O que existe por trás de um chocolate? O papel da certificação na cadeia do cacau
Certificação verifica práticas e ganha relevância com novas exigências de mercado
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Quase 4 quilos por ano foi a média de chocolate consumido por pessoa no Brasil, um dos poucos países a reunir toda a cadeia produtiva, da amêndoa de cacau à fabricação do produto final. Em 2025, o país produziu 814 mil toneladas de chocolate e tem expectativa de crescimento neste ano. Quem abre uma barra de chocolate raramente pensa nela como um produto agrícola, apesar de ser o resultado de uma lavoura que, por meio do cacau, está diretamente conectada com a conservação da floresta. É importante olharmos para o cacau como exemplo de uma das poucas culturas que revelam com tanta nitidez as escolhas que estão em jogo no campo brasileiro.
O cacau também está em expansão. Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), do IBGE, a produção brasileira de cacau está estimada em aproximadamente 322 mil toneladas em 2026, um crescimento de 9,2% em relação ao ano anterior. O Plano Inova Cacau 2030, lançado em parceria com o Ministério da Agricultura, mira 400 mil toneladas até o fim da década, volume que permitiria ao país deixar de ser importador líquido e se tornar exportador. Mas o potencial da cacauicultura brasileira não está apenas no volume produzido. O país reúne diferentes sistemas de cultivo, desde os tradicionais sistemas cabruca, no sul da Bahia, em que o cacau é cultivado sob a sombra de árvores nativas, até sistemas agroflorestais e plantios a pleno sol. Cada modelo apresenta características e desafios próprios, reforçando a importância da adoção de boas práticas agrícolas e de uma gestão socioambiental responsável. Nos sistemas sombreados, o manejo adequado pode favorecer a conservação da biodiversidade e a recuperação de áreas degradadas, enquanto, nos diferentes modelos produtivos, práticas de conservação do solo, proteção dos recursos hídricos e uso responsável de insumos são fundamentais para reduzir os impactos ambientais. No Pará, por exemplo, sistemas agroflorestais com cacau contribuíram para a recuperação de 229 mil hectares de áreas degradadas em 17 anos. Essa diversidade mostra que é possível conciliar produtividade e conservação ambiental, desde que acompanhadas de boas práticas agrícolas e manejo responsável.
O momento torna a produção responsável ainda mais importante. Nos últimos anos, o mercado internacional do cacau registrou fortes oscilações de preços, influenciadas por alterações na oferta, condições climáticas adversas e problemas fitossanitários, especialmente na África Ocidental, responsável por mais de 60% da produção mundial. Para o Brasil, esse cenário representa oportunidades de crescimento, mas também reforça a importância de uma produção capaz de conciliar produtividade, gestão de riscos e responsabilidade socioambiental. Expandir a cacauicultura sem critérios socioambientais claros significaria repetir erros que já custaram caro a outras regiões produtoras do mundo, onde a expansão do cacau esteve associada à perda de florestas e a violações de direitos.
Por isso, não basta afirmar que um produto é sustentável: é preciso demonstrar. Compradores, investidores e consumidores exigem cada vez mais evidências, e essa demanda também se reflete nas regulamentações internacionais. O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que passa a ser aplicado em 30 de dezembro de 2026 para operadores de médio e grande porte, inclui o cacau entre as commodities abrangidas e estabelece exigências de rastreabilidade, conformidade legal e ausência de desmatamento. Nesse ambiente, mecanismos de verificação independente, como a certificação socioambiental, ganham relevância ao contribuir para a confiabilidade das informações apresentadas pelas empresas e produtores.
É aqui que a certificação socioambiental cumpre um papel difícil de substituir. Por meio de critérios técnicos, auditorias independentes e mecanismos de rastreabilidade, ela verifica, na propriedade, se os compromissos assumidos pelas empresas estão de fato sendo cumpridos. Na dimensão ambiental, isso significa avaliar riscos como desmatamento, perda de biodiversidade, degradação do solo, uso inadequado de agroquímicos e impactos sobre os recursos hídricos. Na dimensão social, significa enfrentar temas que não admitem relativização, como o trabalho infantil e o trabalho forçado, além de assegurar direitos trabalhistas e condições adequadas de saúde e segurança. Mais do que apontar problemas, a certificação estabelece o caminho para corrigi-los e acompanha a implementação das melhorias.
As mudanças climáticas reforçam esse argumento. Alterações no regime de chuvas, secas prolongadas e temperaturas mais altas já afetam a produtividade do cacau, favorecem desequilíbrios fitossanitários e aumentam a vulnerabilidade dos produtores. As práticas que a certificação incentiva e monitora, como conservação do solo, manutenção da cobertura vegetal, proteção das águas e diversificação dos sistemas produtivos, são as mesmas que preparam as propriedades para esse cenário. Não por acaso, estudos indicam que sistemas agroflorestais tradicionais, como a cabruca, tendem a ser mais resilientes do que os cultivos intensivos a pleno sol.
Para a cacauicultura brasileira, portanto, tratar produtividade e conservação como escolhas opostas é um falso dilema. A combinação de boas práticas com mecanismos confiáveis de verificação é o que pode sustentar a competitividade do cacau nacional, garantir a continuidade da produção e abrir portas em mercados cada vez mais exigentes.