O Brasil é responsável por 38% do comércio mundial de soja, com produção estimada em 58 milhões de toneladas para a safra 2006/2007 (IBGE, 2007). Na safra 2005/2006 foram cultivados 22,2 milhões de hectares, com produção de 53,41 milhões de toneladas e produtividade de 2.403 kg ha-1 (CONAB, 2006). Dentre os produtos agropecuários exportados, a soja contribui com 42%, que equivale a, aproximadamente, US$ 10 bilhões anuais para a economia nacional (dados do Ministério do Abastecimento, Indústria e Comércio Exterior – DIC).
Sendo a soja uma cultura que representa fator econômico e social para o agronegócio, alguns fatores tecnológicos são de relevância na implantação e condução da lavoura. A observância da fertilidade do solo, da seleção de cultivares e das condições climáticas, com ênfase para aquelas relativas à época de semeadura, são fundamentais para o sucesso da lavoura. A produtividade e a qualidade de grãos de soja esperados na colheita têm início com a adoção de procedimentos imprescindíveis, como escolha de semente com padrão genético, qualidade fisiológica e, principalmente, fitossanidade compatível com as indicações técnicas, pois, na atualidade, as doenças constituem um dos fatores de maior interferência no rendimento da cultura. Tem-se, aproximadamente, conhecimento de 40 doenças, entre essas as causadas por fungos, bactérias, vírus e nematóides. Esse número aumenta com a expansão das lavouras de soja para novas áreas, mas sobretudo, devido à prática da monocultura. As perdas anuais de produtividade por doenças estão estimadas em cerca de 15% a 20%, porém, algumas doenças podem ocasionar 100% de perda
Sendo a semente um dos principais insumos da lavoura, é importante que no momento da aquisição desse produto se tenha conhecimento sobre o mesmo. Para se conhecer a qualidade da semente que se está adquirindo é necessário consultar o fornecedor sobre o Atestado de Garantia de Semente. Esse documento fornece informações oficiais das análises de qualidade da semente, atestando germinação, pureza física, pureza varietal e qualidade fitossanitária, parâmetros que devem estar de acordo com os padrões mínimos de qualidade de sementes estabelecidos. A qualidade fitossanitária é importantíssima para a tomada de decisão quanto ao tratamento que deverá ser efetuado na semente. Outros parâmetros poderão ser fornecidos, complementando as análises de garantia do produto adquirido, como por exemplo, teste de emergência em campo. Vários laboratórios particulares e oficiais prestam esse serviço no País
Além dessas providências e de adequados tratos culturais, a produtividade de uma lavoura de soja é extremamente dependente do macronutriente nitrogênio (N).
A demanda de N pela soja pode ser suprida a partir de diferentes fontes, como do solo, pela decomposição da matéria orgânica, de descargas elétricas, da combustão e atividades vulcânicas, de fertilizantes nitrogenados e, fundamentalmente, da capacidade da cultura em fixar, simbioticamente, N diretamente da atmosfera. A quantidade de N requerida pela soja, em condições de solo deficiente em N, sem, entretanto, elevar os custos de produção, é suprida mediante a inoculação das sementes ou do solo, com estirpes específicas de bactérias fixadoras de N2. O sucesso dessa tecnologia está associado ao eficiente estabelecimento de simbiose entre a planta e a bactéria, ação esta resultante, entre outros fatores, de inoculantes de elevada qualidade.
Nesse contexto, a pesquisa tem proporcionado informações relevantes, que vão desde o lançamento de cultivares, com elevado potencial genético, até a seleção de estirpes competitivas e altamente eficientes na fixação do N atmosférico. A ação conjugada desses fatores associados às novas formulações de inoculantes tem proporcionado aumentos consideráveis na produtividade de grãos dessa cultura, ultrapassando a 6.000 kg ha-1, podendo atingir 8.000 kg ha-1 (HUNGRIA & CAMPO, 2006; DENARDIN, 2006).
O Brasil tem adotado a prática de inoculação há vários anos, atingindo em 2004/2005 produção aproximada de 23 milhões de doses de inoculante.
A maximização do processo de fixação biológica de nitrogênio (FBN), para que a cultura da soja expresse a totalidade de seu potencial genético, requer um conjunto de procedimentos. Entre esses, os procedimentos já citados em referência à qualidade da semente, a escolha do inoculante assume relevância, estando, contudo, estreitamente associado à rotação de culturas, ao manejo de solo e ao manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas.
