As plantas conhecidas como “citros” pertencem ao gênero Citrus e a outros gêneros afins a este. Dentre as mais conhecidas se encontram as laranjeiras doces [C. sinensis (L.) Osbeck], os limoeiros verdadeiros [C. limon (L.) Burm. f.], as limeiras ácidas [C. aurantiifolia (Christm.) Swingle] e doces (C. limettioides Tanaka) e as tangerineiras (diversas espécies). Sua introdução no Brasil remonta ao início da colonização do país pelos portugueses, segundo registros antigos, dos idos de 1530/40. Responderam tão bem às condições brasileiras, principalmente quando cultivadas em regiões costeiras, que representam, hoje, um segmento econômico extremamente importante, haja vista o destaque do Brasil como primeiro produtor mundial de citros.
A citricultura brasileira esteve sempre voltada para o cultivo de variedades, copas e porta-enxertos, usadas na alimentação. As principais instituições de pesquisa em citricultura, como o IAC e a Embrapa, sempre tiveram seus programas de melhoramento genético voltados para a obtenção de cultivares superiores relativamente à produção de frutos comestíveis in natura ou para sucos.
Os citros, no entanto, trazem uma tradição de uso ornamental que remonta aos séculos 17 e 18, na Europa pós-medieval, principalmente na zona mediterrânea. A Itália é um dos países com maior tradição em citricultura ornamental, onde se encontram antigas coleções em jardins, nos quais se distinguem, algumas vezes, espécies raras. Essas coleções se formaram a partir de uma competição entre os nobres da época, que buscavam plantas cítricas com características pouco usuais, porém extremamente ornamentais. A seleção não era feita visando à qualidade do fruto, mas, sim, buscando formatos exóticos em folhas ou frutos ou colorações e variegações pouco comuns.
Atualmente, na Europa, há uma mobilização em torno da citricultura ornamental, não apenas visando resgatar variedades descritas na antiguidade, mas também o estabelecimento de programas de melhoramento genético buscando novos híbridos, a exemplo do que se vê em algumas instituições de pesquisa na Itália.
No Brasil, no entanto, seu uso ornamental ainda é incipiente, não existindo programas de melhoramento genético destinados a essa finalidade, apesar de toda tradição que o país tem em citricultura e da presença de coleções de germoplasma com grande variabilidade genética em suas principais instituições de pesquisa. O uso dos citros como plantas ornamentais ainda se restringe a indicações de poucos paisagistas.
A Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, que tem um Banco de Germoplasma de Citros com cerca de 700 acessos, iniciou há três anos um programa de pré-melhoramento visando à identificação de genótipos com potencial ornamental dentro dessa coleção.
Identificaram-se, nesse banco de germoplasma, vários acessos com características interessantes para exploração ornamental. Dentre esses, espécies do gênero Fortunella, como o ‘Kunquat Nagami’ [F. margarita (Lour.) Swingle], conhecida especialmente em São Paulo, produzem pequenos frutos ovalados, de coloração alaranjada intensa, extremamente ornamentais, com a vantagem adicional de serem comestíveis (casca), muito apreciada pela colônia japonesa.
Outra espécie bastante ornamental é o calamondin C. madurensis (Lour.), cujo porte é baixo, copa densa e globosa, com pequenos frutos, parecidos com laranjas e muito apreciados por sua beleza. Pode ser encontrado também na forma variegada e sua indicação de uso é tanto para vasos grandes, como para parques e jardins.
C. amblycarpa [(Hassk.) Ochse] é outra espécie com grande potencial ornamental. Trata-se de planta com arquitetura globosa, porte médio, com pequenos frutos, semelhantes a tangerinas, que na época da produção ganham uma beleza ímpar. Sua copa, densa, responde bem a podas, o que é uma característica interessante para plantas de utilização em ambientes externos.
Outras espécies de Citrus que apresentam potencial para uso ornamental são C. myrtifolia (Raf.), também denominada chinotto, e C. medica (L.), conhecida como cidra, cuja variedade ‘Fingered’ possui características peculiares, principalmente quanto ao fruto, que se apresenta em forma de dedos, conforme o nome sugere, além de ser extremamente aromático.
Algumas espécies pertencentes a outros gêneros podem igualmente ser usadas como ornamentais, a exemplo de Poncirus trifoliata [(L.) Raf.], Severinia buxifolia [(Poir.) Ten.] e Triphasia trifolia [(Burm. f.) P. Wilson]. A seleção ‘Flying Dragon’ ou ‘Dragão Voador’, de P. trifoliata, é amplamente utilizada como porta-enxerto ananicante e apresenta um hábito de crescimento diferente, o que a torna bastante interessante. Durante a floração mostra-se especialmente exuberante; está mais adaptada a climas temperados.
O gênero Microcitrus (Swingle) possui sete espécies, cujos frutos possuem formatos e cores diferentes, além de muito pequenos, o que os torna ainda mais interessantes. Cinco dessas espécies se originaram na Austrália e duas na Nova Guiné. São basicamente usadas como porta-enxerto devido a seus atributos de tolerância à seca e à salinidade, sendo uma opção interessante para localidades onde normalmente o cultivo de plantas cítricas é limitado pela pouca disponibilidade de água.
Finalmente, a espécie Eremocitrus glauca [(Lindl.) Swingle] possui uma copa cujo hábito de crescimento dá-se em forma de “chorão”, o que a torna interesse para uso ornamental. É a única espécie, dentre os citros, com comportamento de xerófita, sendo altamente recomendada para localidades semi-áridas ou desérticas.
Transformar essas espécies em cultivares de uso ornamental demanda, ainda, uma pesquisa intensa e de médio prazo. Algumas dessas variedades precisam ser hibridadas, de modo a ampliar seu potencial ornamental.
A demanda de pesquisa é grande, assim como o mercado para citros ornamentais precisa ser estabilizado. Vale ressaltar que a planta cítrica ornamental deve ser obtida a partir de material propagativo certificado, obedecendo aos critérios de qualidade estabelecidos para plantas comerciais.
Autores: Fernanda Vidigal Duarte Souza; Milene da Silva Castellen; Janay Almeida dos Santos-Serejo; Walter dos Santos Soares Filho; Orlando Sampaio Passos - pesquisadores da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical.