Diagnóstico meteorológico e impactos fisiológicos
O trabalho faz um panorama da olericultura nacional e relata que a maioria das hortaliças consumidas necessita de temperaturas amenas (18 ºC - 25 ºC), boa qualidade da água e disponibilidade hídrica, além de não tolerar excesso de chuvas e estresse hídrico. O estudo apresenta também a caracterização meteorológica do El Niño, correlacionando os cenários de altas temperaturas com o aumento da evaporação, da demanda hídrica e da escassez de água. Essas condições elevam os riscos de salinização do solo e de surtos de pragas.
Em contrapartida, o cenário de chuvas intensas gera encharcamento e excesso hídrico, o que compromete o desenvolvimento das raízes e o ciclo de vida das plantas, além de aumentar a incidência de doenças fúngicas e bacterianas.
Vulnerabilidade dos grupos de hortaliças
Devido às distintas exigências térmicas e hídricas das espécies vegetais, o trabalho mapeou as fragilidades específicas dos principais grupos de hortaliças:
Solanáceas (tomate, pimentão e batata): apresentam alta sensibilidade a temperaturas elevadas, que afetam diretamente o florescimento e a frutificação.
Folhosas e brássicas (alface, coentro, couve, brócolis, couve-flor e repolho): são vulneráveis pela exposição direta da área foliar ao calor extremo e à escassez de água.
Aliáceas (alho e cebola): apresentam forte dependência de irrigação regular e alta sensibilidade às variações de temperatura.
Raízes e tubérculos (cenoura, beterraba e batata-doce): desenvolvem-se no solo e dependem diretamente de estabilidade hídrica, pois o excesso ou a escassez de água compromete a formação e o crescimento das raízes.
Cucurbitáceas (melão, melancia, pepino, abóbora e abobrinha): necessitam de disponibilidade uniforme de água; o excesso de calor prejudica desde a germinação até o desenvolvimento dos frutos.
Estratégias de adaptação e práticas conservacionistas
Para reduzir as vulnerabilidades dos cultivos de hortaliças, os pesquisadores apontam seis eixos prioritários de atuação para os produtores:
1. Monitoramento constante: acompanhamento do risco climático e das condições locais.
2. Ajuste de calendário e genética: adoção de calendários agrícolas flexíveis, diversificação de culturas e uso de materiais geneticamente adaptados.
3. Manejo integrado de recursos: gestão conjunta de água, conservação do solo e sistemas de drenagem.
4. Manejo microclimático: proteção das lavouras para reduzir a exposição direta aos extremos térmicos.
5. Manejo fitossanitário orientado ao risco: monitoramento e controle preventivo de pragas e doenças fortalecidos pelo diagnóstico climático.
6. Validação de tecnologias conservacionistas: fortalecimento do cultivo mínimo e do Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH).
Braga relata que a adoção de sistemas conservacionistas reduz a temperatura e a amplitude térmica (diferença entre as temperaturas máxima e mínima registradas em um local durante um determinado período de tempo) na superfície do solo, amortece o impacto direto das gotas de chuva, favorece a infiltração de água e reduz a evaporação, o escoamento superficial e a erosão.
As diretrizes de adaptação tecnológica para a olericultura variam conforme os riscos climáticos de cada região brasileira, priorizando a irrigação localizada e o manejo da salinidade no Norte e no Nordeste, o controle de encharcamentos e doenças no Sul, e o uso de sensores de umidade, de telas anti-insetos e de cultivo protegido no Centro-Oeste e no Sudeste.
Complementando essas estratégias, o estudo sistematiza os principais desafios — como calor excessivo, déficit hídrico, chuvas intensas, salinidade, alta radiação e pressão fitossanitária — em uma matriz de resumo que associa cada risco aos grupos de hortaliças mais vulneráveis e aos respectivos eixos prioritários de resposta, os quais incluem desde o ajuste da época de plantio e a melhoria da drenagem até o manejo integrado de água, radiação e sanidade.
Além do El Niño: resiliência de longo prazo
Os desafios climáticos enfrentados pela olericultura superam os limites temporais de episódios isolados do El Niño, alerta o pesquisador. A combinação simultânea de calor, alta demanda evaporativa, flutuações hídricas e pressão fitossanitária exige soluções integradas.
“Por isso, a resiliência depende da integração entre genética adaptada, manejo eficiente da água, conservação e drenagem do solo, manejo do microclima, diversificação, cultivo protegido e gestão fitossanitária”, ressalta Braga.