Os efeitos do El Niño sobre a produção agropecuária brasileira podem se refletir nos preços dos alimentos ao longo de 2027. Economistas estimam que o fenômeno climático poderá acrescentar 0,5 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com maior exposição dos alimentos in natura e possíveis impactos sobre os custos das rações e das proteínas animais.
De acordo com projeções do Santander, a inflação dos alimentos consumidos no domicílio poderá atingir seu pico em fevereiro de 2027, com contribuição estimada de aproximadamente 0,40 ponto percentual para o IPCA acumulado do ano. O cenário considera os riscos associados às alterações no regime de chuvas e temperaturas e seus possíveis efeitos sobre a oferta de produtos agropecuários.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, provocando mudanças na circulação atmosférica e influenciando as condições meteorológicas em diferentes partes do mundo. No Brasil, o fenômeno costuma favorecer a ocorrência de chuvas acima da média na Região Sul, enquanto áreas do Norte e Nordeste podem enfrentar redução das precipitações e períodos mais prolongados de estiagem.
Essas alterações representam desafios para o planejamento das atividades em campo, especialmente em períodos importantes do calendário de plantio, desenvolvimento das lavouras e colheita. O excesso ou a falta de chuvas pode comprometer a produtividade, afetar a qualidade dos produtos e provocar dificuldades nas operações realizadas no campo.
Entre os segmentos mais suscetíveis às condições climáticas estão os alimentos in natura, principalmente aqueles cuja produção depende de temperaturas e disponibilidade de água adequadas. Hortaliças, frutas e outros produtos perecíveis podem apresentar oscilações de oferta em situações de eventos meteorológicos extremos, influenciando os preços praticados no mercado.
Nas regiões produtoras do Sul, o aumento das precipitações pode dificultar a entrada de máquinas nas lavouras, ampliar o risco de doenças associadas à umidade e interferir nas operações de colheita. Culturas como soja, milho, trigo e arroz apresentam diferentes níveis de sensibilidade às condições meteorológicas, dependendo do estágio de desenvolvimento e da intensidade das chuvas.
Em contrapartida, áreas do Norte e Nordeste podem enfrentar dificuldades relacionadas à escassez de água e às temperaturas mais elevadas. A deficiência hídrica pode prejudicar o desenvolvimento das plantas, reduzir o potencial produtivo e comprometer a disponibilidade de pastagens destinadas à alimentação animal.
Os possíveis impactos do El Niño também alcançam a pecuária. Isso ocorre porque milho e soja são matérias-primas utilizadas na formulação de rações, especialmente nas cadeias de aves e suínos. Alterações na produção e nos preços desses grãos podem influenciar os custos de alimentação dos animais e, consequentemente, as despesas de produção.
Na bovinocultura, as condições climáticas também interferem na qualidade e na disponibilidade das pastagens. Períodos de estiagem podem reduzir a oferta de forragem, enquanto chuvas excessivas podem dificultar o manejo e afetar as condições das áreas utilizadas para alimentação dos rebanhos.
A possibilidade de aumento nos custos de produção, entretanto, não significa necessariamente elevação imediata dos preços ao consumidor. O comportamento das proteínas animais depende também da oferta de animais para abate, da disponibilidade de insumos, das condições de comercialização e da demanda interna e externa.
A relação entre eventos climáticos e inflação dos alimentos já foi observada em períodos anteriores. Alterações nas condições de produção podem afetar o abastecimento e contribuir para oscilações de preços, embora outros fatores econômicos, como câmbio, custos logísticos e comportamento do consumo, também influenciem o mercado.