É estimado que no Estado do Amapá exista cerca de 600 mil hectares de áreas de várzeas, caracterizadas por solos dotados de média a alta fertilidade. A exploração agrícola nestas áreas demonstra a superioridade produtiva em relação às áreas de terra firme. Apesar da potencialidade produtiva das várzeas, sua utilização com culturas alimentares é inexpressiva e, eventualmente, tem sido feita em forma de monocultivo.
Devido a necessidade de oferecer ao agricultor familiar ribeirinho alternativas para a exploração da terra, surge a demanda de se criar formas de cultivo diferentes ou de se ajustar os cultivos atuais em uso, de modo a diversificar a produção e tirar melhor proveito do potencial produtivo das várzeas.
A Embrapa Amapá, dentro de suas linhas de pesquisa, vem desenvolvendo trabalhos com cultivos consorciados, envolvendo, principalmente, culturas alimentares como o arroz, milho, feijão e mandioca. Entre os consórcios avaliados, destacam-se os que envolveram as culturas da mandioca e do milho, que são mostrados a seguir, sob alguns aspectos agrotécnicos.
É aconselhável, por ocasião do preparo do solo das áreas de várzeas, deixar uma faixa de vegetação nativa ao longo do rio de no mínimo oitenta metros, a fim de evitar a erosão, mantendo-se também a vegetação próxima à nascente ou à cabeceiras dos córregos e igarapés.
Devido à falta de maquinários adaptados às características físicas das várzeas, o preparo da área deve ser feito de modo convencional, ou seja, broca, derrubada e queima. As operações devem ser realizadas nos meses de outubro e novembro, podendo também se estender até a primeira quinzena de dezembro, se as condições climáticas forem favoráveis. Antes da semeadura, uma nova roçagem deve ser realizada seguida de queima dos arbustos que se instalaram na área.
No geral, em função da boa fertilidade natural das várzeas, durante os três primeiros anos de exploração, não tem sido observada a necessidade do uso de fertilizantes químicos. Contudo, após este tempo, com cultivos sucessivos em uma mesma área, têm sido verificados decréscimos na produtividade das culturas. Desta maneira, a partir do quarto ano é recomendável proceder a análise de solo, visando corrigir possíveis deficiências minerais no solo.
A semeadura na época apropriada é um fator importante para diminuir o número de capinas e evitar a competição com as plantas daninhas na fase inicial de desenvolvimento. Devido à forte agressividade das invasoras, é aconselhável que pouco antes da semeadura, ocorra uma limpeza da área.
As semeaduras manuais, tanto da mandioca como do milho, devem ser feitas na segunda quinzena de julho ou durante o mês de agosto. Para a mandioca, utilizar uma maniva de um palmo de comprimento (aproximadamente, 15cm) por cova, enquanto que para o milho, o mais apropriado é semear de três a quatro sementes e posteriormente realizar o desbaste para duas plantas por cova.
Para a mandioca, utilizar espaçamento de 2,40m entre fileira e 1,0m entre plantas dentro da fileira (2,40m X 1,0m). Para o milho, que deverá ser semeado entre as fileiras de mandioca, recomenda-se espaçamento de 1,0m entre fileiras e 0,50m entre plantas dentro da fileira (1,0m X 0,50m).
Nos primeiros trabalhos experimentais em área de várzea, a cultivar Mameluca apresentou bom comportamento produtivo. Entretanto, as cultivares Mãe Joana e Amazonas - Embrapa 8, ambas introduzidas do Estado do Amazonas, também podem ser utilizadas.
Para a cultura do milho já foi avaliado um grande número de cultivares e as mais recomendadas são: BR 5102, BR 106, BR 201, BR 5103 e BR 108.
Deve-se procurar manter o plantio sempre no limpo, iniciando o controle de plantas daninhas desde o momento da semeadura. Duas ou até três capinas manuais são usualmente necessárias para manter o cultivo no limpo. Por ocasião das capinas, deve-se efetuar a amontoa para facilitar a fixação das raízes secundárias e evitar o tombamento das plantas.
Não é recomendável a utilização de herbicidas, em função de sua pouca funcionalidade e do perigo de contaminação da água, normalmente utilizada pelo ribeirinho para diversos fins.
A cultura da mandioca em várzea não se mostrou propensa ao ataque de pragas. Para o milho, as pragas de importância econômica, mas com ataque esporádico, são as lagartas elasmo (Elasmopalpus lignoselus) e a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda).
Para a lagarta elasmo, sugere-se a aplicação do inseticida carbaryl 85 PM em pulverizações dirigidas para a região do colo da planta. Para a lagarta-do-cartucho indica-se o inseticida carbofuran, sendo o produto colocado no interior do cartucho. As dosagens dos inseticidas devem ser aquelas estipuladas no rótulo dos fabricantes.
A mandioca consorciada com o milho em área de várzea não apresentou sintomas de doenças. Para a cultura do milho foi detectada a presença de helmintosporiose (Helminthosporium turcicum) e a podridão da espiga (Diplodia maydis e Fusarium moniliforme). Porém, o ataque causado por estas doenças não causou prejuízos à produção de grãos.
A colheita da mandioca deve ser realizada entre o sétimo e oitavo mês decorridos do plantio, evitando com isso o apodrecimento das raízes.