A amostragem de solo e raízes antes do plantio é uma etapa importante para identificar o nematoide das lesões radiculares em áreas destinadas ao cultivo de arroz, especialmente em sistemas de sequeiro ou terras altas. Entre setembro e janeiro, a avaliação permite identificar a presença de Pratylenchus brachyurus e Pratylenchus zeae, estimar o nível populacional e orientar o planejamento do manejo fitossanitário antes da semeadura.
Esses nematoides podem comprometer o desenvolvimento das raízes, reduzir a absorção de água e nutrientes e prejudicar o vigor das plantas. O risco merece atenção principalmente em áreas com histórico de sucessão de culturas hospedeiras, como soja, milho e pastagens.
A coleta preventiva também permite comparar talhões, avaliar o histórico de manejo e considerar alternativas como rotação de culturas, uso de cultivares tolerantes e, quando houver indicação técnica, aplicação de nematicidas registrados para a cultura.
Os nematoides do gênero Pratylenchus são organismos microscópicos que parasitam as raízes das plantas. Ao penetrar e se movimentar pelos tecidos radiculares, causam pequenas lesões necróticas que prejudicam o funcionamento do sistema radicular. Diferentemente dos nematoides formadores de galhas, como os do gênero Meloidogyne, eles não provocam inchaços evidentes nas raízes. Essa característica dificulta a identificação visual do problema no campo.
Além de reduzir o volume de raízes funcionais, as lesões podem favorecer a entrada de fungos e bactérias oportunistas, agravando a perda de vigor e o menor perfilhamento das plantas.
Quando os sintomas aparecem na parte aérea, como amarelecimento, falhas de estande e plantas de menor porte, a população de nematoides pode já estar elevada. Por isso, a análise preventiva ajuda a identificar áreas de risco antes da implantação da lavoura.
A amostragem também permite avaliar os resultados de rotações anteriores, práticas de cobertura do solo e outras medidas de manejo. Os dados devem ser analisados em conjunto com a fertilidade do solo, o histórico de produtividade e a ocorrência de outras pragas e doenças.
As espécies Pratylenchus brachyurus e Pratylenchus zeae são nematoides migradores endoparasitas, ou seja, penetram e se movimentam no interior das raízes. A presença desses organismos pode estar associada a diferentes sintomas nas lavouras de arroz de terras altas.
Entre os principais sinais de suspeita estão:
- Falhas de estande e reboleiras com plantas menores;
- Amarelecimento nas fases iniciais, mesmo quando a adubação é adequada;
- Raízes mais escuras, com pequenas lesões alongadas;
- Redução da massa radicular e do desenvolvimento das plantas.
Esses sintomas, entretanto, não confirmam isoladamente a presença de nematoides. O diagnóstico depende de análise laboratorial especializada, realizada a partir de amostras de solo e raízes coletadas e acondicionadas corretamente.
A ampla gama de hospedeiros desses organismos, que inclui soja, milho, sorgo, gramíneas forrageiras e arroz, favorece sua manutenção em sistemas intensivos de produção. Eles também podem sobreviver em restos culturais e na rizosfera, mesmo quando o arroz não está sendo cultivado.
A umidade e a temperatura do solo influenciam a atividade dos nematoides. Enquanto níveis moderados de umidade favorecem sua movimentação, secas severas podem reduzir a atividade sem eliminar completamente as populações. Como a distribuição no campo tende a ocorrer em manchas, a coleta precisa abranger diferentes pontos do talhão.
O planejamento deve considerar a divisão da propriedade em talhões homogêneos, levando em conta o histórico de uso do solo, o tipo de solo, o relevo, a cultura anterior e a produtividade.
Áreas muito grandes ou heterogêneas não devem ser representadas por uma única amostra. Quando houver reboleiras conhecidas de baixo vigor, recomenda-se considerar coletas separadas para as manchas e para as áreas com melhor desenvolvimento, permitindo comparar os níveis de infestação.
O período entre setembro e janeiro costuma coincidir com a colheita de culturas antecessoras, a entressafra e o planejamento da semeadura do arroz. Sempre que possível, a coleta deve ocorrer logo após a colheita da cultura anterior, enquanto ainda há raízes presentes no solo. É importante evitar condições de solo extremamente seco ou saturado de água, que podem dificultar a extração laboratorial e influenciar a movimentação dos nematoides.
