Pragas comprometem a absorção de água e nutrientes e exigem manejo integrado, com atenção à rotação de culturas, escolha de híbridos e monitoramento do solo.
A presença de nematoides das lesões radiculares tem se tornado uma preocupação em áreas de produção intensiva de milho, especialmente em regiões do Cerrado e do Sul do Brasil. Esses organismos microscópicos atacam as raízes, prejudicam o desenvolvimento das plantas e podem reduzir o potencial produtivo da lavoura. O problema ganha importância em sistemas de sucessão de culturas, nos quais a repetição de espécies hospedeiras favorece a manutenção e a multiplicação das populações no solo.
Entre os principais nematoides associados à cultura estão Pratylenchus brachyurus e Pratylenchus zeae. Com menos de um milímetro de comprimento, esses organismos conseguem penetrar nas raízes e se deslocar pelos tecidos vegetais enquanto se alimentam e se reproduzem. Esse processo provoca lesões, destrói células e compromete a capacidade da planta de absorver água e nutrientes. Os ferimentos também podem facilitar a entrada de fungos e bactérias responsáveis por doenças radiculares.
Os primeiros sinais da infestação nem sempre são facilmente identificados. Em muitas lavouras, o problema aparece na forma de manchas com plantas menores, amareladas e com crescimento desuniforme. Esses sintomas podem ser confundidos com deficiência nutricional, compactação do solo ou falta de água, dificultando a identificação da verdadeira causa.
Nas raízes, os danos são mais característicos. A presença de lesões alongadas, de coloração marrom a enegrecida, acompanhada da redução de raízes finas e secundárias, pode indicar o ataque. Com o sistema radicular comprometido, as plantas ficam mais sensíveis aos períodos de estiagem e apresentam maior dificuldade para aproveitar os nutrientes disponíveis, mesmo em áreas com adubação adequada.
Em situações de infestação elevada, os efeitos podem alcançar a formação das espigas, com redução do número e do tamanho, além da produção de grãos menores e menos pesados. A intensidade dos prejuízos depende de fatores como população de nematoides, textura do solo, disponibilidade de água, fertilidade e ocorrência de outras doenças nas raízes.
A intensificação dos sistemas de cultivo com soja, milho e gramíneas forrageiras pode favorecer a multiplicação desses organismos, já que diferentes espécies vegetais funcionam como hospedeiras. Em áreas com sucessões frequentes, o nematoide pode permanecer ativo ao longo dos ciclos agrícolas, tornando o controle mais complexo.
O diagnóstico é um dos principais passos para definir a estratégia de manejo. A observação dos sintomas no campo não é suficiente para confirmar a infestação, sendo necessária a coleta de amostras de solo e raízes para análise em laboratório especializado. O procedimento permite identificar a espécie presente e estimar sua população, informações fundamentais para avaliar o risco e orientar as decisões agronômicas.
A amostragem deve considerar tanto os pontos da lavoura que apresentam plantas enfraquecidas quanto áreas com desenvolvimento considerado normal. A coleta na região de maior concentração de raízes, geralmente entre zero e 25 centímetros de profundidade, permite comparar as condições dos diferentes pontos do talhão.
Os resultados podem ser expressos em número de indivíduos por 100 centímetros cúbicos de solo ou por grama de raiz. Entretanto, a interpretação depende da espécie identificada, das condições de cultivo e do histórico da propriedade, já que os níveis de infestação associados a perdas econômicas não são iguais em todas as situações.
Com o diagnóstico confirmado, o manejo deve combinar diferentes estratégias. A rotação de culturas é uma das principais medidas, desde que sejam escolhidas espécies com baixa capacidade de multiplicar o nematoide identificado. A alternância inadequada de plantas hospedeiras pode manter as populações elevadas, mesmo quando há mudança de cultura entre as safras.
O planejamento exige atenção especial à escolha das plantas de cobertura. Embora contribuam para a produção de palhada e para a melhoria das condições físicas do solo, determinadas gramíneas também podem favorecer a sobrevivência e a multiplicação de Pratylenchus. Por isso, a seleção das espécies deve considerar o resultado da análise nematológica e as características do sistema de produção.
A escolha dos híbridos de milho também pode contribuir para reduzir os impactos da infestação. Existem diferenças de tolerância entre os materiais cultivados, embora a disponibilidade de híbridos com resistência efetiva ainda seja limitada. A avaliação do desempenho em áreas com histórico de nematoides pode ajudar a identificar materiais capazes de manter melhor desenvolvimento mesmo sob pressão da praga.
Outra alternativa é o tratamento de sementes com produtos químicos ou biológicos registrados. Os nematicidas químicos podem atuar na redução da penetração dos organismos e da população inicial próxima às raízes. Já os produtos biológicos utilizam microrganismos com diferentes mecanismos de ação, incluindo antagonismo e estímulo às respostas de defesa das plantas.
Essas ferramentas, entretanto, não devem ser consideradas soluções isoladas. A eficiência do manejo depende da integração com práticas de rotação, escolha de híbridos e melhoria das condições do solo. A utilização dos produtos também exige observação das recomendações técnicas, doses autorizadas e orientações de rótulo e bula.
A conservação da palhada, o aumento da matéria orgânica, a correção da acidez e o manejo adequado da fertilidade são medidas que favorecem o desenvolvimento radicular. A redução da compactação e a melhoria da infiltração de água também ajudam a diminuir o estresse das plantas, especialmente quando parte das raízes já está comprometida pela infestação.
O controle de plantas daninhas merece atenção, pois algumas espécies podem funcionar como hospedeiras e contribuir para a continuidade do ciclo dos nematoides. Da mesma forma, o manejo da água e de doenças de solo precisa ser considerado em conjunto, já que raízes lesionadas apresentam maior vulnerabilidade a outros agentes causadores de danos.
O período entre outubro e novembro é importante para o planejamento dessas ações, especialmente nas áreas destinadas ao milho de verão. É nessa etapa que decisões sobre sucessão de culturas, híbridos e tratamento de sementes podem ser ajustadas com base no histórico dos talhões e nos resultados das análises realizadas na entressafra.
O acompanhamento das populações ao longo dos anos também é necessário para avaliar a evolução da infestação. Registros por talhão, cultura e safra permitem identificar mudanças na presença dos nematoides e orientar o planejamento das próximas rotações.
O objetivo do manejo não é necessariamente eliminar os organismos do solo, mas reduzir suas populações a níveis que não provoquem prejuízos econômicos significativos. Para isso, o diagnóstico correto e a combinação de práticas agronômicas são fundamentais, especialmente em sistemas intensivos de produção, nos quais a permanência de plantas hospedeiras pode dificultar o controle ao longo das safras.