A bactéria em simbiose com a planta de soja poderá suprir a demanda de N sem a necessidade complementar de fertilizante nitrogenado. Para a produção de 1.000 kg de grãos de soja, a planta requer 65 kg de N, sendo necessários mais 15 kg alocados nas folhas, no caule e nas raízes. Dessa forma, para a produtividade de 3.000 kg ha-1 de grãos de soja são necessários 240 kg de N. Pesquisas conduzidas pela Embrapa Soja mostram que a obtenção total de N fixado pelo complexo soja e Bradyrhizobium tem sido estimado em 80% a 95% (HUNGRIA & CAMPO, 2006). Dentre os fatores que elevaram o processo de fixação do N2 destacam-se a adoção do sistema plantio direto, o qual proporciona ambiente de solo favorável tanto à planta quanto à bactéria para a interação evolutiva entre o macro e o microssimbionte.
Vários são os fatores que promovem estresse às células bacterianas. Condições como excesso de umidade e de acidez, deficiência de nutrientes e teor elevado de N no solo, bem como estresse da planta, por déficit hídrico e por fatores bióticos como doenças e pragas etc., podem inibir o processo de formação de nódulos e, conseqüentemente, a fixação biológica de N2.
Dentre as características importantes de um inoculante, destacam-se: ser de fácil manipulação e aplicação, e ter padrão requerido pela legislação vigente no país. Entre outras propriedades requeridas para os inoculantes, é que o suporte/substrato/veículo proporcione proteção às células bacterianas quando essas estiverem em contato com produtos fitossanitário para tratamento de sementes e, a outros produtos que possam vir a afetar a sobrevivência da célula bacteriana.
No Brasil são utilizados quatro estipes de Bradyrhizobium nos inoculantes. Duas de Bradyrhizobium japonicum (Semia 5079 = CPAC 15 e Semia 5080 = CPAC 7) e duas de Bradyrhizobium elkanii (Semia 587 e Semia 5019 = 29w). Essas estirpes são altamente eficientes na fixação de N, proporcionando o aporte de 300 kg ha-1 de N à cultura da soja (HUNGRIA & CAMPO).
A inoculação de sementes associada à co-aplicação de fungicidas, inseticidas e micronutrientes é prática agrícola usual, podendo afetar à sobrevivência dos rizóbios e, conseqüentemente, reduzir a nodulação e a fixação biológica de N2 (CAMPO & HUNGRIA, 2000). O tratamento de sementes com fungicidas garante o estabelecimento das plantas por controlar patógenos transmitidos pelas sementes, reduzindo a chance de introdução dos mesmos em lavouras endemes. Condições desfavoráveis à germinação, como deficiência hídrica, retardam o processo de germinação e emergência da cultura, permitindo exposição de sementes e de plântulas a patógenos, sendo nesse caso imprescindível o tratamento de sementes. Não tratar a semente talvez seja uma decisão de risco. Estudos têm demonstrado que muitos fungicidas proporcionam a morte de até 100% das células bacterianas, em apenas 2 a 3 horas após a co-aplicação desses junto ao inoculante (CAMPO & HUNGRIA, 2000; DENARDIN, 2006a). Isso acontece em decorrência das características físico-químicas de ingredientes empregados em algumas formulações de fungicida. Entretanto, alguns fungicidas apresentam baixa toxicidade e outras não afetam a sobrevivência de Bradyrhizobium (DENARDIN, 2006b).
Os micronutrientes, Co e Mo, são moléculas indispensáveis para a eficácia da FBN. Esses micronutrientes podem afetar, consideravelmente, o número de células de Bradyrhizobium junto às sementes. As indicações técnicas para uso desses micronutrientes, em tratamento de sementes, variam de 2 a 3 g ha-1, para Co, e de 12 a 30 g ha-1, para Mo. Quando micronutrientes forem empregados conjuntamente a fungicidas no tratamento de sementes antes da inoculação, haverá redução do número de nódulos e, conseqüentemente, haverá deficiência na FBN. Portanto, quando há necessidade de tratamento com fungicidas, é indicado aplicar os micronutrientes em pulverização foliar, preferencialmente, nos estádios de desenvolvimento V3-V5 (CAMPO et al., 2001).
Para minimizar danos causados por determinados fungicidas e/ou micronutrientes sobre os rizóbios e, conseqüentemente, frustrações de lavoura devido a ineficiente disponibilização de N e/ou perdas pela ausência de tratamento fitossanitário de sementes, tem sido recomendado usar o dobro da dose de inoculante como é usado para áreas de primeiro cultivo.
Inoculante é um produto que contém microrganismos vivos e por esta razão é indispensável observar as indicações para armazenamento e uso correto.
Para introduzir um número alto de células de rizóbios junto a sementes e aumentar a sobrevivência dessas no solo, várias alternativas são adotadas pela tecnologia de aplicação de inoculante. A adoção dessas tecnologias deve-se, em grande parte, às novas formulações e a novas tecnologias de aplicação, que tem proporcionado, além de maior eficácia ao processo de FBN, maior praticidade à inoculação.
