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Feijão ganha espaço em Goiás, apesar do desafio de transformar produtividade em rentabilidade

Goiás amplia a produção, mas preços voláteis dificultam a rentabilidade


Foto: Canva

Redução do ICMS melhora as condições de comercialização, enquanto produtores de Cristalina mostram que tecnologia, irrigação e assistência técnica podem levar a lavouras de alta produtividade. 

Na lavoura de feijão, produzir bem é apenas parte do desafio. O produtor precisa acertar a época do plantio, cuidar do solo, acompanhar de perto as condições climáticas, controlar pragas e doenças e, no fim do ciclo, ainda encontrar um mercado disposto a pagar pela qualidade do grão. Em Goiás, essa combinação tem permitido resultados expressivos, especialmente em regiões como Cristalina, mas a cultura ainda convive com obstáculos que limitam o crescimento.

Os números mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que Goiás deve encerrar a safra 2025/26 com produção estimada em 299 mil toneladas de feijão. O volume representa crescimento de 3,1% em relação à safra anterior e coloca o Estado na quinta posição entre os maiores produtores brasileiros. Goiás responde por cerca de 14% da produção nacional.

A área plantada também cresceu. Passou de 119,2 mil hectares na safra 2024/25 para 127 mil hectares na atual, avanço de 6,5%. A produtividade estimada, por outro lado, caiu de 2.432 para 2.354 quilos por hectare. Mesmo assim, o aumento da área foi suficiente para garantir uma produção maior.

Para o analista técnico do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), Vilmar Eurípedes da Silva, os números mostram que existe espaço para a cultura avançar no Estado, mas a decisão de plantar feijão ainda envolve riscos que fazem o produtor avaliar com cuidado onde e quando colocar a cultura.

“O preço do feijão é muito volátil e depende bastante da qualidade”, explica. Diferentemente de outras commodities, em que o produtor consegue trabalhar com referências mais previsíveis, o feijão é comercializado de acordo com a classificação do grão. O resultado da lavoura, portanto, só fica totalmente claro no momento da colheita e da comercialização. Essa característica ajuda a explicar por que nem sempre uma boa produtividade significa uma boa margem para o produtor.

Quando a colheita aumenta, o preço pode cair

Cristalina é um exemplo dessa realidade. A região possui uma forte produção irrigada e reúne produtores que conseguiram transformar tecnologia e conhecimento em altas produtividades.

Segundo Renato Caetano, presidente da Associação Brasileira dos Consultores de Feijão (ABC Feijão), são cultivados aproximadamente 35 mil hectares de feijão por ano no município, considerando as duas safras. Na primeira, há produção de sequeiro durante a primavera. Já a terceira safra ocorre no inverno, com o uso da irrigação.

É justamente essa terceira safra que chega agora ao fim da colheita. “Estamos na fase final de colheita da terceira safra, com rendimento acima de 55 sacas por hectare e excelente qualidade de grãos”, afirma Renato. O resultado é expressivo, mas veio acompanhado de uma situação que preocupa quem está do outro lado da lavoura. Conforme a colheita avançou, o preço do produto caiu rapidamente. Segundo o consultor, a saca de 60 quilos, que chegou a ser negociada a R$ 400, estava em torno de R$ 230 no momento da entrevista.

A queda mostra, na prática, o que o IFAG aponta como um dos principais desafios da cultura: a dificuldade de prever quanto o produtor receberá pelo feijão quando chegar a hora de vender. Para Rafael Lorea Lawson, diretor da Sementes Aliança e produtor da região, a realidade de Cristalina ajuda a dimensionar o potencial produtivo do Estado.

“Em Cristalina, a média de produção é de 50 sacas de feijão por hectare. É uma boa média, resultado de uma combinação de fatores como a estrutura de irrigação, as condições climáticas, o desenvolvimento de novas cultivares e a experiência acumulada pelos produtores. Além disso, existem produtores que conseguem alcançar médias de 65 a 70 sacas por hectare”, explica Lawson.

O campo mudou e o manejo também

Chegar a essas produtividades, no entanto, exige atenção durante todo o ciclo. No feijão, pequenos erros podem comprometer tanto o rendimento quanto a qualidade do produto. Rafael destaca cuidados que começam antes mesmo da semeadura, como a escolha da janela correta de plantio, o preparo do solo e o momento adequado para adubação e aplicação de defensivos.

Renato também aponta uma evolução importante no modo de produzir. Segundo ele, o acompanhamento técnico especializado passou a ter papel cada vez mais importante para que a atividade alcance uma rentabilidade adequada. Entre as mudanças estão a redução da população de plantas, o aprimoramento da arquitetura das lavouras, o uso de bioinsumos e uma utilização mais eficiente da água na irrigação.

