grãos.
A contagem de espiguetas comprometidas em relação ao total permite estimar a proporção de danos nas espigas avaliadas. Essa informação, associada à observação de diferentes pontos do talhão, ajuda a identificar se o comprometimento é leve, moderado ou severo.
Em situações de danos leves, quando boa parte das espiguetas permanece fértil, a lavoura pode conservar potencial produtivo suficiente para justificar a continuidade do manejo planejado. Já em casos moderados, pode ser necessário revisar os investimentos em tratamentos adicionais.
Quando a maior parte das espiguetas apresenta danos severos, a expectativa de produtividade precisa ser reavaliada. A decisão sobre manter a lavoura até a colheita deve considerar o potencial de produção remanescente, os custos e a orientação técnica.
O acompanhamento também é importante porque o trigo pode apresentar recuperação parcial quando os danos ficam restritos às folhas e as estruturas reprodutivas permanecem preservadas.
Para as próximas safras, o registro da data de semeadura, da cultivar utilizada e do estágio da lavoura no momento da geada pode ajudar no planejamento. O escalonamento do plantio e a escolha de cultivares com diferentes ciclos são estratégias para reduzir a exposição de toda a área ao mesmo evento climático.