Maior interessado na melhoria da infra-estrutura de transportes, o setor de cargas tem se mostrado otimista com o mapa desenvolvido pelo Ministério dos Transportes, que traça um diagnóstico da atual situação dos modais de transporte em cada Estado do país. Esse mapeamento é essencial para entender como se dá o fluxo das cargas dentro e fora do Brasil. Com ele, fica mais fácil enxergar onde estão os gargalos.
O governo acredita que essa matriz de origem e destino das cargas irá possibilitar um melhor gerenciamento da movimentação das mercadorias e das rotas no país, além de orientar investimentos conjuntos em infra-estrutura e iniciativas para a redução de fretes.
Envolvidos diretamente ou não na elaboração do mapa, os transportadores de cargas ficam mais confiantes em possível organização das estradas. Acredita-se também que um planejamento consistente com as demandas do país é exatamente do que precisa o setor para se fortalecer. O caos, principalmente das rodovias, em função da falta de planejamento e conservação, gera perdas significativas de qualidade, eficiência e competitividade do setor agrícola do país.
Podemos verificar o exemplo dos Estados Unidos, que se tornou um país rico e desenvolvido porque sempre deram atenção à construção de alternativas fluidas de transportes. Quando há planejamento adequado e baseado nas vantagens logísticas e estruturais, o país sai na frente. Quem escoa a produção com mais eficiência, reduz custos e ganha na competição internacional, com isso, exporta mais e fica mais rico. É um ciclo virtuoso. Se o Brasil não criar estrutura para acompanhar a expansão do agronegócio, mesmo com recordes de produção, vai ficar para trás, pois concretizando as previsões, não teremos condições de manter a competitividade por 2 anos, e são as exportações que estão segurando o país.
Os transportadores acreditam que para reverter esse quadro é preciso garantir custo, rapidez e segurança. Os três itens estão relacionados de uma maneira muito forte no Brasil: preço competitivo é conseqüência de um sistema integrado de fiscalização, que agilize a articulação dos pólos de produção, e da manutenção adequada estrutura de transportes, com modais seguros e conservados.
# Multimodalidade
O reequilíbrio da matriz de transportes é o principal desafio do governo federal. A falta de planejamento resultou na construção de um sistema desbalanceado, com predomínio de rodovias sobre os demais modais de transporte. O transporte de grãos mostra a má utilização da matriz brasileira. Em 2000, o Brasil transportava 82% dos grãos por rodovias, 16% por ferrovias e 2% por hidrovias. Enquanto isto, nos Estados Unidos, 28% da produção de grãos eram escoados por rodovias, 49% por ferrovias e 23% por hidrovias.
Do ponto de vista logístico, nossa economia é sustentada por caminhões difíceis de manter sempre em manutenção e estradas ruins. Por isso, se defende o aumento da capacidade dos sistemas ferroviário e hidroviário para “tirar o peso do sistema rodoviário”, que está sucateado – incluindo a frota, com idade média de 15 anos, quando o ideal é 4 ou 5 anos.
O reequlíbrio da matriz brasileira de transportes é uma demanda unânime, pois usar caminhões para transporte de commodities é escoar uma produção a um custo mais elevado e menos eficiente. Não devemos, entretanto, abandonar o transporte rodoviário em nome das outras modalidades. Nosso patrimônio rodoviário é de cerca de US$ 250 bilhões e precisa ser conservado. No entanto, a solução de longo prazo, é a chamada multimodalidade. A multimodalidade diminui as etapas de comercialização dos produtos e evita o turismo de mercadorias. Os modais devem ser complementares e não competitivos entre si.
Mas, enquanto a multimodalidade não chega, no curto prazo, o governo federal deveria tentar solucionar questões que não dependem de investimentos, mas de “decisões políticas”, como por exemplo, o problema das fronteiras estaduais, verdadeiras barreiras a serem atravessadas. Em razão da burocracia resultante de diferentes legislações, os transportadores chegam a perder um dia inteiro em cada posto, apenas conferindo a documentação de cada mercadoria. Um carreteiro pode transportar diversos tipos de mercadorias e se uma não atender às exigências, todas as outras ficam retidas por dias. Com isso, o tempo gasto por um caminhão para atravessar 6 Estados e chegar ao seu destino é inadequado e até absurdo. Assim, é preciso agilizar todo o sistema.
No Brasil, os entraves em transportes não se limitam à disponibilidade financeira. Os problemas vão desde os mais simples, como horário de funcionamento de aeroporto – quando o de um país abre, o do outro fecha e os aviões precisam ficar esperando – até os mais burocráticos, como fiscalizações sanitárias e fitossanitárias. E todos esses obstáculos poderiam ser resolvidos com soluções inteligentes e criativas. Na política de transportes não se deve falar só em obras, embora elas sejam importantíssimas. É preciso planejar, descobrir saídas, calcular os meios para se manter a obra e, principalmente, desburocratizar. Os problemas de aduana, por exemplo, poderiam ser facilmente resolvidos com um mínimo de boa vontade, racionalizando as diferenças de horários e locais de fiscalização.
Aperfeiçoar os corredores de exportação e economizar recursos nos transportes: essas são as duas principais reivindicações do setor de Agricultura para a consolidação do agronegócio no Brasil, frente à questão da logística. Com transporte mais eficiente e barato, o custo cai. Por isso, a agricultura é diretamente beneficiada pela eficiência da movimentação das mercadorias. Se não houver uma integração dos modais de modo a agilizar o escoamento da produção, fica difícil acompanharmos o crescimento agrícola do país.