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Renda da soja e inflação


Argemiro Luís Brum
Na última década, os produtores de soja do Brasil conseguiram, em duas safras (2003/04 e 2010/11), uma renda acima do normal com sua atividade. Nas duas, os preços da oleaginosa giraram em torno de R$ 50,00/saco em muitas oportunidades. Todavia, pelos efeitos da inflação, o poder de compra do saco de soja desta última safra é menor do que o da anterior, apesar de nominalmente o preço ser semelhante.

E a renda líquida, neste contexto, como teria ficado? Em função de debates existentes de que a renda de 2010/11 teria sido melhor do que a de 2003/04, desenvolvemos um pequeno estudo com base em dados médios do Rio Grande do Sul (cf. Fecoagro, Emater, FGV e CEEMA) e chegamos a algumas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, o custo operacional (mais financiamento) da safra de 2003/04 foi de R$ 15,27/saco enquanto o custo total, incluindo a remuneração da terra, foi de R$ 24,34/saco. No momento da comercialização da safra daquele ano (abril/2004) o preço médio de balcão, obtido pelo produtor gaúcho, foi de R$ 49,72/saco.

Em segundo lugar, a inflação (IPCA) entre o plantio de uma e outra safra, foi de 42,5% e de 44,8% entre abril de 2003 e abril de 2011. Ao corrigirmos os valores anteriores (custos e preço), com base na inflação ocorrida, encontramos uma larga vantagem em favor da safra 2003/04. Para que o resultado líquido do produtor gaúcho de soja fosse igual em 2010/11, em termos reais, ao de 2003/04, o saldo final operacional deveria ser de R$ 49,09/saco e o total de R$ 36,17/saco.


Renda da soja e inflação  (II)

Ora, na prática, o produtor, em 2010/11, obteve um saldo líquido final de R$ 23,43 e R$ 11,25/saco respectivamente, pois seu custo operacional ficou em R$ 19,29/saco; seu custo total em R$ 31,47/saco; e o preço médio recebido em abril de 2011, no balcão, foi de R$ 42,72/saco.

Em quarto lugar, comprova-se que em valores reais, pela média, a safra de 2003/04 foi bem mais rentável do que a de 2010/11. Enfim, o mais interessante ainda, é que mesmo em termos nominais a safra anterior foi melhor. Pelos custos operacionais e pelos custos totais, o saldo líquido final em 2003/04 foi de R$ 34,45 e R$ 25,38/saco respectivamente.

Na safra 2010/11 tal saldo ficou em R$ 23,43 e R$ 11,25/saco respectivamente. E isso que na última safra já se considerava a produção de soja transgênica no cálculo, a qual gera menos despesas que a convencional. No milho, os resultados finais foram similares, embora mais apertados comparativamente. O saldo líquido final real ficou, na última safra, 28% e 38% abaixo do que deveria ter sido para empatar com os resultados de 2003/04, respectivamente nas rubricas custo operacional e custo total.

Em termos nominais, no custo operacional atual, o saldo ficou um pouco melhor do que na safra anterior (R$ 11,74 contra R$ 11,11/saco), porém, em relação ao custo total a realidade repetiu a tendência (saldo final de R$ 5,89 agora, contra R$ 6,59/saco em 2003/04). Ou seja, salvo casos isolados, em termos médios, os ganhos finais da atual safra são bem menores do que os obtidos em 2003/04, confirmando uma forte inflação de custos.                     
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