O Brasil fechou o ano de 2006 acumulando US$ 29,63 milhões em exportações de flores e plantas ornamentais, com um crescimento de 15,06% em relação ao ano anterior, confirmando plenamente nossos prognósticos realizados ao longo dos últimos meses. Tais projeções foram calcadas no potencial de exportações no mês de dezembro - e que efetivamente se concretizaram – considerado historicamente um período sempre muito favorável para a venda destas mercadorias no mercado internacional. Assim, as exportações de flores e plantas ornamentais, em dezembro de 2006, somaram US$ 2,2 milhões, que representaram valores 7,03% maiores que no mesmo mês de 2005 e permitiram a conquista de um novo recorde nacional nas vendas externas dos produtos da floricultura.
Esses dados mostram que o Brasil tem conseguido manter um crescimento sustentado das suas exportações de flores e plantas ornamentais, à despeito de todos os percalços logísticos e das políticas econômicas e cambiais internas, mantendo taxas reais de aumento de vendas, em dólar, de, pelo menos, 10% a 15% ao ano.
Embora ainda seja muito cedo para se arriscarem previsões para o próximo ano - já que se trata de um setor de mercadorias altamente perecíveis, no qual podem ocorrer rapidamente fenômenos e reviravoltas importantes - é possível prospectar algumas tendências no cenário mundial futuro. Assim, entre os fatores que poderão alterar favoravelmente as exportações brasileiras destacam-se: a) uma revisão da política cambial, com desvalorização do real frente ao dólar; b) a consolidação da retomada do crescimento econômico na região do euro, e c) a continuidade do aumento do consumo na Região do Leste Europeu, na Ásia e no Oriente Médio.
Por outro lado, poderão atuar negativamente sobre os resultados da balança comercial futura da floricultura brasileira: a) a continuidade da atual política cambial, que além de diminuir a competitividade brasileira no cenário internacional, desestimula os produtores; b) o aprofundamento da crise logística nos aeroportos brasileiros, que já inibe o despacho aduaneiro, compromete a imagem do País e sinaliza a perda de clientes e contratos importantes a curto e médio prazos; c) o crescimento da participação chinesa no mercado mundial, especialmente nos segmentos de produção de materiais propagativos, como bulbos e mudas, e d) o desempenho futuro das exportações colombianas de flores frescas ao mercado norte-americano, sob o amparo do tratado de livre-comércio em fase de aprovação final, que atualiza e revigora a política dos EUA de fornecer mecanismos de apoio ao combate ao narcotráfico e ao terrorismo na região andina (3).
A Balança Comercial da Floricultura Brasileira, no período de janeiro a dezembro de 2006, acumulou saldo de US$ 21,09 milhões, mantendo a performance de importação na faixa de equivalência correspondente a aproximadamente 29% sobre os valores exportados, o que se deve à aquisição internacional de materiais de propagação, como bulbos e mudas, necessários para a manutenção e desenvolvimento da atividade no País. Esse indicador aponta, portanto, para a continuidade do movimento de estabilidade da produção de flores e plantas ornamentais do Brasil, pelo menos a curto prazo.
No acumulado no ano, as importações brasileiras desses insumos se concentraram principalmente na aquisição de bulbos, tubérculos, rizomas e similares (32,40%), mudas de plantas ornamentais (22,75%), mudas de orquídeas (12,40%), mudas de outras plantas ornamentais (8,20%) e estacas não enraizadas e enxertos (0,04%). Com importância secundária, ocorreram, para consumo direto, importações de flores e botões frescos de corte (16,02%); bulbos e tubérculos em vegetação ou florescimento (7,56%), musgos e liquens (0,25%), outras plantas vivas (0,17%), flores e botões secos de corte (0,12%) e folhagens e ramos secos de corte (0,10%).
Na análise por segmentos, o grupo de produtos que mais se destacou em 2006 foi o de Mudas de Plantas Ornamentais(4), tradicional esteio das exportações brasileiras e que respondeu, na média dos últimos três anos, por 48,02% do total vendido no exterior e por 45,48% no período de janeiro a dezembro de 2006. O setor somou exportações de US$ 13,476 milhões, que representaram um crescimento de 12,58% sobre o período de janeiro a dezembro de 2005. Os maiores importadores foram a Holanda (42,65%), seguida de Estados Unidos da América (18,85%), Itália (17,52%), Japão (7,94%), Bélgica (5,19%) e Espanha (3,30%), além de outros 15 países de destino. Os produtos principais seguiram sendo representados pelas estacas de crisântemos, segmento no qual o Brasil é considerado o principal parque industrial produtivo fora da Holanda. Cabe notar que a presença brasileira tem se ampliado gradativa e consistentemente no mercado da América do Norte, consolidando um crescimento de 104,18% nas exportações para o Canadá, 71,53% para os EUA e 59,82% para o México. Também os países da região do Cone Sul começam a se tornar consumidores cada vez mais interessantes para as mudas de plantas ornamentais brasileiras, com crescimento de 139,48 % das vendas para o Chile e de 18,27% para a Argentina. Na região do euro, os crescimentos mais importantes se verificaram para França (60,80%), Espanha (26,86%) e Bélgica (11,90%). Nota-se, a cada ano, que o Brasil consegue ampliar sua carteira de clientes setoriais, atestando a imagem de alta qualidade já conquistada pelo País, especialmente neste segmento de mudas de plantas ornamentais.
