A florada 2006 já acabou? Ainda há mais botões florais para abrir? Os cafeicultores estão extremamente apreensivos com relação à safra vindoura; em contrapartida, os técnicos das principais regiões cafeeiras já possuem um cenário montado bastante preciso da real situação da atual florada. Tínhamos uma posição do que estava acontecendo, mas para fomentar ainda mais a precisão nas informações, esperamos a realização do 32º Congresso Brasileiro de Pesquisa Cafeeira. Participamos do referido congresso e podemos aprimorar ainda mais a posição de como encontra-se a atual florada; encontramos com inúmeros Agrônomos de todas as regiões cafeeiras do Brasil e pudemos confirmar nossa posição: É unânime a descrição de uma florada desigualada, minguada e inexistente (em alguns casos).
Descrito de uma maneira generalizada, por ordem de importância ou prejuízo, o quadro geral de gravidade tem no início da lista o Sul de Minas, seguido das seguintes regiões: Mogiana em São Paulo, Zona da Mata de Mineira e Bahia; apresentando as menores intensidade de prejuízos segue o Espírito Santo, principalmente onde localiza-se o Robusta (Conillon). Os cafeicultores de forma geral ainda não perceberam a gravidade dos fatos baseados na frase: "A esperança é a última que morre".
Com o passar dos próximos dias e a confirmação de uma florada já comprometida, permanecerá ainda, como sempre, a esperança nas produções vindouras, de 2008 e 2009, e assim por diante; os cafeicultores, assim como os agricultores de um modo geral, são homens esperançosos e batalhadores; mas, infelizmente, para 2007 sobrará somente a decepção de uma safra frustrante.
Pode-se considerar de conhecimento geral e sabido que as produções cafeeiras ocorrem de fato seguindo a rigor a bienalidade, ou seja, um ano de produção expressiva seguido por outro com queda marcante na produção; tal queda marcante é variável, todavia sempre em patamares expressivos, ficando entre 28 a 58%, conforme segue o exemplo:
Safra - Produção(milhões de sacas) - index. (%) - Quebra (%)
1965/1966 - 37,00 - 100,00 - 49,19
1966/1967 - 18,80 - 50,81
1981/1982 - 33,70 - 100,00 - 51,93
1982/1983 - 16,20 - 48,07
1983/1984 - 30,40 - 100,00 - 28,29
1984/1985 - 21,80 - 71,71
1985/1986 - 32,60 - 100,00 - 58,59
1986/1987 - 13,50 - 41,41
1987/1988 - 42,90 - 100,00 - 51,98
1988/1989 - 20,60 - 48,02
1996/1997 - 27,50 - 100,00 - 31,27
1997/1998 - 18,90 - 68,73
Quebra Média (%) = 45,21
Fonte: Coffeebusiness (Anuário Estatístico do Café 2000/2001. Página 64.)
Tais quebras de safras, devido à bienalidade, são históricas e ocorrem numa freqüência tecnicamente lógica.
Evidentemente teríamos uma quebra de pelo menos 30% da safra 2007/2008, em relação à safra 2006/2007. Entretanto, se considerarmos todo essa desventura pertinente à florada atual, este número pode tornar-se mais expressivo, e com certeza impactará em uma quebra de produção além de 30%.
Quando chegou agosto começamos a observar que lavouras, não irrigadas, apresentavam poucos botões florais; adentramos setembro, entrada da primavera, e as floradas ainda concentravam-se apenas no ponteiro, seguidas de pequenas floradas no terço-médio, praticamente inexistindo o aparecimento de flores no terço inferior das plantas de café. Chegaram as chuvas mais volumosas de outubro e tal cenário infortúnio mudou muito pouco. Até o momento, de maneira generalizada, com exceção as lavouras novas, esqueletadas e as adultas irrigadas, as demais mostraram um comportamento atípico e preocupante, ou seja, a maioria de nossos cafezais não apresentou aquela florada exuberante e esplendorosa, característica de anos de boa produção.