Variadas formulações são comercializados no Brasil. Um inoculante de qualidade, segundo recomendações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), deverá ter uma concentração mínima de 109 células g-1 ou mL-1 de inoculante, garantindo uma população de 600.000 células de rizóbios por semente no ato da inoculação, juntamente à facilidade proporcionada pelo estado físico do inoculante ao processo de aplicação e as características que garantam a presença das células bacterianas junto à semente inoculada ou ao solo. Fator importante é a pureza do inoculante, ou seja, a presença exclusiva de células de rizóbios, garantindo, desse modo, a sobrevivência e a eficiência das células acondicionadas.
Existem laboratórios credenciados que fazem análise de qualidade de inoculantes, sendo que as análises oficiais são realizadas pelo Centro de Fixação Biológica do Nitrogênio da Fundação de Pesquisa Agropecuária – Fepagro, em Porto Alegre, RS. Essa instituição também é responsável por fornecer às indústrias as cepas originais de rizóbios recomendadas para a formulação dos inoculantes. É sempre indicado aos distribuidores e aos produtores de soja que tenham sempre a garantia de qualidade do inoculante. Para isso, devem levar amostras de lotes aos laboratórios credenciados para que sejam realizados os testes de qualidade e de pureza dos mesmos.
A tecnologia de inoculante teve grandes avanços nos últimos anos. Entre as formulações comercializadas no País a turfa, sozinha ou em mistura com inoculantes líquidos, tem sido ainda muito utilizada devido a suas características de funcionalidade como veículo e como substrato ao mesmo tempo (PUGASHETTI ET AL., 1971; ROUGHLEY, 1970). Esses tipos de formulação apresentam-se na forma de pó ou granulado, necessitando de aditivos para aderirem às sementes. Já as formulações fluídas (liquidas), desenvolvidas recentemente, vem obtendo grande aceitação pelos produtores de soja, pois são de fácil manuseio, podendo ser aplicadas diretamente à semente como ao solo, junto ao sulco de semeadura, não necessitando de aditivos para aderirem às sementes.
O aprimoramento dessas formulações fluídas tem sido continuamente realizado. Para que esses inoculantes possam garantir a sobrevivência das células de rizóbios por longos períodos de armazenamento (longevidade) e também às condições de estresse bióticos ou abióticos que poderão sofrer as células de rizóbios, a indústria de inoculante realiza estudos das condições físicas do veículo, como também, buscam continuamente produtos e aditivos protetores das células bacterianas, enquanto na semente por períodos longos e/ou quando essas estiveram tratadas com fungicidas, com inseticidas ou com ambos. Esses produtos são chamados de protetores celulares, sendo comercializadas com o intuito de favorecer também a pré-inoculação das sementes.
O sucesso da FBN é dependente de diversos fatores, como já citados. Contudo, estudos relativos à tecnologia de aplicação podem determinar o sucesso da mesma, assegurando a presença das células de rizóbios na semente e/ou ao solo. Entende-se por ""tecnologia de aplicação"" o emprego de todo o conhecimento determinante da correta colocação de um determinado produto em um determinado alvo, em quantidades suficientes para que se alcance o objetivo proposto. No momento da inoculação, faz-se necessário conhecer todos os fatores que determinam o sucesso dessa operação, bem como, tipo de inoculante e a forma de aplicação dos mesmos, elegendo-se os que proporcionem o melhor custo/benefício. Para isso, deve o agricultor buscar as informações pertinentes a cada inoculante antes de adquirir o mesmo. Os benefícios da reinoculação não devem ser esquecidos. Trabalhos conduzidos pela Embrapa Soja, em solos com populações estabelecidas de Bradyrhizobium, tiveram índices médios de aumento de 8% com a reinoculação. Ensaios conduzidos pela Universidade de Passo Fundo, em ano agrícola desfavorável, a reinoculação gerou índice de 4%, sendo que em anos normais a média igualou-se aos índices encontrados pela Embrapa Soja, determinando que a reinoculação é benéfica, tanto em termos técnicos como econômicos. A reinoculção de sementes para semeadura em solos com população de Bradyrhizobium estabelecida garante, no momento da germinação da semente, número de células que permite a formação de nodulação abundante e eficiente junto à coroa principal da raiz, favorecendo o estabelecimento da bactéria e a fixação de N mais rapidamente.
A magnitude da fixação biológica de N é, sem dúvida, exemplo de tecnologia de baixo custo com resultados extraordinários. Estima-se que a adoção dessa tecnologia gere uma economia de 3 bilhões de dólares a cada safra, sendo tecnologia limpa em que o Brasil se destaca pela adoção, servindo de exemplo a muitos países produtores
Norimar D´Avila Denardin
professora/pesquisadora Universidade de Passo Fundo, Faculdade de Agronomia e Medicina veterinária (FAMV), Universidade de Passo Fundo (UPF), (
[email protected])
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