Os principais estados de origem na exportação de mudas de plantas ornamentais foram: São Paulo, com US$ 11,156 milhões (82,78%), seguido pelo Rio Grande do Sul (15,58%), Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro.
O segmento dos Bulbos, Tubérculos, Rizomas e Similares(5), por sua vez, continuou na segunda posição do ranking, no qual acumulou 24,38% nos últimos três anos e 34,32% em 2006. Suas vendas internacionais atingiram US$ 10,169 milhões com o notável índice de crescimento de 50,89% sobre o ano anterior. As exportações foram concentradas para a Holanda (79,33%), seguida de Estados Unidos da América (15,32%), além de México, Canadá, Uruguai, Chile, Japão e Reino Unido. Da mesma maneira que no caso das mudas de plantas ornamentais, os exportadores setoriais vêm conseguindo ampliar e diversificar gradativamente a sua clientela, com importantes aumentos de vendas comparativos ao mesmo período do ano passado para o Canadá (223,82%) e México (111,74%). Os principais produtos exportados são os bulbos de gladíolos, lírios e amarílis (principalmente para o mercado Holandês) e de Caladium, que seguem prioritariamente para o varejo norte-americano.
As exportações brasileiras de bulbos foram originárias dos Estados de São Paulo (77,95%) e Ceará (22,05%).
As Flores e Botões Frescos de Corte para Buquês e Ornamentações(6) - terceiro grupo em importância na pauta de exportações, com participação de 17,91% na média dos últimos três anos e de 10,43% no período de janeiro a dezembro de 2006 – somou vendas internacionais de US$ 3,092 milhões, mas teve um desempenho negativo comparado com os resultados do mesmo período do ano anterior. Os maiores volumes embarcados saíram para os EUA (79,44%), seguidos de Suíça (4,93%), Portugal (4,28%), Canadá (2,97%), Holanda (2,34%) e Argentina (1,69%) além de outros 10 países de destino.
Neste grupo, destacaram-se as flores de climas temperado e subtropical, como as rosas que foram exportadas para a Holanda, EUA e Portugal entre outros, seguidas por lisianthus, gérberas, lírios e crisântemos, principalmente para o mercado norte-americano. O principal Estado exportador foi São Paulo, que concentrou 89,24% das operações comerciais neste segmento, em 2006. Seguiram-lhe os Estados de Minas Gerais (5,41%), que vem recuperando gradativamente a importância da região de Barbacena, especialmente nas exportações de rosas para Portugal, e do Ceará (2,72%) com vendas de rosas e outras flores para Holanda, Dinamarca, França, Suriname, Estados Unidos e Alemanha.
As flores e folhagens tropicais como helicônias, alpínias, bastão-do-imperador, ananás ornamental, dracenas, cordilines, entre outras, seguiram para a Europa, especialmente Itália, Alemanha, Holanda e Polônia, além de serem exportadas na forma de buquês prontos para a exposição e comercialização direta nos pontos-de-venda, especialmente para Suíça, Portugal e França. Tiveram como origem principal os Estados de Pernambuco, Alagoas e Ceará.
No segmento de folhagens e ramos cortados, as estatísticas oficiais recém divulgadas pelo MDIC devem ser analisadas com muito cuidado em relação aos subgrupos das Folhagens e Ramos Cortados Frescos(7) e o dos seus correspondes secos. Nesse sentido, os dados para 2006 acabaram apontando para um crescimento extremamente acentuado das exportações das folhagens e ramos cortados frescos, cujo valor de vendas somou US$ 1,682 milhão, com crescimento de 328,11% sobre os resultados de 2005. Note-se que esse setor, apesar de ser apontado como um dos mais promissores na pauta das exportações setoriais do País - dada a peculiar riqueza natural da flora brasileira em espécies aptas para o fornecimento de materiais desse grupo - vem, até então, apresentando desempenho bem mais modesto. Nas exportações totais de 2005, por exemplo, o valor global das vendas de folhagens e ramos cortados frescos foi de US$ 392.878,00, resultado que já representou, na época, um crescimento de praticamente 5 vezes o de 2004. Essas exportações de folhagens e ramos cortados frescos exportados pelo Brasil, no período de janeiro a dezembro de 2006, foram apontadas como originárias dos Estados de Minas Gerais (88,22%), Santa Catarina (8,85%), Alagoas (2,47%), Pernambuco (0,41%) e Ceará (0,04%).