Já estamos entrando em novembro e, tudo indica que, se ocorrerem outras floradas, serão inexpressivas; a partir de meados de novembro estaremos adentrando a proximidade do verão e seremos insipientes em acreditar que floradas nesta época são comparadas àquelas que ocorrem no vigor da primavera, ao final de setembro a meados de outubro. Floradas que poderão ocorrer a partir de novembro serão pobres e insuficientes para sustentar uma produção significativa e/ou uma produtividade economicamente viável.
Outro fator preocupante, narrado pelos diversos técnicos que conversamos no mencionado congresso, é a incidência de pequenas floradas, esparsas no tempo, que comprometerão a qualidade do café na colheita vindoura. Provavelmente teremos, devido a este fator, uma heterogeneidade na maturação do café, com a presença de fruto verdes e mal granados concomitantemente à cafés cereja e bóia; prejudicando o tipo dos cafés colhidos pela presença de grãos verdes e pretos.
Existem diversos fatores que influenciam no desempenho da florada: patogênicos, climáticos, nutricionais, entre outros; pensamos que a florada atual é deficiente principalmente ao fator clima, mais precisamente a seca. Quem tem acompanhado sabe que o ano de 2006 está sendo muito atípico nas principais regiões cafeeiras com relação aos índices pluviométricos; janeiro e/ou fevereiro já demonstrando um nível pluviométrico muito aquém da média histórica; chegamos a abril e maio com a repetição deste fenômeno. Isso, consequentemente, acarretou um forte déficit hídrico que impede uma diferenciação floral ideal. Os meses de janeiro a maio são decisivos na indução floral, ou seja, época em que as gemas do ramo de café "optam" por diferenciarem-se em ramos/folhas ou flores/frutos; se nesta época, de janeiro a maio, ocorrer qualquer anormalidade para as plantas de café, por exemplo déficit hídrico, uma forma de defesa natural do cafeeiro é induzir suas gemas a diferenciarem-se em ramos/folhas ao invés de flores/frutos, pois esta "opção" ajudará nas defesas da planta ao contrário de flores/frutos que consumirão suas energias; assim, devido a este fator, é comum vermos lavouras atualmente, que sofreram seca nos meses de janeiro a maio, muito enfolhadas e com ramificação em abundância, todavia com floradas inexpressivas.
Para elucidar os fatos, citamos o déficit hídrico acumulado de 250,6 milímetros, em 30/09/2006, em Varginha / MG. Dados estes divulgados no Boletim nº 97 da Estação de Avisos Fitossanitários, do Ministério da Agricultura. Ocorrência semelhante na Zona da Mata Mineira, onde a Estação de Avisos Fitossanitários Heringer/PROCAFÉ (CEPEC), no município de Martins Soares / MG, divulgou também em 30/09/2006 através do Boletim nº 56, que o déficit hídrico acumulado era de 232,0 milímetros nos nove primeiros meses de 2006. É notório que tais déficits hídricos ocorreram em importantes regiões produtoras de café. Fatos esses que não são tão distintos de outras regiões cafeeiras, ou seja, tivemos um ano seco e comprometedor para a produção.
Déficits hídricos acima de 150 milímetros são considerados extremamente prejudiciais à produção de café, inúmeras citações na literatura pertinente e moderna. Dentro deste contexto é evidente que a produção de 2007/2008 será muito aquém daquelas que o mercado ainda veicula, por não perceber ou não querer perceber.
Florada desigualada e minguada resultará numa produção frustrante e, com certeza, impactará diretamente nos preços. Ainda sem considerar os baixos estoques de passagem no Brasil e existentes no mercado internacional; mas isso é uma outra conversa...
Autores: Armando Matielli e André Luis Matielli são engenheiros agrônomos, ambos com MBA em Agribusiness (FGV) e Cafeicultores - Fazenda Jacutinga (Guapé/MG).