A mancha-parda no arroz, doença causada pelo fungo Bipolaris oryzae, exige atenção dos produtores entre novembro e março, período marcado por alta umidade e temperaturas elevadas em áreas de arroz irrigado. Reconhecer os sintomas iniciais nas folhas, nos colmos e nos grãos ajuda a orientar o diagnóstico e o manejo fitossanitário, reduzindo os riscos de perdas de produtividade e de qualidade industrial.
Embora seja frequentemente considerada uma doença secundária, a mancha-parda pode provocar danos importantes quando a lavoura apresenta estresse nutricional, especialmente deficiência de nitrogênio, ou histórico de ocorrência na área. O problema merece atenção durante o perfilhamento, o alongamento, o emborrachamento e o enchimento de grãos, fases relevantes para o desenvolvimento da cultura.
A doença pode passar despercebida quando o produtor concentra a inspeção nas folhas superiores ou prioriza o monitoramento de outros problemas, como brusone, queima das bainhas e plantas daninhas. Por isso, a avaliação frequente das folhas mais velhas e inferiores é uma das principais medidas para identificar os primeiros sinais.
Nas fases iniciais, da plântula ao perfilhamento, a mancha-parda aparece como pequenos pontos castanho-claros, geralmente arredondados ou ligeiramente alongados. As lesões apresentam centro mais claro, em tons acinzentados ou de palha, e bordas castanho-escuras bem delimitadas. As manchas costumam aparecer de forma dispersa pela lâmina foliar, sem formar grandes áreas necrosadas logo no início. Esse padrão ajuda a diferenciar a doença de outros problemas, embora sintomas leves de fitotoxicidade também possam gerar confusão no diagnóstico visual.
Com o avanço da cultura para as fases de alongamento e emborrachamento, as lesões tendem a aumentar de tamanho e assumir formato elíptico ou ovalado. Quando numerosas, podem se unir e formar áreas maiores de tecido necrosado, reduzindo a área foliar funcional e comprometendo a fotossíntese.
A inspeção deve começar pelas folhas inferiores e mais velhas, principalmente no interior do talhão, onde o sombreamento e a umidade podem favorecer o desenvolvimento da doença. Em alguns casos, os sintomas aparecem primeiro em reboleiras ou faixas com maior acúmulo de palha, menor circulação de ar ou sinais de estresse nutricional.
A identificação correta depende da observação do formato das lesões, da coloração e da parte da planta em que os sintomas aparecem. A mancha-parda pode ser confundida principalmente com a brusone foliar e a queima das bainhas, mas existem diferenças que ajudam na avaliação a campo.
Na mancha-parda, as lesões costumam ser menores, arredondadas ou levemente elípticas, com centro castanho-claro a acinzentado e bordas marrom-escuras relativamente finas. Os sintomas aparecem predominantemente nas folhas inferiores e mais velhas.
Na brusone, causada pelo fungo Magnaporthe oryzae, as lesões foliares geralmente são maiores e apresentam formato fusiforme, semelhante a um olho ou diamante. O centro tende a ser esbranquiçado ou cinza-claro, com bordas escuras mais largas e, em alguns casos, halo avermelhado.
Já a queima das bainhas, causada por Rhizoctonia solani, costuma começar nas bainhas e nos colmos próximos à lâmina de água. As lesões são mais irregulares e apresentam aspecto de tecido queimado, podendo se expandir ao redor do colmo e, em situações mais avançadas, atingir a lâmina foliar.
A localização e o padrão dos sintomas são importantes para orientar a suspeita, mas não substituem a confirmação técnica quando houver dúvida sobre a causa do problema.
Embora as folhas sejam o principal ponto de observação nas fases iniciais, o monitoramento deve incluir nós, colmos, panículas e grãos a partir do emborrachamento e do início da floração. Em estádios mais avançados, o fungo Bipolaris oryzae pode provocar descoloração parda nos nós, especialmente nas regiões próximas à panícula. Também podem surgir pequenas áreas pardas ou enegrecidas, que precisam ser avaliadas em conjunto com os demais sintomas da planta.
Durante o enchimento dos grãos e a maturação, a doença pode causar pontos e manchas castanho-escuras nas glumas, estruturas que envolvem o grão. Em casos severos, os grãos podem apresentar coloração parda a marrom-escura mais generalizada.
Essas alterações podem estar associadas à redução do peso dos grãos e ao comprometimento da qualidade industrial. Mesmo quando as folhas não apresentam sintomas muito intensos, a presença frequente de manchas nas panículas merece atenção durante a avaliação da lavoura.
A mancha-parda é favorecida por temperaturas entre 25 °C e 30 °C, alta umidade relativa, orvalho intenso e períodos frequentes de molhamento foliar. Chuvas, irrigação e neblina podem contribuir para a manutenção dessas condições. O fungo sobrevive em restos culturais de arroz e em sementes infectadas. Por isso, áreas com histórico da doença podem apresentar novas ocorrências, especialmente quando há acúmulo de palhada infectada, ausência de rotação de culturas ou problemas no manejo dos resíduos vegetais.
A nutrição também influencia a severidade. Lavouras com baixa disponibilidade de nitrogênio, plantas debilitadas ou densidade de semeadura excessiva tendem a apresentar maior intensidade da doença.
Nesse contexto, a mancha-parda pode indicar desequilíbrios no manejo da lavoura. A avaliação do estado nutricional, do histórico da área e das condições de cultivo ajuda a compreender os fatores associados ao aparecimento dos sintomas.
O monitoramento deve abranger diferentes pontos do talhão, seguindo um percurso em zigue-zague e evitando avaliações restritas às bordaduras. Áreas com histórico de ocorrência, baixa fertilidade ou maior acúmulo de palha merecem atenção adicional. Durante a inspeção, o produtor deve observar principalmente as folhas inferiores e procurar pequenas manchas castanhas com centro mais claro e bordas escuras bem definidas. Também é importante acompanhar a evolução do número de lesões após períodos de chuva ou alta umidade.
A partir do emborrachamento, a avaliação deve incluir panículas e grãos, procurando manchas escuras nas glumas e alterações na coloração. Comparar plantas aparentemente sadias com aquelas que apresentam sintomas pode facilitar a identificação das diferenças. A suspeita deve ser investigada com maior atenção quando as lesões aumentam progressivamente, aparecem em várias partes do talhão ou são acompanhadas por manchas escuras nos grãos. O histórico da doença e o uso de sementes próprias ou sem origem certificada também devem ser considerados na avaliação.
Quando houver dúvida, a recomendação é coletar folhas e panículas sintomáticas e encaminhar as amostras a um laboratório ou solicitar a avaliação de um engenheiro agrônomo. A confirmação do diagnóstico é importante para definir as estratégias de manejo e evitar intervenções inadequadas.
Qualquer aplicação de produto químico deve respeitar a bula e o receituário agronômico, conforme a orientação profissional.
A identificação precoce da mancha-parda contribui para um manejo fitossanitário mais adequado no arroz irrigado. O acompanhamento das folhas, dos colmos e dos grãos, associado à avaliação das condições ambientais e nutricionais, ajuda a reconhecer a evolução da doença e a reduzir os riscos à produtividade e à qualidade da colheita.