É nesse contexto que a Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar Goiás ganha importância para os produtores de grãos em todo o Estado. Por meio do acompanhamento técnico realizado diretamente nas propriedades, o programa orienta os produtores na adoção de práticas que contribuem para a conservação do solo, o manejo adequado da lavoura e a melhoria dos resultados produtivos.

Para Vilmar, esse trabalho também é fundamental diante dos períodos de maior estresse climático, já que o planejamento e as técnicas aplicadas ao longo do ciclo podem ajudar a reduzir impactos sobre a lavoura e contribuir para a qualidade do grão na colheita.

No plantio direto, por exemplo, a manutenção da palhada ajuda a conservar a umidade do solo. A menor movimentação da terra também reduz a presença de solo junto às vagens durante a colheita, contribuindo para a qualidade do produto.

“São práticas que garantem, às vezes, para o produtor conseguir atingir uma melhor produtividade quando tem uma qualidade melhor do produto final e também conservação do solo, principalmente para as próximas safras”, explica o analista.

Uma cultura que ainda pode crescer

Apesar dos bons resultados, para os especialistas Goiás poderia produzir mais. Para isso, porém, não basta ampliar a área cultivada. Em Cristalina, um dos principais limites apontados por Renato está justamente na infraestrutura necessária para a irrigação. Segundo ele, a expansão da atividade encontra dificuldades relacionadas à disponibilidade de água e energia, além de uma rede de distribuição de energia que precisa acompanhar a demanda das propriedades.

Rafael também coloca a ampliação das outorgas de água e o acesso à energia entre as principais necessidades para que mais áreas possam receber sistemas de irrigação. “Liberar mais outorga de água e acesso à energia para instalação de pivôs de irrigação” é, na avaliação dele, um dos caminhos para ampliar a produção.

Há ainda outro desafio: fazer com que o produtor tenha mais segurança para escolher o feijão diante de outras culturas. Vilmar explica que a decisão é tomada considerando o risco de mercado, o clima e a possibilidade de retorno de cada cultivo. Em um cenário de incerteza, culturas consideradas mais seguras podem acabar ganhando espaço. Por isso, para o analista, a expansão do feijão depende também de um mercado mais previsível.

Menos imposto, mais competitividade

Nesse cenário, a redução do ICMS sobre o feijão aparece como uma mudança importante. A alíquota, que era de 6%, passou para 2,4% na comercialização do produto. Para Vilmar, a medida é positiva porque melhora as condições de comercialização do feijão produzido em Goiás, especialmente aquele destinado a outros estados.

Rafael já percebe efeitos na ponta. Segundo ele, a redução ajudou a atrair compradores de outras regiões para Goiás, aumentando a disputa pelo produto e, consequentemente, contribuindo para melhorar o preço recebido pelo produtor. “Outros estados vieram comprar mais em Goiás, aumentou a disputa pelo produto e consequentemente melhor preço ao produtor”, relata.

A medida, porém, não resolve sozinha os problemas da cultura. Renato avalia que o benefício tributário melhora a comercialização, mas a expansão da área continuará dependendo de investimentos em infraestrutura de água e energia.

Do feijão carioca aos mercados internacionais

O próximo passo pode ser ainda maior. Goiás já tem espaço para ampliar a produção do tradicional feijão carioca, mas também pode diversificar a oferta e entrar em mercados de feijões especiais, conhecidos como pulses.

Renato cita variedades como vermelho, mungo verde, rajado e branco como oportunidades para a produção goiana avançar no mercado internacional. Segundo ele, a produção irrigada do Estado tem condições de entregar grãos com características exigidas por consumidores de mercados mais rigorosos.

A possibilidade inclui países como Índia, México e Estados Unidos. O movimento também passa pela busca de uma identidade própria para o produto. Segundo Renato, o setor trabalha para avançar na construção de uma indicação geográfica para o feijão, seguindo um caminho já conhecido em produtos como café e vinho.

Para Goiás, a oportunidade está justamente em transformar a capacidade de produzir em uma atividade cada vez mais organizada, diversificada e valorizada pelo mercado.

Os números da Conab mostram que o Estado já ocupa uma posição de destaque na produção brasileira. As lavouras de Cristalina, por sua vez, mostram até onde é possível chegar quando irrigação, tecnologia, manejo e conhecimento caminham juntos.

O desafio agora é fazer com que esse potencial também se traduza em segurança para quem planta. Porque, no fim das contas, para o produtor de feijão, uma lavoura cheia precisa vir acompanhada de uma conta que feche.

 

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