Por outro lado, verificando-se o comportamento histórico do comércio exterior do Estado de Minas Gerais nesses dois segmentos, observou-se que, surpreendentemente, a tradição mineira de participar no mercado de Folhagens e Ramos Cortados Secos(8), não apareceu contemplada nas estatísticas do mesmo período, tendo, aliás, contabilizado queda de 71,14% em comparação com 2005.
Note-se que o Estado de Minas Gerais é o único a explorar o extrativismo e as vendas internacionais das populares e muito apreciadas sempre-vivas nativas da região de Diamantina9. Uma busca mais avançada nos dados disponibilizados pelo MIDC mostrou, ainda, que tais exportações foram escoadas prioritariamente por via marítima, através do Porto de Sepetiba, no Estado do Rio de Janeiro, modalidade, portanto, imprópria para a exportação de produtos frescos cortados para buquês e outras ornamentações. Os principais clientes externos para as folhagens e ramos frescos cortados do Brasil, apontados pelas estatísticas oficiais do MDIC para 2006, foram coincidentes com os do produto seco correspondente para os períodos históricos anteriores: Holanda (29,35%), EUA (23,07%), Itália (19,44%) e Alemanha (9,08%), além de outros 14 países de destino.
Portanto, apesar do sucesso permanentemente projetado para o futuro das exportações das folhagens de corte frescas brasileiras - capazes de compor arranjos e decorações em todo o mundo com diferenciais inimitáveis de qualidade, beleza e durabilidade - acredita-se que os dados presentemente divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior estejam equivocados, devendo referir-se, na verdade, à continuidade dos processos das já tradicionais exportações mineiras de folhagens e ramos secos.
Exportações de flores e plantas ornamentais distribuem benefícios pelos diversos pólos de produção em todo o Brasil
Um dos aspectos extremamente favoráveis observados na evolução do desempenho exportador da floricultura brasileira tem sido o da distribuição dos seus resultados e benefícios por uma ampla gama de produtores e empresas, dispersos pelos principais pólos de produção de flores e plantas ornamentais de todo o País.
Embora o Estado de São Paulo ainda concentre parcela extremamente relevante dos resultados da balança comercial da floricultura (73,91%), seguindo pelo Rio Grande do Sul (9,13%), Ceará (7,99%), Minas Gerais (5,59%), Pará, Santa Catarina, Alagoas, Pernambuco, Espírito Santo, Goiás, Paraná, Rio de Janeiro e Mato Grosso, observa-se, a cada ano que passa, um notável crescimento das exportações regionais.
Comparativamente a 2005, os Estados que mais se destacaram no crescimento dos valores exportados de flores e plantas ornamentais foram: Alagoas (+88,36%), Santa Catarina (+ 65,14%), Ceará (+40,93%), Rio Grande do Sul (+25,11%), Pará (+19,77%), Pernambuco (+17,04%), Minas Gerais (+12,99%) e São Paulo (+11,17%).
Autores:
- Antonio Hélio Junqueira é Engenheiro Agrônomo, especialista em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (PNUD/FAO), sócio administrador da Hórtica Consultoria e Treinamento.
- Marcia da Silva Peetz é Economista, especialista em economia agrícola e comercialização, sócia administradora da Hórtica Consultoria e Treinamento.
Legenda:
(3) A maioria dos produtos colombianos já tem livre acesso ao mercado norte-americano desde 1991, amparada pelo programa destinado a apoiar países da região andina no combate à produção de cocaína. Esse programa estava prestes a ter sua data de validade vencida, mas deve ser revigorado pelo atual tratado em vias de ser aprovado pelo governo dos EUA.
(4) Código NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul) 06029029 – Mudas de Outras Plantas Ornamentais.
(5) Código NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul): 06011000 – Bulbos, Tubérculos, Rizomas etc., em Repouso Vegetativo.
(6) Código NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul): 06031000 - Flores e Seus Botões, Frescos, Cortados para Buquês, etc.
(7) Código NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul): 06049-100 – Folhagem, Folhas, Ramos de Plantas, Frescos, P/Buquês, etc.
(8) Código NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul): 06049900 – Folhagem, Folhas, Ramos de Plantas, Secos, etc., p/ Buquês, etc.
(9) Apesar da existência de um subgrupo específico para as flores e botões cortados secos nas estatísticas de exportações (Código NCM 06039000), os valores estatísticos divulgados fazem crer que essas flores sejam contabilizadas, na sua quase totalidade, junto ao subgrupo das folhagens, ramos e plantas secas (Código NCM 06049900).
Informações complementares, tabelas e séries estatísticas passarão a estar disponíveis no site www.hortica.com.br a partir da sua inauguração, em 13/02/2007.