Para ilustrar a importância de pesquisas estratégicas de longo prazo, iniciemos com alguns exemplos:
- A soja originalmente era uma planta com caules frágeis, parecida com a ervilhaca, com baixa produção de grãos, e que, somente graças a pesquisas com visão de longo prazo (principalmente por institutos de pesquisa dos EUA), foi transformada nesta cultura que pode produzir mais de 4.000 kg de grãos com alto teor de proteína por hectare, como conhecemos atualmente.
- Mesmo renomados especialistas internacionais em trigo consideravam quase impossível o cultivo do cereal em nossos solos (originalmente) ácidos e no clima com elevada umidade (muito favorável a doenças) no sul do Brasil, nos quais, hoje, pode-se colher até mais de 4.000 kg/há, usando as tecnologias desenvolvidas ao longo dos últimos 50 anos.
- A exemplo dos campos ácidos do Planalto Médio do RS, antes coberto por capim "barba-de-bode", o cerrado brasileiro era considerado terra de pouco potencial produtivo e, portanto, quase sem valor.
- Antes do desenvolvimento e da adoção das tecnologias do sistema plantio direto, parte de estradas do interior ficavam cheias de terra proveniente de erosão, que ocorria em terras lavradas e gradeadas, processo que também contaminava os mananciais de água que abastecem as cidades com solo e produtos químicos.
- Em 1980, até proprietários de muita terra no Mato Grosso recusaram-se a ceder pequena área para a condução dos primeiros experimentos com soja, por não acreditarem em sua possibilidade de cultivo ou importância (experiência que tivemos como estudante de agronomia, participante do Projeto Rondon) e, aproximadamente, 20 anos mais tarde este estado apresenta a maior produção, maior produtividade do Brasil e um dos menores custos de produção em âmbito mundial.
A agricultura é um dos segmentos mais competitivos da economia brasileira. Também é dos setores que proporciona mais ampla distribuição de benefícios econômicos, sociais e ambientais em toda a sociedade. Isto fica mais evidente quando ocorrem dificuldades na agricultura: o comércio, a indústria e a população, tanto em cidades pequenas, como grandes, se ressentem da escassez de recursos.
Atualmente, os brasileiros estão colhendo os benefícios de investimentos estratégicos de longo prazo, em grande parte, fruto de investimentos governamentais realizados muitos anos atrás. Um dos maiores impulsos das últimas décadas ocorreu a partir da criação da Embrapa, em 1973, e a formação de pesquisadores em diversas das melhores universidades mundiais.
O futuro da agricultura brasileira depende do percentual de investimentos em pesquisa agropecuária em relação ao PIB agrícola do Brasil, e de sua aplicação em áreas de conhecimento e com objetivos estratégicos. Neste sentido, a seguir colocamos para avaliação duas possibilidades a serem consideradas, as quais permitem otimizar a utilização das terras e demais investimentos realizados nas últimas décadas.
Uma possibilidade das mais relevantes é o estabelecimento no Brasil Central de uma importante unidade de pesquisa para o desenvolvimento de cultivares (e talvez de híbridos) de trigo e de tecnologias de manejo para a produção em regiões tropicais. Um incremento importante no número de pesquisadores e nos meios para o desenvolvimento de atividades de pesquisas básicas e aplicadas de longo prazo poderá trazer imenso retorno porque o Brasil possui milhões de hectares em regiões tropicais. Tecnologia adaptada para produção de trigo permitiria otimizar o uso de terras e meios de produção que atualmente produzem uma safra de soja ou de milho por ano e diminuir a dependência do Brasil em importações e aquisição a preços crescentes. Como a maior parte da África carece de tecnologia para atender sua demanda por trigo e outros alimentos, cultivares e tecnologias desenvolvidas no Brasil poderiam contribuir para viabilizar a produção de trigo em áreas onde as condições ambientais permitem produção agrícola naquele continente. Por sua vez, um programa de investimento estratégico, bem fundamentado, provavelmente permitiria atrair cientistas e grandes somas de recursos de países desenvolvidos que atualmente apresentam baixo retorno em aplicações diretas na África. No passado, o Centro Internacional de Milho e Trigo - CIMMYT ofereceu oportunidades deste tipo, as quais não se concretizaram pela forma como foram propostas. O proposto centro também poderia formar técnicos e pesquisadores desses países em desenvolvimento, os quais teriam sua formação ao nível de mestrado e doutoramento, ao tempo em que também auxiliariam na execução de pesquisas em condições ambientais similares às de seus locais de origem. Provavelmente, o aprendizado nestas condições teria sido bem mais ajustado para os africanos que tive como colegas de mestrado e doutoramento estudando trigo de inverno nas condições geladas e de solos típicos de clima frio do Canadá.
Outra oportunidade com potencial de gerar enorme impacto e contribuição ao Brasil está ligada à expansão do cultivo de canola. Estamos liderando pesquisas inéditas, em nível mundial, demonstrando a viabilidade do cultivo de canola em regiões tropicais, com latitudes de até 6 graus (a canola é adaptada aos climas frios e latitudes de 35 a 55 graus, como Norte da Europa e Canadá). Estas pesquisas colocam o Brasil como pioneiro na "tropicalização" do cultivo de canola. Estrategicamente, a importância científica e econômica destes avanços poderá ser similar ao desenvolvimento pela Embrapa, em colaboração com outras instituições brasileiras, de cultivares e tecnologias que permitem que se cultive soja em qualquer latitude do Brasil, até na linha do Equador, enquanto que na época do início do cultivo de soja, em Santa Rosa, RS, isto somente era viável no sul do Brasil.
O avanço do cultivo de canola permitirá gerar trabalho e renda pela otimização do uso de milhões de hectares de terra e demais meios de produção sub-utilizados no período de inverno, na região Sul, ou na safrinha, no Centro-Oeste. Desta forma, tecnologias que estão sendo desenvolvidas para embasar a expansão da produção de canola, têm potencial para trazer, aos brasileiros os benefícios do atendimento da imensa demanda por óleo de canola, um dos melhores óleos para a alimentação humana (reduz o mau colesterol e o risco de doenças coronárias), e para a produção de biodiesel, por ser preferido na Comunidade Européia.
A geração de tecnologias de produção de canola (com o apoio e colaboração de diversas empresas, instituições e técnicos) e o treinamento de técnicos e produtores (detalhes disponíveis em http://www.cnpt.embrapa.br/culturas/canola/index.htm) já estão contribuindo decisivamente para a retomada do cultivo de canola no Sul do Brasil e no Paraguai. Nesta áreas a canola estava seriamente ameaçada por uma doença fúngica, e as tecnologias desenvolvidas permitiram que o Paraguai expandisse a produção a até 80 mil ha, e têm gerado aproximadamente R$ 5 milhões em ICMS por ano, além de empregos e benefícios para agricultores, para o agronegócio, e à sociedade em geral.