Durante a coleta, registre a data, a cultura anterior e as condições de umidade do solo. Essas informações ajudam na interpretação dos resultados. Para culturas anuais como o arroz, recomenda-se coletar solo na camada de 0 a 20 centímetros, priorizando a faixa explorada pelas raízes ativas.
A coleta deve ocorrer preferencialmente na linha em que estava a cultura anterior ou onde será semeado o arroz. Sempre que possível, inclua raízes finas, pois os nematoides do gênero Pratylenchus podem estar presentes no interior ou aderidos a esses tecidos.
Em cada talhão homogêneo, recomenda-se coletar pelo menos 15 a 20 subamostras, distribuídas em zigue-zague ou em padrão de W. Em áreas maiores ou heterogêneas, o número de pontos pode ser ampliado ou o talhão pode ser subdividido. Cada subamostra deve conter aproximadamente a mesma quantidade de solo, retirada com trado, pá ou ferramenta apropriada.
Utilize trados, enxadas, pás ou sondas limpas para evitar a contaminação entre talhões. Em cada ponto, abra uma pequena cova na linha de plantio ou próximo a ela e retire solo e raízes finas na profundidade recomendada.
Deposite o material em um balde limpo. Após concluir a coleta de todos os pontos, misture bem as subamostras e retire uma porção representativa, geralmente entre 500 mililitros e 1 litro de solo e raízes, para envio ao laboratório. Evite deixar o material exposto ao sol por períodos prolongados, pois temperaturas elevadas podem afetar a viabilidade dos nematoides.
As amostras devem ser acondicionadas em sacos plásticos resistentes ou recipientes fechados, com identificação externa contendo nome do produtor, talhão, data, cultura anterior e profundidade de coleta.
O material não deve ser seco ao sol, no forno ou ao ar livre. Mantenha as amostras úmidas, mas não encharcadas, em ambiente fresco e à sombra. Quando possível, conserve-as sob refrigeração, entre 10 °C e 15 °C, até o envio. O encaminhamento ao laboratório deve ocorrer o mais rápido possível, preferencialmente entre 24 e 48 horas após a coleta.
Os laudos laboratoriais geralmente informam as espécies identificadas, a população estimada por volume de solo ou massa de raízes e, eventualmente, comentários técnicos sobre o potencial de dano.
Com esses dados, o engenheiro agrônomo pode avaliar se o talhão é adequado para o plantio de arroz naquela safra, considerando o nível populacional, o histórico de produtividade e as condições do sistema de produção.
Os resultados também ajudam a decidir se é necessário intensificar a rotação com espécies menos hospedeiras, utilizar cultivares com maior tolerância, quando disponíveis, ou considerar o emprego de nematicidas registrados para a cultura.
Não existe um único nível populacional que determine a ocorrência de danos em todas as situações. O risco varia conforme a umidade, a temperatura, a fertilidade do solo, o vigor da cultivar, a qualidade da implantação e a presença de outros fatores de estresse, como compactação, deficiência nutricional e doenças radiculares. Por isso, a decisão de manejo deve integrar a análise de nematoides ao histórico da área e às demais informações agronômicas.
A amostragem deve fazer parte de uma estratégia contínua de manejo integrado, e não ser tratada como uma prática isolada. Entre as medidas que podem ser consideradas estão a rotação com espécies pouco hospedeiras de Pratylenchus spp., o uso planejado de palhada e adubação verde e a redução de monocultivos prolongados ou sucessões frequentes entre culturas hospedeiras, como soja, milho e arroz, em áreas com populações elevadas. Também é importante corrigir problemas de compactação e melhorar a drenagem para favorecer o desenvolvimento saudável das raízes.
O monitoramento periódico, a cada safra ou em intervalos de um a dois anos, permite acompanhar a evolução das populações em função das práticas adotadas. O registro dos laudos, dos resultados de produtividade e do histórico de manejo ajuda a identificar quais estratégias apresentam melhores resultados em cada área.
O uso de nematicidas químicos ou biológicos deve ocorrer somente quando houver indicação técnica, com produtos registrados para a cultura e seguindo o rótulo, a bula e a prescrição por engenheiro agrônomo.
A amostragem preventiva, portanto, permite identificar riscos antes da semeadura e oferece informações para decisões mais precisas sobre a escolha da área, a sucessão de culturas e as medidas de manejo do arroz. A interpretação dos resultados deve ser feita com assistência técnica, considerando as condições específicas de cada lavoura.