O desenvolvimento e importância do agronegócio no Centro-Oeste já é fato reconhecido pela sociedade brasileira há bastante tempo. Na semana passada, outra questão definitivamente saiu do meio científico e ganhou o reconhecimento da sociedade, as Mudanças Climáticas. Após a divulgação, em Paris, do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, órgão ligado às Nações Unidas, a imprensa deu ampla divulgação de um fato que os cientistas não têm mais dúvidas: o Planeta está sim passando por severas alterações no clima.
O relatório traz várias indicações dessas mudanças e faz previsões alarmantes, como a possibilidade de aumentos na temperatura média terrestre entre 1,8 e 4°C, além do derretimento de calotas polares e elevação dos níveis do mar. Importante salientar que, segundo o relatório, mesmo que sejam interrompidas as atividades que causam as mudanças climáticas, o problema será menos intenso, mas ocorrerá.
Na primeira fase dos trabalhos em Mudanças Climáticas, os cientistas debruçaram-se em estudos para entender a dinâmica do clima, suas mudanças e quais as causas dessas alterações. Hoje já se sabe que as mudanças estão acontecendo, que são essencialmente atribuíveis à intensificação das atividades humanas e que são causadas pelo uso excessivo de combustíveis fósseis e desmatamento. Em uma segunda fase, os cientistas concentram-se nos possíveis efeitos danosos das Mudanças Climáticas à sociedade. Nesse ponto, modelos matemáticos e simuladores foram desenvolvidos e validados. Para tanto, foram utilizadas as observações detalhadas levantadas nas últimas duas décadas e as informações do passado obtidas em estudos geológicos e em colunas de gelo em calotas polares. As simulações do que acontecerá no futuro evidenciaram a vulnerabilidade de várias partes do Mundo. As previsões para o Brasil foram ainda refinadas com estudos regionais, a partir de modelos desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). A vulnerabilidade de vários ecossistemas brasileiros ficou evidenciada, com previsões de temperaturas de 3 a 4°C superiores e menores índices pluviométricos na maior parte do país, com exceção da Região Sul.
A pesquisa agropecuária sempre respondeu às questões colocadas, desde os primeiros relatórios datados de 1990, sendo fundamental o trabalho da Embrapa e Universidades no sentido de quantificar as contribuições da agricultura para o aquecimento global, assim como as possibilidades das atividades agrícolas minimizarem esse quadro. Foram, então, trabalhados os inventários de emissões da agricultura, entendidos os processos responsáveis por essas emissões e geradas tecnologias visando minimizar tais efeitos. Os estudos revelam um papel importante da agricultura, seja na retirada de carbono da atmosfera (seqüestro de carbono) ou na geração de energia renovável, com o aproveitamento das diversas formas de biomassa (lenha, álcool, biodiesel), no que vem sendo chamado de agroenergia.
Entretanto, os desafios colocados pelo relatório em Paris vão além da busca de alternativas para minimizar as emissões. Diante do fato de que, mesmo que consigamos reduzir drasticamente as emissões, ainda teremos sérias alterações no clima, os cientistas deverão enfatizar as possibilidades de adaptação às novas mudanças. Menores precipitações, temperaturas mais elevadas e eventos climáticos extremos (grandes tempestades, secas e veranicos mais severos) ocorrendo de forma mais constante são algumas das previsões. A agricultura torna-se mais vulnerável e a economia da região Centro-Oeste, fortemente ancorada nesse seguimento, passa a correr sérios riscos.
Entramos, portanto, em uma terceira fase dos estudos em Mudanças Climáticas, onde a pergunta central é: o que fazer para nos adaptarmos a um ambiente diferente? Algumas respostas já se encontram disponíveis, como as práticas de manejo conservacionistas onde o não revolvimento do solo, a permanência de cobertura morta, a rotação de culturas e a preservação dos mananciais trabalham para um melhor aproveitamento e preservação da água. Restam manter um constante desenvolvimento dessas tecnologias e ampliar a adoção de tais práticas através do incentivo ao sistema plantio direto, integração lavoura-pecuária e o desenvolvimento de sistemas agroflorestais. Outras respostas, no entanto, vão demandar empenho e foco da pesquisa, como o desenvolvimento de variedades e diversificação com novas culturas, mais eficientes no uso da água, mais tolerantes a elevadas temperaturas e a estresses hídricos.
A vulnerabilidade de uma região que tem sua econômia ancorada na agricultura é muito grande quando se fala de alterações no clima. A manutenção de um desenvolvimento de bases sustentáveis para o Centro-Oeste exige que se leve em consideração as Mudanças Climáticas, buscando novas adaptações e inovações tecnológicas à nossa já consagrada agricultura tropical. Cabe à sociedade e aos governos inserir em sua agenda de planejamento as estratégias de adaptabilidade às novas condições. O desafio está lançado.